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📚 Grimórios

O Grande Grimório e o Dragão Vermelho

O Grand Grimoire ou Dragon Rouge: grimório francês com datas falsas (1521–1522), Lucífugo Rofocale, a lenda do pacto, edições e relação com o Grimorium Verum.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Datas falsas e edições reais
  3. O que contém
  4. Lucífugo Rofocale
  5. A lenda do pacto
  6. Relação com o Grimorium Verum
  7. Influência
  8. Onde ler
  9. Continue a ler
  10. Fontes

O Grande Grimório — em francês Le Grand Grimoire — é o livro que mais contribuiu para a imagem do pacto com o Diabo na cultura popular. Também circulou com o título Le Dragon Rouge, o «Dragão Vermelho».

As suas edições dizem ser cópias de um manuscrito de 1521 ou 1522. Essas datas são falsas. O livro pertence à literatura mágica popular francesa dos séculos XVIII e XIX.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Grande Grimório / Dragão Vermelho
Nome original Le Grand Grimoire; Le Dragon Rouge
Período Séc. XVIII (talvez desde c. 1702); muitas edições no séc. XIX
Origem França
Autoria Atribuída a «Antonio Venitiana del Rabina» e, por ele, a Salomão; autor real desconhecido
Idioma Francês
Tipo Grimório popular de invocação e pacto

Datas falsas e edições reais

As páginas de rosto apresentam datas antigas: 1421, 1521 ou 1522, conforme a edição. Era um truque comum para dar ao livro ar de segredo antigo.

O que se sabe com mais segurança:

  • O historiador Owen Davies admite que uma primeira edição possa datar de c. 1702 e que uma versão da Bibliothèque bleue — livrinhos baratos vendidos por vendedores ambulantes — tenha saído por volta de 1750.
  • Joseph H. Peterson publicou uma versão intitulada L'art de commander les esprits, com a data impressa «1421», que cataloga como de c. 1750.
  • Os exemplares de Le Dragon Rouge que aparecem em leilão, com a data «1522» e sem local de impressão, são datados pelos especialistas de cerca de 1820.
  • A edição transcrita por Peterson foi impressa em Paris, em 1845, «a partir de um manuscrito de 1522».

A introdução é assinada por Antonio Venitiana del Rabina, que diz ter copiado os escritos de Salomão. Não há qualquer prova de que esta pessoa tenha existido.

O que contém

O livro divide-se em duas partes.

Livro I

Descreve a «hierarquia» dos espíritos e a preparação do operador: a vara fulminante (verge foudroyante), o círculo e a evocação de Lucífugo Rofocale.

Livro II

Inclui o Sanctum Regnum, apresentado como um caminho para fazer pacto sem os instrumentos do primeiro livro. Segue-se uma coleção de «segredos»: ganhar à lotaria, falar com os mortos, invisibilidade, amor, encantar armas e até uma receita alquímica de ouro.

Não reproduzimos fórmulas nem conjurações. Várias passagens incluem práticas com animais que pertencem apenas ao registo histórico.

Lucífugo Rofocale

O nome mais associado ao livro é Lucífugo Rofocale, apresentado como «primeiro-ministro» do Inferno e guardião dos tesouros. O nome costuma ser lido como «o que foge da luz».

O livro organiza os espíritos como uma corte:

Espírito Posição no texto
Lucifer Imperador
Beelzebuth Príncipe
Astaroth Grão-duque
Lucífugo Rofocale Primeiro-ministro (tesouros)
Satanachia Comandante-em-chefe
Agaliarept Comandante
Fleurety Tenente-general
Sargatanas Brigadeiro-major
Nebiros Marechal e inspetor-geral

➜ Demonologia

A lenda do pacto

A cena mais famosa do livro é uma negociação. Segundo o texto, Lucífugo pede a alma do operador ao fim de vinte anos em troca de riquezas. O operador recusa, ameaça o espírito com a vara e acaba por obter um acordo muito mais modesto: acesso a um tesouro próximo em troca de pequenas obrigações.

É uma narrativa literária e folclórica. Não há registo histórico de ninguém que tenha enriquecido assim. Mas foi esta cena que alimentou, durante dois séculos, as histórias de pactos, tesouros escondidos e livros proibidos.

Na tradição popular portuguesa e brasileira, a mesma lógica aparece associada ao Livro de São Cipriano, famoso pelas suas listas de tesouros escondidos.

➜ Pactos espirituais

➜ Os demónios no Livro de São Cipriano

Relação com o Grimorium Verum

O Grande Grimório e o Grimorium Verum são «primos». Ambos:

  • colocam Lucifer, Beelzebuth e Astaroth no topo;
  • listam espíritos subordinados com funções concretas;
  • vão buscar material à Chave de Salomão e ao Lemegeton;
  • circularam como livros baratos no mesmo mercado francês.

A diferença principal: o Grande Grimório dá lugar central ao pacto e a Lucífugo; o Grimorium Verum centra-se nos caracteres dos espíritos e nos «segredos».

➜ Grimorium Verum

➜ Chave de Salomão

Influência

O ocultista Éliphas Lévi, no século XIX, considerava as edições do Dragon Rouge do seu tempo uma contrafação de um Grand Grimoire verdadeiro e mais antigo. Não há prova da existência desse original.

A. E. Waite traduziu grande parte do texto em The Book of Black Magic and of Pacts (1898), deixando de fora algumas passagens.

Na cultura moderna aparece, entre outros, no filme Warlock (1989) e no romance God's Demon (2007), de Wayne Barlowe.

➜ A magia funciona mesmo?

Onde ler

Continue a ler

➜ Grimório do Papa Honório

➜ Goetia e os 72 espíritos

➜ Petit Albert

➜ Biblioteca de grimórios

Fontes

  • Joseph H. Peterson (ed.), Le Grand Grimoire, Esoteric Archives — esotericarchives.com
  • Joseph H. Peterson (ed.), L'art de commander les esprits — esotericarchives.com
  • «Grand Grimoire», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Ader, leilão, lote 104: Le Dragon rouge (s.l., «1522», c. 1820) — ader-paris.fr
  • Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009.

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