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🏺 Tradição Portuguesa

Fontes, árvores e pedras sagradas em Portugal

Fontes, árvores e pedras sagradas em Portugal: Fonte do Ídolo, Panóias, antas feitas capelas, pedras de fecundidade, a oliveira de Guimarães. Com localização e fontes.

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Neste artigo
  1. O que os bispos condenavam
  2. Mapa rápido
  3. Fontes: a água sagrada
  4. Pedras: rochas que eram altares
  5. Árvores: de lugar pagão a devoção
  6. Visitar com respeito
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Há catorze séculos que a Igreja tenta afastar o povo das fontes, árvores e pedras. E há catorze séculos que o povo continua a voltar a elas — às vezes com um santo pelo meio.

Esta página reúne exemplos portugueses concretos, com localização e fonte: santuários romanos de água e de rocha, antas transformadas em capelas, pedras «de fazer filhos» e árvores que se tornaram devoção.

Separamos sempre o facto (o monumento, a data) da crença e da lenda. Encruzilhadas, pontes do diabo e torres de mouras estão noutra página.

➜ Lugares de bruxaria e lendas em Portugal

O que os bispos condenavam

O primeiro testemunho é de São Martinho de Dume, em Braga, por volta de 572: censura quem acende velas junto a pedras, árvores e fontes.

Um século depois, o XII Concílio de Toledo (681), que valia para todo o reino visigodo — incluindo o atual Norte de Portugal —, voltou ao tema. O cânone 11 condena os «veneradores de pedras», os que acendem tochas e os que praticam «ritos sagrados de fontes ou árvores». Mandava destruir esses lugares e castigar quem os frequentasse.

A insistência mostra uma coisa: estas práticas eram vivas e difíceis de apagar.

➜ São Martinho de Dume e o «De correctione rusticorum»

Mapa rápido

Lugar O que é
Fonte do Ídolo (Braga) Santuário romano de água, séc. I
Panóias (Vila Real) Santuário romano escavado na rocha, séc. II–III
Anta-Capela de Alcobertas (Rio Maior) Anta transformada em capela
Anta de Pavia (Mora) Anta transformada em capela de São Dinis
Pedra dos Mouros (Belas, Sintra) Anta onde as recém-casadas escorregavam
Pedras Parideiras (Arouca) Pedras que «parem» outras pedras
Pedra Bolideira (Chaves) Penedo que oscila com um empurrão
Oliveira (Guimarães) Árvore que deu nome a Nossa Senhora

Fontes: a água sagrada

A Fonte do Ídolo, em Braga

Facto: no centro de Braga (Rua do Raio) há uma rocha de granito com inscrições e figuras esculpidas, do século I. É um pequeno santuário de água dedicado a Tongoenabiago, uma divindade indígena ligada aos cursos de água. Quem o mandou fazer foi Célico Fronto, natural de Arcóbriga.

É o único monumento romano de Bracara Augusta que chegou até nós relativamente inteiro. É Monumento Nacional desde 1910.

Mostra que, antes do cristianismo, a água que brota da rocha já era lugar de culto nesta região, e com deuses locais, não só romanos.

Das ninfas às fontes santas

José Leite de Vasconcelos dedicou parte das Religiões da Lusitânia (1897–1913) a este culto das águas. Depois, muitas fontes passaram a ter o nome de um santo ou de Nossa Senhora, e as mouras encantadas ficaram a guardá-las nas lendas.

Em 1882, o mesmo autor registou no Minho, no monte do Castelo (Vermoim), a crença de que «nesse monte está uma Moura».

➜ As mouras encantadas

Pedras: rochas que eram altares

Panóias, em Vila Real

Facto: em Vale de Nogueiras (Vila Real) há três grandes penedos com cavidades escavadas e inscrições em latim e grego, do fim do século II ou início do III. O santuário foi consagrado por um senador romano, Gaio Calpúrnio Rufino, a vários deuses, sobretudo Serápis, e aos deuses locais.

