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🏺 Tradição Portuguesa

Trás-os-Montes: tradições mágicas e populares

Bruxas e benzedeiras, cristãos-novos e orações secretas, caretos e festas de inverno, o Abade de Baçal e a Sexta-feira 13 de Montalegre: o que é antigo e o que é recente.

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Neste artigo
  1. O Abade de Baçal: o grande arquivo da região
  2. Bruxas e benzedeiras: duas figuras diferentes
  3. Vilar de Perdizes e o Padre Fontes
  4. Montalegre e a Sexta-feira 13: uma festa moderna
  5. Cristãos-novos e orações secretas
  6. Caretos e festas de inverno
  7. Superstições registadas
  8. Continue a ler
  9. Fontes

Trás-os-Montes tem fama de ser a região mais «mística» de Portugal. Parte dessa fama assenta em tradições antigas e bem documentadas. Outra parte é recente, criada nas últimas décadas para atrair visitantes.

Nesta página separamos as duas coisas: o que os etnógrafos registaram, o que a história confirma e o que é um evento moderno.

O Abade de Baçal: o grande arquivo da região

Quase tudo o que se sabe da tradição antiga do distrito de Bragança passa por Francisco Manuel Alves (1865–1947), o Abade de Baçal. Era padre na sua aldeia natal, Baçal, e dedicou a vida à arqueologia, à história e à etnografia.

A sua obra principal são as Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, em onze tomos, publicadas a partir de 1909. Os primeiros tratam de história, sociedade e genealogia. O tomo V é dedicado aos judeus da região. Os últimos tomos reúnem arqueologia, arte e etnografia: provérbios, lendas, romances tradicionais e superstições.

O museu regional de Bragança tem hoje o seu nome: Museu do Abade de Baçal.

Bruxas e benzedeiras: duas figuras diferentes

Na tradição transmontana, como no resto do país, distinguem-se duas figuras:

Figura Na crença popular
Bruxa Pessoa temida, a quem se atribuíam males, doenças do gado e quebrantos
Benzedeira Mulher (às vezes homem) que «tira» esses males com rezas, cruzes e gestos

As benzedeiras rezavam sobre o mau-olhado, o quebranto, a espinhela caída ou o cobrão. Usavam orações cristãs misturadas com fórmulas antigas, transmitidas oralmente.

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ O quebranto

Lembramos que estas práticas são tradição e crença. Qualquer problema de saúde deve ser visto por um médico.

Vilar de Perdizes e o Padre Fontes

Em Vilar de Perdizes (Montalegre), o Padre António Lourenço Fontes (n. 1940), pároco da aldeia desde 1971, organiza desde 1983 o Congresso de Medicina Popular. Junta ervanários, curandeiros, videntes e curiosos.

O Padre Fontes é também etnógrafo. Publicou, entre outras obras, Etnografia Transmontana e Usos e Costumes de Barroso (1972). Escreveu ainda sobre a Ponte da Mizarela, uma das «pontes do diabo» da tradição portuguesa.

Montalegre e a Sexta-feira 13: uma festa moderna

A Noite das Bruxas de Montalegre realiza-se em todas as sextas-feiras 13. É organizada pela Câmara Municipal desde 2002.

Tem desfiles, animação de rua, espetáculos no castelo e, depois da meia-noite, o Padre Fontes prepara a queimada, com um esconjuro recitado em voz alta.

É importante dizê-lo com clareza: é um evento turístico recente, não uma tradição antiga. A queimada e o seu «esconjuro» vêm da Galiza e são, eles próprios, uma criação do século XX.

Cristãos-novos e orações secretas

Depois da conversão forçada dos judeus em 1497, muitas famílias mantiveram em segredo orações e costumes judaicos. O Nordeste transmontano, com Bragança e muitas aldeias do distrito, foi um dos seus refúgios, e um dos alvos da Inquisição.

Algumas destas orações sobreviveram até ao século XX. Dois estudos ajudam a conhecê-las:

  • Manuel da Costa Fontes publicou em 1997 duas orações criptojudaicas recolhidas em Rebordelo (Vinhais) em 1980. Uma delas é uma adaptação da Oração do Justo Juiz cristã.
  • Marina Pignatelli publicou em 2022 Cadernos de Orações Cripto-Judaicas e Notas Etnográficas dos Judeus e Cristãos-Novos de Bragança (Etnográfica Press, acesso aberto).

Estas orações não eram «magia». Eram religião vivida às escondidas. Mas a vizinhança cristã nem sempre sabia distinguir, e por isso surgiam boatos e desconfianças.

➜ Oração do Justo Juiz

➜ A Inquisição em Portugal

Caretos e festas de inverno

Entre o Natal e os Reis, várias aldeias do distrito de Bragança celebram as Festas dos Rapazes (também chamadas Festas de Inverno). Rapazes mascarados, os caretos, percorrem casas e praças ao som da gaita de foles. Exemplos conhecidos são a Festa dos Rapazes de Varge e a Festa dos Moços de Constantim.

No Entrudo, os Caretos de Podence (Macedo de Cavaleiros) vestem fatos de franjas coloridas e máscaras de lata e correm a aldeia a chocalhar. A UNESCO inscreveu o Entrudo de Podence no Património Cultural Imaterial da Humanidade em 12 de dezembro de 2019.

Muitos estudiosos ligam estas festas a antigos ritos de inverno e de fertilidade, ou a ritos de passagem dos rapazes solteiros. É uma interpretação: a ligação a rituais pré-cristãos é plausível, mas não há documentos que a provem diretamente.

➜ Os caretos e o Entrudo transmontano

Superstições registadas

Entre as crenças registadas na região estão:

  • o lobisomem, associado ao sétimo filho varão seguido;
  • as bruxas que se transformariam em animais;
  • os amuletos contra o mau-olhado, como o signo-saimão em portas e chaminés.

São crenças que o povo contava, não factos. O seu valor está no que revelam sobre os medos e a vida das aldeias.

➜ O signo-saimão

Continue a ler

➜ Minho: bruxaria e superstições

➜ Beiras: tradições ocultas e populares

Fontes

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