O círculo ○ é a forma perfeita da geometria: sem princípio nem fim, com todos os pontos à mesma distância do centro. Por isso foi usado em muitas culturas como imagem da eternidade, do Sol, do todo.
Na magia, o círculo tem um papel concreto: é o círculo mágico, o espaço traçado no chão para delimitar e proteger quem faz um ritual. Esta página conta a sua história, tal como aparece nas fontes.
O círculo como símbolo
- Eternidade e totalidade: no ouroboros, a serpente que morde a cauda forma um círculo.
- O Sol: o círculo com um ponto no centro ☉ é o símbolo astronómico e astrológico do Sol e, na alquimia, do ouro.
- A união: a aliança de casamento é um círculo.
- A comunidade: a roda, a dança de roda, o sentar em círculo.
Origens do círculo de proteção
Mesopotâmia
Nos textos mágicos da Mesopotâmia fala-se do zisurrû, um círculo traçado com farinha à volta de uma pessoa, de uma cama ou de uma casa, para a purificar e proteger dos demónios. É um dos mais antigos círculos rituais documentados.
Tradição judaica
A tradição judaica recorda Honi, o traçador de círculos (séc. I a.C.): segundo a Mishná, traçou um círculo no chão e disse que não sairia dele até Deus mandar chuva.
Muito mais tarde, em 1560, um rabino da Alsácia descreve o costume de traçar um círculo à volta da mulher em trabalho de parto, para a proteger de Lilith.
O círculo nos grimórios
É nos grimórios medievais e do Renascimento que o círculo mágico ganha a forma que hoje conhecemos:
- Heptameron, atribuído a Pietro d'Abano (m. c. 1316): descreve os círculos como «fortalezas» que defendem o operador dos maus espíritos.
- Chave de Salomão (manuscritos dos séc. XV–XVII): desenha círculos com nomes divinos, cruzes e pentáculos.
- Goécia, primeira parte da Lemegeton (séc. XVII): o mago fica dentro do círculo; fora dele desenha-se o triângulo da arte, onde o espírito deveria aparecer.
A Inquisição perseguiu práticas deste tipo em Portugal e em toda a Europa católica.
➜ O triângulo e o «triângulo da arte»
O círculo na Wicca e no neopaganismo
Na Wicca (a partir dos anos 1950), «lançar o círculo» é o início de quase todos os rituais. O círculo marca um espaço sagrado e as quatro direções costumam ser associadas aos quatro elementos.
Aqui a ideia principal já não é defender-se de demónios, mas criar um espaço separado do quotidiano, para oração, meditação ou celebração.
Como se traça hoje (tradição esotérica moderna)
Na prática neopagã contemporânea, é comum:
- limpar e arrumar o espaço;
- marcar o círculo no chão (com sal, cordão, giz ou só com o gesto);
- saudar os quatro pontos cardeais;
- no fim, «fechar» o círculo, desfazendo-o pela ordem inversa.
É uma convenção ritual, que muda de grupo para grupo. Para quem a pratica, tem sobretudo um valor de concentração e de respeito pelo momento. Não é uma barreira física nem garante proteção.
Se usar velas ou incenso no círculo, siga as regras de segurança: nunca sem vigilância, castiçal estável, longe de cortinas e tecidos, janela aberta.
➜ Como usar velas com segurança
Continue a ler
➜ O círculo mágico: como os grimórios o descrevem
➜ Wicca
Fontes
- «Magic circle», Wikipedia (zisurrû, Heptameron) — en.wikipedia.org
- «Honi HaMe'agel», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «The Lesser Key of Solomon», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Richard Kieckhefer, Magic in the Middle Ages, Cambridge University Press, 1989