Há catorze séculos que a Igreja tenta afastar o povo das fontes, árvores e pedras. E há catorze séculos que o povo continua a voltar a elas — às vezes com um santo pelo meio.
Esta página reúne exemplos portugueses concretos, com localização e fonte: santuários romanos de água e de rocha, antas transformadas em capelas, pedras «de fazer filhos» e árvores que se tornaram devoção.
Separamos sempre o facto (o monumento, a data) da crença e da lenda. Encruzilhadas, pontes do diabo e torres de mouras estão noutra página.
➜ Lugares de bruxaria e lendas em Portugal
O que os bispos condenavam
O primeiro testemunho é de São Martinho de Dume, em Braga, por volta de 572: censura quem acende velas junto a pedras, árvores e fontes.
Um século depois, o XII Concílio de Toledo (681), que valia para todo o reino visigodo — incluindo o atual Norte de Portugal —, voltou ao tema. O cânone 11 condena os «veneradores de pedras», os que acendem tochas e os que praticam «ritos sagrados de fontes ou árvores». Mandava destruir esses lugares e castigar quem os frequentasse.
A insistência mostra uma coisa: estas práticas eram vivas e difíceis de apagar.
➜ São Martinho de Dume e o «De correctione rusticorum»
Mapa rápido
| Lugar | O que é |
|---|---|
| Fonte do Ídolo (Braga) | Santuário romano de água, séc. I |
| Panóias (Vila Real) | Santuário romano escavado na rocha, séc. II–III |
| Anta-Capela de Alcobertas (Rio Maior) | Anta transformada em capela |
| Anta de Pavia (Mora) | Anta transformada em capela de São Dinis |
| Pedra dos Mouros (Belas, Sintra) | Anta onde as recém-casadas escorregavam |
| Pedras Parideiras (Arouca) | Pedras que «parem» outras pedras |
| Pedra Bolideira (Chaves) | Penedo que oscila com um empurrão |
| Oliveira (Guimarães) | Árvore que deu nome a Nossa Senhora |
Fontes: a água sagrada
A Fonte do Ídolo, em Braga
Facto: no centro de Braga (Rua do Raio) há uma rocha de granito com inscrições e figuras esculpidas, do século I. É um pequeno santuário de água dedicado a Tongoenabiago, uma divindade indígena ligada aos cursos de água. Quem o mandou fazer foi Célico Fronto, natural de Arcóbriga.
É o único monumento romano de Bracara Augusta que chegou até nós relativamente inteiro. É Monumento Nacional desde 1910.
Mostra que, antes do cristianismo, a água que brota da rocha já era lugar de culto nesta região, e com deuses locais, não só romanos.
Das ninfas às fontes santas
José Leite de Vasconcelos dedicou parte das Religiões da Lusitânia (1897–1913) a este culto das águas. Depois, muitas fontes passaram a ter o nome de um santo ou de Nossa Senhora, e as mouras encantadas ficaram a guardá-las nas lendas.
Em 1882, o mesmo autor registou no Minho, no monte do Castelo (Vermoim), a crença de que «nesse monte está uma Moura».
Pedras: rochas que eram altares
Panóias, em Vila Real
Facto: em Vale de Nogueiras (Vila Real) há três grandes penedos com cavidades escavadas e inscrições em latim e grego, do fim do século II ou início do III. O santuário foi consagrado por um senador romano, Gaio Calpúrnio Rufino, a vários deuses, sobretudo Serápis, e aos deuses locais.
As inscrições descrevem o ritual: sacrifício de animais, queima das vísceras, banhos de purificação e uma iniciação. É um caso raro em que a própria pedra conta o que lá se fazia. É Monumento Nacional desde 1910.
Antas que viraram capelas
Uma forma de «cristianizar» uma pedra sagrada era construir-lhe uma capela por cima:
- Anta-Capela de Alcobertas (Rio Maior): uma anta de cerca de 3000 a.C., integrada no século XVII como capela lateral da igreja de Santa Maria Madalena. A imagem da santa está virada para o corredor neolítico. Imóvel de Interesse Público desde 1957.
