Uriel é o quarto arcanjo mais conhecido, depois de Miguel, Gabriel e Rafael. Mas há uma diferença decisiva: Uriel não aparece em nenhum livro da Bíblia católica. O seu nome vem de textos judaicos antigos que ficaram de fora.
Por isso tem um estatuto invulgar. É venerado pelas Igrejas ortodoxas e orientais, foi retirado do culto católico no século VIII e tornou-se uma figura importante do ocultismo moderno.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | Uriel; hebraico 'Uri'el; também Oriel, Auriel |
| Significado | «Deus é a minha luz» ou «Deus é o meu fogo» |
| Tipo | Arcanjo (fora do cânone católico) |
| Primeira fonte | Livro de Enoque (1 Enoque), séc. III–II a.C. |
| Tradições | Judaísmo antigo, Igrejas ortodoxas, copta e etíope, ocultismo |
| Atributos | Luz, fogo, astros; na magia cerimonial, o norte e a terra |
| Festa | 8 de novembro (ortodoxos); não tem festa na Igreja Católica |
Uriel no Livro de Enoque
O Livro de Enoque (conhecido como 1 Enoque) é uma coleção de textos judaicos escritos entre o século III a.C. e o século I. Não entrou na Bíblia judaica nem na da maioria das Igrejas cristãs, mas é canónico na Igreja ortodoxa etíope.
Uriel aparece em várias partes:
- No Livro dos Vigilantes (capítulos 1–36), está entre os anjos principais que levam a Deus o clamor da terra contra os anjos caídos. No capítulo 20 é descrito como o anjo que está sobre o mundo e sobre o Tártaro.
- No Livro Astronómico (capítulos 72–82), é o guia de Enoque: mostra-lhe o movimento do Sol, da Lua e das estrelas, e as regras do calendário.
É desta ligação aos astros e à luz que vem a imagem de Uriel como anjo do conhecimento.
Uriel em 4 Esdras
Uriel volta a aparecer no Quarto Livro de Esdras (também chamado 2 Esdras), um apocalipse judaico escrito por volta do ano 100, depois da destruição do Templo de Jerusalém.
Nele, Uriel é enviado a Esdras e responde às suas perguntas sobre a justiça de Deus e o sofrimento de Israel. Os seus argumentos são sobretudo um aviso: o ser humano não consegue compreender os caminhos de Deus.
Estatuto: para católicos e protestantes, este livro é apócrifo. A Vulgata colocou-o num apêndice, fora do cânone.
Porque é que a Igreja Católica não venera Uriel
No século VIII, um pregador chamado Aldeberto atraía seguidores na Gália com relíquias duvidosas e uma oração que invocava anjos com nomes fora da Bíblia: Uriel, Raguel, Tubuel, Adinus, Tubuas, Sabaoc e Simiel.
Em 745, um sínodo em Roma, presidido pelo papa Zacarias, condenou Aldeberto e mandou destruir os seus escritos, incluindo essa oração. Os críticos de Aldeberto diziam que aqueles nomes podiam ser, na verdade, nomes de demónios.
Desde então, a Igreja Católica venera apenas Miguel, Gabriel e Rafael, os três anjos com nome na sua Bíblia. Em 2001, o Diretório sobre a piedade popular e a liturgia da Santa Sé voltou a desaconselhar o uso de nomes de anjos que não estão nas Escrituras.
Nota sobre a data: algumas obras falam em 743, ano de outro sínodo romano do mesmo papa. A condenação de Aldeberto é de 745.
Uriel nas Igrejas orientais
As Igrejas ortodoxa, copta e etíope continuam a venerar Uriel entre os arcanjos. Na tradição ortodoxa é celebrado a 8 de novembro, na festa conjunta dos arcanjos.
Houve uma curiosa exceção em Roma: no século XVI, o frade siciliano Antonio Lo Duca relatou uma aparição de Uriel e promoveu o culto dos anjos. O papa Pio IV mandou então construir a igreja de Santa Maria degli Angeli, desenhada por Miguel Ângelo nas antigas termas de Diocleciano.
Uriel na literatura
No Paraíso Perdido (1667), o poeta inglês John Milton faz de Uriel o «regente do Sol». Satanás, disfarçado de querubim, consegue enganá-lo e chegar à Terra. É uma criação literária, que ajudou a popularizar o nome.
Uriel na magia cerimonial
Uriel ganhou importância sobretudo no ocultismo moderno. São interpretações esotéricas, sem base bíblica:
- Nas sessões angélicas de John Dee e Edward Kelley, em 1587, Kelley disse que Uriel lhes ordenara partilhar todos os bens, incluindo as mulheres.
- Nos rituais da Golden Dawn (final do século XIX), Uriel ocupa o norte, associado ao elemento terra, ao lado de Rafael (leste), Miguel (sul) e Gabriel (oeste).
Uriel não aparece entre os anjos dos dias da semana do Heptameron, nem na tabela de sete anjos de Cornélio Agrippa.
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Fontes
- «Uriel», Wikipédia (inglês) — en.wikipedia.org
- «2 Esdras», Wikipédia (inglês) — en.wikipedia.org
- «Aldebert», Wikipédia (inglês) — en.wikipedia.org
- «John Dee», Wikipédia (inglês) — en.wikipedia.org
- O Livro de Enoque, trad. R. H. Charles (1917) — sacred-texts.com