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🏺 Tradição Portuguesa

Sexta-feira 13: de onde vem a superstição

De onde vem a sexta-feira 13: uma superstição do séc. XIX, não dos Templários. A terça-feira 13 em Espanha, a sexta na tradição portuguesa e a festa de Montalegre.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha rápida
  2. A sexta-feira: um dia com má fama antiga
  3. O 13: o número a mais
  4. Quando se juntaram os dois azares
  5. E os Templários?
  6. Terça-feira 13: o azar noutros países
  7. A sexta-feira na tradição portuguesa
  8. Montalegre: uma tradição nova
  9. Medo real?
  10. Continue a ler
  11. Fontes

A sexta-feira 13 parece uma superstição antiquíssima. Não é. A junção da sexta-feira com o número 13 só aparece por escrito no século XIX e torna-se popular no século XX.

Antes disso existiam duas crenças separadas: a sexta-feira como dia de pouca sorte e o 13 como número de azar. Nesta página vemos como se juntaram, porque a famosa explicação dos Templários não serve, e como Portugal vive o dia.

➜ Superstições portuguesas

Ficha rápida

Campo Informação
O que é Crença de que a sexta-feira que calha a dia 13 traz azar
Primeira menção conhecida Peça francesa de 1834
Popularização Romance americano Friday, the Thirteenth (1907)
Variantes Terça-feira 13 em Espanha, na América Latina e na Grécia
Medo do 13 Triscaidecafobia
Medo da sexta-feira 13 Parascavedecatriafobia (nome moderno, informal)

A sexta-feira: um dia com má fama antiga

Para os cristãos, a sexta-feira é o dia da morte de Cristo. Por isso é, desde há muitos séculos, um dia de penitência. O Código de Direito Canónico (1983) ainda diz que todas as sextas-feiras do ano são dias penitenciais (cânone 1250).

A ideia de que a sexta-feira dá azar já aparece no século XIV: nos Contos da Cantuária, de Chaucer, uma desgraça acontece precisamente «numa sexta-feira».

Curiosamente, no século VI, em Braga, a sexta-feira tinha a fama contrária. São Martinho de Dume criticava os camponeses que escolhiam o «dia de Vénus» — a sexta — para casar, por ser dia de bom agouro para o amor.

➜ São Martinho de Dume e as superstições dos camponeses

O 13: o número a mais

O azar do 13 explica-se muitas vezes pelo 12: doze meses, doze apóstolos, doze signos. O 13 seria o número que «sobra».

A crença dos treze à mesa (um deles morre dentro de um ano) está documentada desde 1774, já explicada pela Última Ceia: Jesus e os doze apóstolos.

Há uma explicação muito repetida que não tem base: a de Loki, o deus nórdico que teria sido o 13.º convidado de um banquete. Essa versão foi divulgada num livro de 1968; os textos nórdicos antigos não falam de treze convidados.

Quando se juntaram os dois azares

As primeiras referências conhecidas são todas do século XIX:

  • 1834 — numa peça francesa, uma personagem queixa-se de ter nascido «numa sexta-feira, 13 de dezembro», e daí virem todas as suas desgraças.
  • Pouco depois de 1868 — numa biografia do compositor Rossini, o inglês H. S. Edwards nota que ele tinha a sexta-feira por dia de azar e o 13 por número de azar… e morreu numa sexta-feira, 13 de novembro de 1868.
  • 1907 — o romance Friday, the Thirteenth, de Thomas W. Lawson, conta como um corretor usa a superstição para provocar pânico na Bolsa de Nova Iorque.

Depois, no século XX, a imprensa e, mais tarde, o cinema de terror fizeram o resto.

E os Templários?

É a explicação mais conhecida: na sexta-feira, 13 de outubro de 1307, o rei Filipe IV de França mandou prender os Templários em todo o reino.

A data é verdadeira. A ligação à superstição não. Por três razões:

  1. Ninguém a refere durante mais de cinco séculos. As primeiras menções à sexta-feira 13 (1834 e a biografia de Rossini) não falam dos Templários.
  2. A ligação foi inventada há pouco tempo e popularizada no início do século XXI pelo romance O Código Da Vinci.
  3. As prisões de 1307 não deram fama de azar ao dia em França nem noutro lado: não há qualquer registo disso.

Em Portugal, a história dos Templários teve outro final. O rei D. Dinis conseguiu que os seus bens passassem para uma ordem nova, a Ordem de Cristo, aprovada pelo papa João XXII em 1319 e mais tarde sediada em Tomar.

➜ Baphomet e os processos dos Templários

Terça-feira 13: o azar noutros países

Em Espanha, na América Latina e na Grécia, o dia temido é a terça-feira 13. Em castelhano diz-se: «En martes, ni te cases ni te embarques».

A terça-feira era o dia de Marte (Ares, para os gregos), o deus da guerra. Na língua portuguesa, onde os dias têm números em vez de nomes de deuses, essa associação desapareceu.

A sexta-feira na tradição portuguesa

Em Portugal, a sexta-feira tem sobretudo um peso religioso: jejum e abstinência na Quaresma, a Sexta-feira Santa e o costume de não comer carne às sextas.

O 13, por seu lado, é aqui um número de devoção, não de azar:

  • 13 de junho — Santo António, feriado em Lisboa;
  • 13 de maio e 13 de outubro — datas da primeira e da última aparição de Fátima, em 1917.

A sexta-feira 13 «à americana» chegou a Portugal sobretudo pela imprensa e pelo cinema do século XX.

➜ Santos populares

Montalegre: uma tradição nova

Em Montalegre, no Barroso, cada sexta-feira 13 é dia de festa. Desde 2002, a vila organiza a Noite das Bruxas, um grande espetáculo de rua junto ao castelo. O ponto alto é a queimada, preparada pelo padre António Fontes enquanto se recita um esconjuro.

Atenção: é uma festa moderna, criada no século XXI e inspirada no folclore. Não é um ritual antigo, e a própria queimada com esconjuro é uma invenção galega do século XX.

➜ A queimada galega e o «conxuro»

➜ Lugares de bruxaria e lendas em Portugal

Medo real?

Os nomes triscaidecafobia (medo do 13, termo usado pelo psiquiatra Isador Coriat por volta de 1910) e parascavedecatriafobia (medo da sexta-feira 13) existem. O segundo é informal e atribuído ao terapeuta americano Donald Dossey.

Se um medo destes perturba o dia a dia, fale com o médico de família ou um psicólogo: as fobias tratam-se.

Continue a ler

➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas

➜ Tradição portuguesa — índice

Fontes

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