A triquetra é um desenho formado por três arcos entrelaçados que dão três pontas, como três folhas unidas no centro. Muitas vezes vem rodeada por um círculo.
É hoje conhecida como «nó celta», símbolo da Santíssima Trindade e, para muitos, um símbolo wiccano ou de bruxaria — em parte graças à série de televisão Charmed.
Mas a história é mais longa e menos simples. Nesta página separamos o que se sabe das origens das leituras que lhe foram dadas depois.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Triquetra (latim triquetrus, «de três cantos») |
| Outros nomes | Nó da Trindade, nó celta de três pontas |
| Origem mais antiga conhecida | Anatólia e Pérsia, c. séc. IV a.C. (cerâmica, moedas) |
| Culturas | Antiga do Mediterrâneo oriental, anglo-saxónica, irlandesa (arte insular), cristã, neopagã |
| Significados | Ornamento; Trindade (leitura cristã tardia); Deusa Tríplice (Wicca moderna) |
Triquetra e triskele: não confundir
- A triquetra é feita de três arcos em forma de lente entrelaçados.
- O triskele é feito de três espirais ou três pernas que giram a partir do centro.
São parentes visuais, mas têm histórias diferentes.
➜ Triskele
As origens: muito antes dos celtas cristãos
Os exemplos mais antigos conhecidos aparecem em cerâmica decorada da Anatólia e da Pérsia, por volta do séc. IV a.C., e em moedas antigas da Lícia (sul da atual Turquia).
Mais tarde, a triquetra surge na arte germânica: por exemplo, é um tema secundário mas repetido nas pequenas moedas anglo-saxónicas chamadas sceattas, de c. 710–760.
Na arte insular: o Livro de Kells
A triquetra tornou-se famosa na chamada arte insular — a arte cristã da Irlanda e da Grã-Bretanha. A partir do séc. VII, é frequente em:
- manuscritos iluminados, como o Livro de Kells;
- trabalho em metal (broches, relicários);
- cruzes altas de pedra da Irlanda;
- mobiliário de igreja, como o banco de pedra (frithstool) da Abadia de Hexham, em Inglaterra.
Aqui está o ponto essencial: nestas obras, a triquetra aparece quase sempre como ornamento, entre outros entrelaçados. Não sabemos o que os artistas medievais queriam dizer com ela, e os especialistas avisam que não se deve interpretar demais.
A leitura da Santíssima Trindade
A ideia de que a triquetra representa a Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) é hoje muito comum, e a iconografia católica atual usa-a com esse sentido.
Mas é uma leitura documentada sobretudo a partir do séc. XIX, com o renascimento celta. Uma das primeiras referências está na obra do antiquário irlandês George Petrie, The Ecclesiastical Architecture of Ireland (1845). Logo no início do séc. XX, o estudioso da arte celta J. Romilly Allen manifestava dúvidas sobre esse simbolismo.
Ou seja: a triquetra pode ter tido um sentido trinitário para alguns cristãos medievais, mas não está provado.
Na Wicca e no neopaganismo
No neopaganismo moderno, a triquetra ganhou novos sentidos:
- Na Wicca, é muitas vezes usada como símbolo da Deusa Tríplice (donzela, mãe e anciã) ou como sinal de proteção.
- No reconstrucionismo celta, pode representar tríades como terra, mar e céu, ou deusas triplas como a Morrígan.
Estas leituras são interpretações modernas (séc. XX), não heranças diretas de uma religião celta antiga.
➜ Wicca
➜ A lua tripla e a deusa tríplice
Na cultura popular
Muita gente conheceu a triquetra através da série Charmed (1998–2006): estava na capa do Livro das Sombras das irmãs Halliwell e representava o «Poder dos Três». A série ajudou a fixar a ideia de que a triquetra é um «símbolo de bruxas».
Aparece também na série alemã Dark (2017), ligada aos ciclos do tempo, no filme Thor (2011) e em muitos logótipos e jogos. Em joalharia irlandesa, é comum em anéis de noivado e casamento.
Mitos modernos a desfazer
- «É um antigo símbolo druida.» Não há provas de que os druidas a usassem. Os exemplos famosos são cristãos e medievais.
- «É um símbolo satânico ou de feitiçaria.» Foi usada em igrejas e manuscritos cristãos durante séculos.
- «Protege quem a usa.» É uma crença moderna; o símbolo não tem poder próprio comprovado.
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Fontes
- «Triquetra», Wikipedia (com bibliografia) — en.wikipedia.org
- George Petrie, The Ecclesiastical Architecture of Ireland, Dublin, 1845
- Bernard Meehan, The Book of Kells, Thames & Hudson, 2012