A sexta-feira 13 parece uma superstição antiquíssima. Não é. A junção da sexta-feira com o número 13 só aparece por escrito no século XIX e torna-se popular no século XX.
Antes disso existiam duas crenças separadas: a sexta-feira como dia de pouca sorte e o 13 como número de azar. Nesta página vemos como se juntaram, porque a famosa explicação dos Templários não serve, e como Portugal vive o dia.
Ficha rápida
| Campo | Informação |
|---|---|
| O que é | Crença de que a sexta-feira que calha a dia 13 traz azar |
| Primeira menção conhecida | Peça francesa de 1834 |
| Popularização | Romance americano Friday, the Thirteenth (1907) |
| Variantes | Terça-feira 13 em Espanha, na América Latina e na Grécia |
| Medo do 13 | Triscaidecafobia |
| Medo da sexta-feira 13 | Parascavedecatriafobia (nome moderno, informal) |
A sexta-feira: um dia com má fama antiga
Para os cristãos, a sexta-feira é o dia da morte de Cristo. Por isso é, desde há muitos séculos, um dia de penitência. O Código de Direito Canónico (1983) ainda diz que todas as sextas-feiras do ano são dias penitenciais (cânone 1250).
A ideia de que a sexta-feira dá azar já aparece no século XIV: nos Contos da Cantuária, de Chaucer, uma desgraça acontece precisamente «numa sexta-feira».
Curiosamente, no século VI, em Braga, a sexta-feira tinha a fama contrária. São Martinho de Dume criticava os camponeses que escolhiam o «dia de Vénus» — a sexta — para casar, por ser dia de bom agouro para o amor.
➜ São Martinho de Dume e as superstições dos camponeses
O 13: o número a mais
O azar do 13 explica-se muitas vezes pelo 12: doze meses, doze apóstolos, doze signos. O 13 seria o número que «sobra».
A crença dos treze à mesa (um deles morre dentro de um ano) está documentada desde 1774, já explicada pela Última Ceia: Jesus e os doze apóstolos.
Há uma explicação muito repetida que não tem base: a de Loki, o deus nórdico que teria sido o 13.º convidado de um banquete. Essa versão foi divulgada num livro de 1968; os textos nórdicos antigos não falam de treze convidados.
Quando se juntaram os dois azares
As primeiras referências conhecidas são todas do século XIX:
- 1834 — numa peça francesa, uma personagem queixa-se de ter nascido «numa sexta-feira, 13 de dezembro», e daí virem todas as suas desgraças.
- Pouco depois de 1868 — numa biografia do compositor Rossini, o inglês H. S. Edwards nota que ele tinha a sexta-feira por dia de azar e o 13 por número de azar… e morreu numa sexta-feira, 13 de novembro de 1868.
- 1907 — o romance Friday, the Thirteenth, de Thomas W. Lawson, conta como um corretor usa a superstição para provocar pânico na Bolsa de Nova Iorque.
Depois, no século XX, a imprensa e, mais tarde, o cinema de terror fizeram o resto.
E os Templários?
É a explicação mais conhecida: na sexta-feira, 13 de outubro de 1307, o rei Filipe IV de França mandou prender os Templários em todo o reino.
A data é verdadeira. A ligação à superstição não. Por três razões:
- Ninguém a refere durante mais de cinco séculos. As primeiras menções à sexta-feira 13 (1834 e a biografia de Rossini) não falam dos Templários.
- A ligação foi inventada há pouco tempo e popularizada no início do século XXI pelo romance O Código Da Vinci.
- As prisões de 1307 não deram fama de azar ao dia em França nem noutro lado: não há qualquer registo disso.
Em Portugal, a história dos Templários teve outro final. O rei D. Dinis conseguiu que os seus bens passassem para uma ordem nova, a Ordem de Cristo, aprovada pelo papa João XXII em 1319 e mais tarde sediada em Tomar.
➜ Baphomet e os processos dos Templários
Terça-feira 13: o azar noutros países
Em Espanha, na América Latina e na Grécia, o dia temido é a terça-feira 13. Em castelhano diz-se: «En martes, ni te cases ni te embarques».
A terça-feira era o dia de Marte (Ares, para os gregos), o deus da guerra. Na língua portuguesa, onde os dias têm números em vez de nomes de deuses, essa associação desapareceu.
A sexta-feira na tradição portuguesa
Em Portugal, a sexta-feira tem sobretudo um peso religioso: jejum e abstinência na Quaresma, a Sexta-feira Santa e o costume de não comer carne às sextas.
O 13, por seu lado, é aqui um número de devoção, não de azar:
- 13 de junho — Santo António, feriado em Lisboa;
- 13 de maio e 13 de outubro — datas da primeira e da última aparição de Fátima, em 1917.
A sexta-feira 13 «à americana» chegou a Portugal sobretudo pela imprensa e pelo cinema do século XX.
Montalegre: uma tradição nova
Em Montalegre, no Barroso, cada sexta-feira 13 é dia de festa. Desde 2002, a vila organiza a Noite das Bruxas, um grande espetáculo de rua junto ao castelo. O ponto alto é a queimada, preparada pelo padre António Fontes enquanto se recita um esconjuro.
Atenção: é uma festa moderna, criada no século XXI e inspirada no folclore. Não é um ritual antigo, e a própria queimada com esconjuro é uma invenção galega do século XX.
➜ A queimada galega e o «conxuro»
➜ Lugares de bruxaria e lendas em Portugal
Medo real?
Os nomes triscaidecafobia (medo do 13, termo usado pelo psiquiatra Isador Coriat por volta de 1910) e parascavedecatriafobia (medo da sexta-feira 13) existem. O segundo é informal e atribuído ao terapeuta americano Donald Dossey.
Se um medo destes perturba o dia a dia, fale com o médico de família ou um psicólogo: as fobias tratam-se.
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➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas
➜ Tradição portuguesa — índice
Fontes
- «Friday the 13th» e «Triskaidekaphobia», Wikipedia — en.wikipedia.org · en.wikipedia.org
- Código de Direito Canónico (1983), cânones 1250–1251 — vatican.va
- «Ordem de Cristo», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- A Voz de Trás-os-Montes, «Bruxas de regresso na primeira Sexta 13 do ano» — avozdetrasosmontes.pt
- «Paraskevidekatriaphobia, friggatriskaidekaphobia or triskaidekaphobia», Glossophilia — glossophilia.org