Lucífugo Rofocale é o demónio central do Grande Grimório, um livro de magia popular francês. O livro chama-lhe «primeiro-ministro» do Inferno e dá-lhe o controlo das riquezas e dos tesouros escondidos.
Não aparece na Bíblia, nem nos padres da Igreja, nem nos tratados de demonologia medievais. É uma criação dos grimórios populares franceses, provavelmente do século XVIII.
Esta página fala da figura. Para a história do livro (datas falsas, edições, conteúdo), veja a página própria.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | Lucífugo Rofocale; em francês Lucifuge ou Lucifugé Rofocale |
| Tipo | Demónio dos grimórios |
| Primeira fonte | Le Grand Grimoire (França, séc. XVIII; edições com datas falsas de 1421, 1521 ou 1522) |
| Tradições | Grimórios populares franceses; ocultismo moderno; cultura popular |
| Posição | «Primeiro-ministro» de Lúcifer |
| Atributos | Riquezas e tesouros; o pacto |
O nome
«Lucífugo» vem do latim lucifugus, «que foge da luz». É uma palavra latina comum, usada para animais noturnos. Aplicada a um demónio, faz um jogo evidente com Lúcifer, «o que traz a luz».
«Rofocale» não tem explicação segura. Há quem veja nele um anagrama ou uma deformação de outros nomes de demónios, mas nenhuma hipótese está demonstrada.
O lugar na corte infernal
O Grande Grimório organiza os demónios como a corte de um rei, com títulos militares e de governo tirados da França do seu tempo:
| Espírito | Título no livro |
|---|---|
| Lúcifer | Imperador |
| Belzebu | Príncipe |
| Astaroth | Grão-duque |
| Lucífugo Rofocale | Primeiro-ministro |
| Satanachia | Grande general |
| Agaliarept, Fleurety, Sargatanas, Nebiros | Outros «oficiais» |
Segundo o texto, Lucífugo recebeu de Lúcifer o poder sobre «todas as riquezas e tesouros do mundo». Abaixo dele estariam três espíritos: Bael, Agares e Marbas.
Estes três nomes não foram inventados pelo Grande Grimório. São espíritos da Goetia, a lista de 72 demónios do Lemegeton: Bael é o 1.º, Agares o 2.º e Marbas o 5.º. É um exemplo de como os grimórios se copiavam uns aos outros.
➜ Lúcifer
➜ Goetia
A cena do pacto
A passagem mais famosa do livro é um diálogo entre o operador e Lucífugo. Descrevemos a narrativa; não reproduzimos a conjuração.
- Lucífugo aparece e pergunta porque o incomodam.
- O operador pede riquezas.
- Lucífugo exige que ele se entregue, de corpo e alma, ao fim de vinte anos.
- O operador recusa e continua as conjurações com a vara fulminante.
- No fim, o demónio cede: mostra o tesouro mais próximo, em troca de uma pequena moeda oferecida na primeira segunda-feira de cada mês.
É um conto de esperteza: o homem que engana o diabo. O mesmo tema aparece em muitas lendas populares europeias, incluindo portuguesas.
Não há qualquer registo histórico de alguém que tenha encontrado tesouros desta forma.
➜ O diabo na tradição portuguesa
Porque é o «demónio dos tesouros»
Nos séculos XVIII e XIX, a caça aos tesouros escondidos era uma obsessão popular em França, na Galiza e em Portugal. Acreditava-se que mouros, romanos e antigos senhores tinham enterrado riquezas guardadas por espíritos.
Os grimórios baratos respondiam a esse desejo. Lucífugo é a personificação desse sonho: o ministro das finanças do Inferno.
Em Portugal e na Galiza, o mesmo sonho alimentou as listas de tesouros do Livro de São Cipriano e do Ciprianillo galego.
Na cultura moderna
- A. E. Waite traduziu partes do Grande Grimório para inglês em The Book of Black Magic and of Pacts (1898), com comentários muito críticos. Foi assim que Lucífugo chegou ao ocultismo de língua inglesa.
- Aparece em romances, jogos e séries de televisão como «demónio do pacto».
Um aviso
Em 2021, um tribunal de Londres condenou a prisão perpétua um jovem que matou duas mulheres em 2020. Ele acreditava ter feito um pacto escrito com Lucífugo Rofocale para ganhar a lotaria.
O caso mostra o perigo de levar à letra textos que são literatura popular e de os misturar com fragilidade psicológica. Quem sente que uma crença lhe está a fazer mal deve procurar ajuda médica ou psicológica.
Diferença entre Lucífugo e Mefistófeles
Os dois são «demónios do pacto», mas vêm de mundos diferentes:
| Figura | Origem |
|---|---|
| Mefistófeles | Literatura (Fausto, 1587; Marlowe; Goethe) |
| Lucífugo Rofocale | Grimórios populares franceses (séc. XVIII–XIX) |
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Fontes
- Le Grand Grimoire (Paris, 1845), transcrição de Joseph H. Peterson, Esoteric Archives
- A. E. Waite, The Book of Ceremonial Magic (1911), secção sobre o Grand Grimoire
- Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009
- Wikipedia (inglês), Grand Grimoire
- Wikipedia (inglês), Murders of Bibaa Henry and Nicole Smallman