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Magia celta e o ogham: o que se sabe e o que foi inventado

O ogham, alfabeto irlandês dos séc. IV–VI: inscrições, as árvores das letras, tábuas de maldição gaulesas e o «calendário das árvores» de Graves, que não é antigo.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do ogham
  2. O que é o ogham
  3. As árvores das letras
  4. O ogham e a magia
  5. Magia celta documentada: as tábuas de maldição
  6. O «calendário das árvores» de Robert Graves
  7. Resumo: antigo ou moderno?
  8. Continue a ler
  9. Fontes

«Magia celta» é hoje uma etiqueta muito vendida: oráculos de ogham, calendários de árvores, rituais druídicos. O problema é que os povos celtas antigos quase não deixaram textos escritos sobre a sua religião.

O que sabemos vem de três tipos de fontes: autores gregos e romanos, a arqueologia e as lendas irlandesas e galesas, escritas por monges cristãos na Idade Média.

Esta página foca-se num tema concreto e documentado — o ogham, o alfabeto irlandês — e em alguns vestígios reais de magia celta. Para os sacerdotes celtas, veja a página própria sobre os druidas.

➜ Druidas: quem eram e o que é mito

Ficha do ogham

Tema Resumo
Nome Ogham (irlandês antigo ogam)
Período das inscrições c. séculos IV–VI d.C.
Onde Irlanda (sobretudo Cork e Kerry), País de Gales, Escócia, Ilha de Man
N.º de pedras Cerca de 400 inscrições em pedra
Língua Irlandês primitivo
Estrutura 20 letras em 4 grupos (aicmí) de 5; mais 5 letras acrescentadas depois (forfeda)
Conteúdo Sobretudo nomes: «X, filho de Y»

O que é o ogham

O ogham é um alfabeto de traços e entalhes feitos ao longo de uma aresta — normalmente a aresta de uma pedra. Cada letra é um conjunto de 1 a 5 traços, de um lado, do outro ou atravessando a linha.

As cerca de 400 pedras conhecidas estão sobretudo no Sul da Irlanda (cerca de 60% em Cork e Kerry) e no Oeste da Grã-Bretanha. O ogham nunca foi usado na Península Ibérica.

Para que serviam as pedras?

Quase todas as inscrições são nomes de pessoas, em fórmulas como «[pedra] de X, filho de Y». Serviriam como marcos funerários ou de propriedade da terra. Nenhuma inscrição conhecida é um feitiço.

Quem o inventou?

Muitos linguistas pensam que foi criado a partir do alfabeto latino, talvez como uma espécie de código adaptado à língua irlandesa.

A lenda medieval é outra: um tratado irlandês, o Auraicept na nÉces, atribui a invenção a Ogma, um deus hábil na palavra e na poesia.

As árvores das letras

As letras do ogham têm nomes. Alguns são nomes de árvores: beith (bétula), luis (sorveira, segundo a tradição medieval), fearn (amieiro), dair (carvalho).

Mas nem todas as letras são árvores. A ideia de que todo o alfabeto é um «alfabeto das árvores» foi criada pelos eruditos irlandeses medievais, séculos depois de as letras terem nome. O especialista Damian McManus defende que essa associação surgiu no período do irlandês antigo e que só alguns nomes eram, de origem, nomes de árvores.

O ogham e a magia

Há poucas referências ao uso mágico do ogham, todas em textos literários medievais.

Na lenda Tochmarc Étaíne («A Corte a Étaín»), o druida Dalán grava letras ogham em quatro varas de teixo para descobrir onde está a rainha Étaín. Pode ser uma alusão a adivinhação — mas o texto não explica como, e tudo o que se diga para além disso é interpretação.

Não existe nenhum manual antigo de adivinhação com ogham. Os oráculos de ogham à venda são criações do século XX.

Magia celta documentada: as tábuas de maldição

Os vestígios mais concretos de magia entre povos celtas vêm da Gália romana, e estão escritos em gaulês com letras latinas:

  • A tábua de Larzac (França), encontrada em 1983 numa sepultura, é uma lâmina de chumbo de cerca de 100 d.C. com mais de mil letras. É o texto mais longo em língua gaulesa conhecido. Parece ser uma maldição de um grupo de mulheres contra outro grupo de mulheres.
  • A tábua de Chamalières também contém um encantamento. Ambas usam uma palavra aparentada, brictom, que significa algo como «feitiço» ou «fórmula mágica».

São práticas muito parecidas com as tábuas de maldição gregas e romanas — sinal da mistura cultural com Roma.

➜ Tábuas de maldição

O «calendário das árvores» de Robert Graves

Muitos livros esotéricos apresentam um calendário celta de 13 meses, cada um ligado a uma árvore e a uma letra ogham. Não é antigo.

Foi proposto pelo poeta Robert Graves no livro A Deusa Branca (The White Goddess, 1948). Graves baseou-se sobretudo numa obra do séc. XVII, a Ogygia de Roderick O'Flaherty, e na sua própria intuição poética.

Os historiadores rejeitam este calendário. Ronald Hutton chamou ao livro «uma grande fonte de confusão sobre os antigos celtas». Mesmo assim, teve enorme influência no neopaganismo — incluindo a ideia da deusa tríplice.

➜ A lua tripla e a deusa tríplice

Resumo: antigo ou moderno?

Afirmação O que se sabe
O ogham é um alfabeto antigo irlandês Facto (séc. IV–VI)
Cada letra é uma árvore sagrada Só em parte, e por interpretação medieval
Os druidas adivinhavam com ogham Possível, mas só uma alusão literária
Calendário celta das árvores Moderno (Graves, 1948)
Oráculo de ogham Moderno (séc. XX)

➜ A triquetra

Continue a ler

➜ Magia nórdica: seiðr e runas

➜ Paganismo

➜ As fadas no folclore

Fontes

  • Wikipedia, «Ogham» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Larzac tablet» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «The White Goddess» — en.wikipedia.org
  • McManus, Damian, A Guide to Ogam, Maynooth, An Sagart, 1991
  • Hutton, Ronald, The Pagan Religions of the Ancient British Isles, Blackwell, 1991

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