«Magia celta» é hoje uma etiqueta muito vendida: oráculos de ogham, calendários de árvores, rituais druídicos. O problema é que os povos celtas antigos quase não deixaram textos escritos sobre a sua religião.
O que sabemos vem de três tipos de fontes: autores gregos e romanos, a arqueologia e as lendas irlandesas e galesas, escritas por monges cristãos na Idade Média.
Esta página foca-se num tema concreto e documentado — o ogham, o alfabeto irlandês — e em alguns vestígios reais de magia celta. Para os sacerdotes celtas, veja a página própria sobre os druidas.
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Ficha do ogham
| Tema | Resumo |
|---|---|
| Nome | Ogham (irlandês antigo ogam) |
| Período das inscrições | c. séculos IV–VI d.C. |
| Onde | Irlanda (sobretudo Cork e Kerry), País de Gales, Escócia, Ilha de Man |
| N.º de pedras | Cerca de 400 inscrições em pedra |
| Língua | Irlandês primitivo |
| Estrutura | 20 letras em 4 grupos (aicmí) de 5; mais 5 letras acrescentadas depois (forfeda) |
| Conteúdo | Sobretudo nomes: «X, filho de Y» |
O que é o ogham
O ogham é um alfabeto de traços e entalhes feitos ao longo de uma aresta — normalmente a aresta de uma pedra. Cada letra é um conjunto de 1 a 5 traços, de um lado, do outro ou atravessando a linha.
As cerca de 400 pedras conhecidas estão sobretudo no Sul da Irlanda (cerca de 60% em Cork e Kerry) e no Oeste da Grã-Bretanha. O ogham nunca foi usado na Península Ibérica.
Para que serviam as pedras?
Quase todas as inscrições são nomes de pessoas, em fórmulas como «[pedra] de X, filho de Y». Serviriam como marcos funerários ou de propriedade da terra. Nenhuma inscrição conhecida é um feitiço.
Quem o inventou?
Muitos linguistas pensam que foi criado a partir do alfabeto latino, talvez como uma espécie de código adaptado à língua irlandesa.
A lenda medieval é outra: um tratado irlandês, o Auraicept na nÉces, atribui a invenção a Ogma, um deus hábil na palavra e na poesia.
As árvores das letras
As letras do ogham têm nomes. Alguns são nomes de árvores: beith (bétula), luis (sorveira, segundo a tradição medieval), fearn (amieiro), dair (carvalho).
Mas nem todas as letras são árvores. A ideia de que todo o alfabeto é um «alfabeto das árvores» foi criada pelos eruditos irlandeses medievais, séculos depois de as letras terem nome. O especialista Damian McManus defende que essa associação surgiu no período do irlandês antigo e que só alguns nomes eram, de origem, nomes de árvores.
O ogham e a magia
Há poucas referências ao uso mágico do ogham, todas em textos literários medievais.
Na lenda Tochmarc Étaíne («A Corte a Étaín»), o druida Dalán grava letras ogham em quatro varas de teixo para descobrir onde está a rainha Étaín. Pode ser uma alusão a adivinhação — mas o texto não explica como, e tudo o que se diga para além disso é interpretação.
Não existe nenhum manual antigo de adivinhação com ogham. Os oráculos de ogham à venda são criações do século XX.
Magia celta documentada: as tábuas de maldição
Os vestígios mais concretos de magia entre povos celtas vêm da Gália romana, e estão escritos em gaulês com letras latinas:
- A tábua de Larzac (França), encontrada em 1983 numa sepultura, é uma lâmina de chumbo de cerca de 100 d.C. com mais de mil letras. É o texto mais longo em língua gaulesa conhecido. Parece ser uma maldição de um grupo de mulheres contra outro grupo de mulheres.
- A tábua de Chamalières também contém um encantamento. Ambas usam uma palavra aparentada, brictom, que significa algo como «feitiço» ou «fórmula mágica».
São práticas muito parecidas com as tábuas de maldição gregas e romanas — sinal da mistura cultural com Roma.
O «calendário das árvores» de Robert Graves
Muitos livros esotéricos apresentam um calendário celta de 13 meses, cada um ligado a uma árvore e a uma letra ogham. Não é antigo.
Foi proposto pelo poeta Robert Graves no livro A Deusa Branca (The White Goddess, 1948). Graves baseou-se sobretudo numa obra do séc. XVII, a Ogygia de Roderick O'Flaherty, e na sua própria intuição poética.
Os historiadores rejeitam este calendário. Ronald Hutton chamou ao livro «uma grande fonte de confusão sobre os antigos celtas». Mesmo assim, teve enorme influência no neopaganismo — incluindo a ideia da deusa tríplice.
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Resumo: antigo ou moderno?
| Afirmação | O que se sabe |
|---|---|
| O ogham é um alfabeto antigo irlandês | Facto (séc. IV–VI) |
| Cada letra é uma árvore sagrada | Só em parte, e por interpretação medieval |
| Os druidas adivinhavam com ogham | Possível, mas só uma alusão literária |
| Calendário celta das árvores | Moderno (Graves, 1948) |
| Oráculo de ogham | Moderno (séc. XX) |
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Fontes
- Wikipedia, «Ogham» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Larzac tablet» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «The White Goddess» — en.wikipedia.org
- McManus, Damian, A Guide to Ogam, Maynooth, An Sagart, 1991
- Hutton, Ronald, The Pagan Religions of the Ancient British Isles, Blackwell, 1991