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🧙 Figuras do Oculto

John Dee e Edward Kelley: o sábio da rainha e as conversas com os anjos

John Dee (1527–1608/9), conselheiro de Isabel I, e Edward Kelley: as conversas com anjos, a língua enoquiana e o espelho de obsidiana do British Museum.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A vida (facto)
  3. As conversas angélicas e a língua enoquiana
  4. O espelho de obsidiana do British Museum
  5. Obra e ideias
  6. Influência
  7. Curiosidades
  8. Continue a ler
  9. Fontes

John Dee foi um dos homens mais sábios da Inglaterra do século XVI. Matemático, geógrafo e astrólogo, aconselhou a rainha Isabel I e reuniu a maior biblioteca privada do país.

A partir de 1582, com o vidente Edward Kelley, dedicou anos a sessões em que dizia receber mensagens de anjos. Dessas sessões nasceu a chamada língua enoquiana, ainda hoje usada na magia cerimonial.

Aqui contamos a história documentada — e onde começam a crença e a lenda.

Ficha

Campo Informação
Nome John Dee
Nascimento 13 de julho de 1527, Londres
Morte Dezembro de 1608 ou março de 1609, Mortlake (Surrey)
Origem Inglaterra; estudou em Cambridge (St John's College)
Ocupação Matemático, astrólogo, geógrafo, conselheiro da coroa
Obras principais Monas Hieroglyphica (1564); prefácio matemático aos Elementos de Euclides (1570)
Conhecido por Conselheiro de Isabel I, conversas angélicas, língua enoquiana

A vida (facto)

Dee estudou em Cambridge e foi um dos primeiros membros do Trinity College, fundado em 1546. No continente conviveu com os cartógrafos Gerardus Mercator e Abraham Ortelius.

Quando Isabel I subiu ao trono, em 1558, Dee tornou-se seu conselheiro astrológico e científico. Foi ele quem escolheu a data da coroação. Apoiou as viagens de exploração e é-lhe atribuída a expressão «Império Britânico».

Em Mortlake, perto de Londres, juntou uma biblioteca enorme, provavelmente a maior de Inglaterra no seu tempo.

O encontro com Edward Kelley

Edward Kelley (1555–1597/98), também conhecido como Edward Talbot, apresentou-se em 1582 como alguém capaz de ver espíritos em cristais e espelhos.

Segundo relatos antigos, tinha sido castigado no pelourinho por falsificação e teria as orelhas cortadas. Este pormenor é contestado.

Durante cerca de sete anos, Kelley olhava para a pedra ou o espelho e descrevia o que dizia ver e ouvir. Dee anotava tudo com cuidado. São estes os «diários» das conversas angélicas.

A viagem à Europa Central

Em setembro de 1583 partiram com o nobre polaco Albert Łaski. Estiveram na Polónia e na Boémia, onde se encontraram com o imperador Rodolfo II em Praga e com o rei Estêvão Báthory da Polónia.

Em 1587, Kelley afirmou que o anjo Uriel ordenara aos dois que partilhassem tudo, incluindo as mulheres. Dee parece ter aceitado, mas pôs fim às sessões pouco depois.

Os últimos anos

Dee regressou a Mortlake em 1589 e encontrou a casa vandalizada e a biblioteca saqueada. Foi nomeado diretor do Christ's College, em Manchester, em 1595.

Sem apoio do rei Jaime I, morreu na pobreza, em Mortlake. Não se sabe a data exata nem onde foi sepultado.

Kelley ficou na Boémia. Rodolfo II fê-lo cavaleiro em 1590, mas mandou prendê-lo quando não conseguiu produzir ouro. Morreu preso, em 1597 ou 1598.

As conversas angélicas e a língua enoquiana

A partir de março de 1583, Kelley disse receber um alfabeto de 21 letras e grandes tabelas de letras (o Liber Loagaeth). Seguiram-se as 48 «Chamadas», textos em língua angélica com tradução inglesa.

Dee acreditava tratar-se da língua de Adão, a língua primordial. O linguista Donald Laycock, ao analisá-la no século XX, concluiu que a sua gramática e sons se parecem muito com o inglês.

Não sabemos o que se passava realmente nas sessões: se Kelley acreditava no que via, se inventava ou se era uma mistura das duas coisas. Os historiadores continuam a discutir.

➜ Magia enoquiana

➜ O Livro de Soyga, o livro de John Dee

O espelho de obsidiana do British Museum

O objeto mais famoso ligado a Dee é o «espelho mágico do Dr. Dee», no British Museum (n.º 1966,1001.1).

É um disco de obsidiana polida com 18,4 cm de diâmetro, de origem asteca (México, séc. XIV–XVI). Uma análise de 2019 indicou que a obsidiana vem da região de Pachuca, no México.

O museu regista que foi adquirido por Dee para as suas práticas mágicas. Mais tarde pertenceu ao colecionador Horace Walpole (recebeu-o em 1770) e entrou no museu em 1966. O museu guarda ainda uma bola de cristal, selos de cera e um amuleto de ouro associados a Dee.

➜ Obsidiana

Obra e ideias

A Monas Hieroglyphica (Antuérpia, 1564) apresenta um símbolo desenhado por Dee — a mónada — e interpreta-o à luz da Cabala cristã, da astrologia e da alquimia.

Para Dee, matemática, astronomia e magia faziam parte da mesma busca: compreender a ordem do universo criada por Deus.

➜ Monas Hieroglyphica

➜ Heptagrama e o «selo de Deus»

Influência

  • Em 1659, Meric Casaubon publicou parte dos diários com o título A True & Faithful Relation. Apresentava Dee como vítima enganada por espíritos malignos — e isso marcou a sua reputação durante séculos.
  • No fim do século XIX, a Golden Dawn incorporou o sistema enoquiano; Aleister Crowley usou-o depois.
  • Hoje Dee é estudado tanto como cientista do Renascimento como figura-chave da magia ocidental.

Curiosidades

  • O espelho tem na caixa uma etiqueta de Horace Walpole com versos do poema satírico Hudibras.
  • Estudiosos modernos, como Deborah Harkness, reabilitaram Dee como pensador sério do seu tempo.

Continue a ler

➜ Figuras do Oculto

➜ Samuel Mathers e a Golden Dawn

➜ Os sete arcanjos

➜ O arcanjo Uriel

Fontes

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