- Anta de Pavia (Mora, Évora): transformada no século XVII em capela de São Dinis. Monumento Nacional desde 1910.
Não sabemos se estas antas eram ainda veneradas quando foram feitas capelas. O que se sabe é que a Igreja preferiu aproveitá-las em vez de as destruir.
Pedras de fecundidade
A Pedra dos Mouros (Belas, Sintra). Esta anta, de cerca de 3250 a.C., também chamada «Anta do Senhor da Serra», tinha um costume registado: as recém-casadas escorregavam pela pedra maior na esperança de engravidar. A prática durou até 1942, quando o dono do terreno proibiu o acesso. Em 2010, a pedra apareceu partida em pedaços.
As Pedras Parideiras (Castanheira, Arouca). É um fenómeno geológico raro: nódulos de granito em forma de disco que se soltam da rocha-mãe. O padre Luís Cardoso registou-o em 1751: o povo dizia que eram «pedras que parem». A crença local diz que dormir com uma debaixo da almofada ajuda a ter filhos.
São crenças populares. Dificuldades em engravidar devem ser acompanhadas por um médico. E as Pedras Parideiras ficam num geossítio protegido do Arouca Geopark: não se devem retirar pedras.
A Pedra Bolideira (Chaves)
Na Serra do Brunheiro, perto de Bobadela de Monforte (Chaves), há um penedo de granito com mais de 3 metros de altura que oscila com um empurrão, apesar de pesar várias toneladas. «Bolideira» vem de bolir, mexer.
Pedras assim chamam a atenção desde sempre, e circulam histórias sobre esta. Não encontrámos uma recolha publicada e fiável dessas lendas, por isso não as reproduzimos.
Árvores: de lugar pagão a devoção
As árvores eram, para Martinho de Dume e para o concílio de 681, lugares de culto a afastar. Mas a devoção cristã também se ligou a elas.
A oliveira de Guimarães
Em Guimarães, a igreja de Santa Maria passou a chamar-se de Nossa Senhora da Oliveira. Segundo o município, a invocação ganhou força depois de 1342, com o «reverdecimento» de uma oliveira na praça em frente. A lenda diz que a árvore, seca, voltou a ficar verde quando ali foi colocada uma cruz, oferecida pelo mercador Pedro Esteves e hoje guardada no Padrão do Salado.
O padrão e a cruz são factos. O reverdecimento é tradição.
A azinheira de Fátima
Em 1917, os pastorinhos relataram as aparições sobre uma pequena azinheira, na Cova da Iria. No lugar dessa árvore está hoje a Capelinha das Aparições. Em agosto de 1917, os próprios videntes cortaram ramos da árvore e levaram-nos para casa. Ao lado, a azinheira grande é árvore classificada de interesse público.
A figueira
No folclore português, a figueira tem fama oposta: árvore onde se juntariam bruxas e onde, diz a lenda, Judas se enforcou.
➜ A figueira no folclore português
Visitar com respeito
Muitos destes lugares são monumentos classificados ou locais de culto. Não se deve riscar, escavar, acender fogo nem retirar pedras. Se deixar uma vela num lugar de devoção, use sempre recipiente fechado e não a abandone acesa.
➜ Como usar velas com segurança
Continue a ler
➜ Tesouros encantados nas lendas portuguesas
➜ Tradição portuguesa — índice
Fontes
- «Fonte do Ídolo» e «Santuário de Panóias», Wikipédia — pt.wikipedia.org · pt.wikipedia.org
- «Anta-Capela de Alcobertas» e «Anta da Pedra dos Mouros», Wikipedia — en.wikipedia.org · en.wikipedia.org; «Anta de Pavia», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Pedras Parideiras», Wikipédia — pt.wikipedia.org; «Pedra Bolideira», Visit Chaves-Verín — visitchavesverin.com
- Câmara Municipal de Guimarães, «Igreja de Nossa Senhora da Oliveira» — cm-guimaraes.pt
- XII Concílio de Toledo (681), cânone 11: texto latino citado em «Pagan Survivals in Visigothic Spain» — alkman1.blogspot.com; e «Twelfth Council of Toledo», Wikipedia — en.wikipedia.org. José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882 — archive.org