As inscrições descrevem o ritual: sacrifício de animais, queima das vísceras, banhos de purificação e uma iniciação. É um caso raro em que a própria pedra conta o que lá se fazia. É Monumento Nacional desde 1910.

Antas que viraram capelas

Uma forma de «cristianizar» uma pedra sagrada era construir-lhe uma capela por cima:

  • Anta-Capela de Alcobertas (Rio Maior): uma anta de cerca de 3000 a.C., integrada no século XVII como capela lateral da igreja de Santa Maria Madalena. A imagem da santa está virada para o corredor neolítico. Imóvel de Interesse Público desde 1957.
  • Anta de Pavia (Mora, Évora): transformada no século XVII em capela de São Dinis. Monumento Nacional desde 1910.

Não sabemos se estas antas eram ainda veneradas quando foram feitas capelas. O que se sabe é que a Igreja preferiu aproveitá-las em vez de as destruir.

Pedras de fecundidade

A Pedra dos Mouros (Belas, Sintra). Esta anta, de cerca de 3250 a.C., também chamada «Anta do Senhor da Serra», tinha um costume registado: as recém-casadas escorregavam pela pedra maior na esperança de engravidar. A prática durou até 1942, quando o dono do terreno proibiu o acesso. Em 2010, a pedra apareceu partida em pedaços.

As Pedras Parideiras (Castanheira, Arouca). É um fenómeno geológico raro: nódulos de granito em forma de disco que se soltam da rocha-mãe. O padre Luís Cardoso registou-o em 1751: o povo dizia que eram «pedras que parem». A crença local diz que dormir com uma debaixo da almofada ajuda a ter filhos.

São crenças populares. Dificuldades em engravidar devem ser acompanhadas por um médico. E as Pedras Parideiras ficam num geossítio protegido do Arouca Geopark: não se devem retirar pedras.

A Pedra Bolideira (Chaves)

Na Serra do Brunheiro, perto de Bobadela de Monforte (Chaves), há um penedo de granito com mais de 3 metros de altura que oscila com um empurrão, apesar de pesar várias toneladas. «Bolideira» vem de bolir, mexer.

Pedras assim chamam a atenção desde sempre, e circulam histórias sobre esta. Não encontrámos uma recolha publicada e fiável dessas lendas, por isso não as reproduzimos.

Árvores: de lugar pagão a devoção

As árvores eram, para Martinho de Dume e para o concílio de 681, lugares de culto a afastar. Mas a devoção cristã também se ligou a elas.

A oliveira de Guimarães

Em Guimarães, a igreja de Santa Maria passou a chamar-se de Nossa Senhora da Oliveira. Segundo o município, a invocação ganhou força depois de 1342, com o «reverdecimento» de uma oliveira na praça em frente. A lenda diz que a árvore, seca, voltou a ficar verde quando ali foi colocada uma cruz, oferecida pelo mercador Pedro Esteves e hoje guardada no Padrão do Salado.

O padrão e a cruz são factos. O reverdecimento é tradição.

A azinheira de Fátima

Em 1917, os pastorinhos relataram as aparições sobre uma pequena azinheira, na Cova da Iria. No lugar dessa árvore está hoje a Capelinha das Aparições. Em agosto de 1917, os próprios videntes cortaram ramos da árvore e levaram-nos para casa. Ao lado, a azinheira grande é árvore classificada de interesse público.

A figueira

No folclore português, a figueira tem fama oposta: árvore onde se juntariam bruxas e onde, diz a lenda, Judas se enforcou.

➜ A figueira no folclore português

Visitar com respeito

Muitos destes lugares são monumentos classificados ou locais de culto. Não se deve riscar, escavar, acender fogo nem retirar pedras. Se deixar uma vela num lugar de devoção, use sempre recipiente fechado e não a abandone acesa.

➜ Como usar velas com segurança

Continue a ler

➜ Tesouros encantados nas lendas portuguesas

➜ Paganismo

➜ Tradição portuguesa — índice

Fontes

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