Lilith é uma das figuras mais conhecidas da demonologia. Hoje é apresentada como a «primeira mulher de Adão», rebelde e independente. Mas essa história é medieval, e não bíblica.
Por trás do nome há quase três mil anos de crenças diferentes: demónios noturnos da Mesopotâmia, uma palavra isolada no livro de Isaías, amuletos para proteger mães e recém-nascidos, a Cabala e, por fim, o feminismo do século XX.
Nesta página separamos o que dizem as fontes antigas, o que acrescentou a lenda e o que é leitura moderna.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | Lilith, Lilit; no plural hebraico lilin e liliyyot |
| Tipo | Demónio feminino noturno (folclore judaico) |
| Primeira fonte | Isaías 34:14 (única menção na Bíblia hebraica) |
| Antecedentes | Demónios mesopotâmicos lilû e lilītu (ligação discutida) |
| Tradições | Magia judaica popular, Talmude, Cabala, literatura, feminismo |
| Símbolos/atributos | Noite, cabelo longo, ameaça a grávidas e bebés, sedução |
Origem nas fontes antigas
Os demónios da Mesopotâmia
Em acádio, as palavras lilû e *lilītu* designavam espíritos associados ao vento e à noite. Eram, segundo a crença, pessoas que tinham morrido jovens, antes de casar ou de ter filhos.
A ligação entre estes demónios e a Lilith hebraica é provável mas discutida pelos estudiosos. Nos anos 1930, alguns tradutores viram «Lilith» num episódio da Epopeia de Gilgamesh. Hoje essa leitura é geralmente rejeitada.
Isaías 34:14
A palavra lilit aparece uma única vez na Bíblia hebraica. Isaías descreve a ruína de Edom: um lugar deserto onde vivem animais selvagens e onde «repousará» a lilit.
As traduções nunca concordaram:
| Tradução | Como traduziu |
|---|---|
| Vulgata (latim, séc. V) | lamia |
| King James (inglês, 1611) | «coruja» (screech owl) |
| Traduções modernas | «criatura noturna», «fantasma» ou «Lilith» |
É por isso que muitas Bíblias em português nem sequer mostram o nome.
Manuscritos do Mar Morto e Talmude
A referência mais antiga fora da Bíblia está nos Cânticos do Sábio (Qumran, c. 40–10 a.C.), uma lista de espíritos contra os quais se pede proteção.
O Talmude da Babilónia (c. 500 d.C.) menciona lilit poucas vezes. Uma passagem conhecida (Shabbat 151b) desaconselha dormir sozinho numa casa, porque quem o faz pode ser «apanhado por Lilith».
Evolução: a primeira mulher de Adão
O Alfabeto de Ben Sira
A história de Lilith como primeira mulher de Adão aparece pela primeira vez completa no Alfabeto de Ben Sira, um texto hebraico composto entre c. 700 e 1000 d.C. Muitos estudiosos leem-no como obra satírica.
Segundo o texto, Lilith foi criada da terra, tal como Adão, e recusou submeter-se a ele. Fugiu do Éden. Deus enviou três anjos — Senoy, Sansenoy e Semangelof — para a trazer de volta. Ela recusou, mas prometeu não fazer mal aos recém-nascidos que tivessem os nomes desses anjos escritos num amuleto.
É uma lenda medieval, não um texto bíblico. O Génesis não fala de Lilith.
Taças e amuletos para parturientes
A crença em Lilith deixou objetos reais:
- Taças de encantamento aramaicas (séc. IV–VI d.C.), encontradas na antiga Babilónia. Eram enterradas de boca para baixo para «prender» os demónios. Cerca de oitenta mencionam Lilith ou os lilin.
- Amuletos para o parto, com os nomes dos três anjos, pendurados junto da cama da mãe e do bebé. O costume durou até ao século XX em várias comunidades judaicas.
Na Cabala
No Zohar (séc. XIII) e noutros textos cabalísticos, Lilith torna-se uma figura maior: consorte de Samael, rainha dos demónios e sedutora dos homens que dormem sozinhos.
➜ Cabala
Na cultura moderna
Arte e literatura
No século XIX, Lilith passou de demónio a figura de beleza e mistério:
- O pintor Dante Gabriel Rossetti pintou Lady Lilith (1866–1868, revista em 1872–1873), hoje no Delaware Art Museum.
- George MacDonald publicou o romance Lilith (1895).
- John Collier pintou uma Lilith envolta numa serpente.
Goethe já a tinha posto a passar numa cena do Fausto, na noite de Walpurgis.
Símbolo feminista
A partir dos anos 1970, a lenda do Alfabeto de Ben Sira foi relida ao contrário: Lilith deixou de ser a ameaça e passou a ser a mulher que recusou a submissão.
- A revista judaica feminista Lilith foi fundada em 1976 nos Estados Unidos.
- O festival de música Lilith Fair, criado por Sarah McLachlan, decorreu entre 1997 e 1999 (e em 2010), só com artistas mulheres.
Esta é uma interpretação moderna, legítima como leitura cultural, mas diferente da Lilith das fontes antigas.
Astrologia
Na astrologia moderna chama-se «Lua Negra» ou «Lilith» a um ponto calculado da órbita da Lua (o apogeu). É um ponto matemático, não um corpo celeste. O significado que lhe é dado é interpretação astrológica recente.
O que não é verdade
- Não há Lilith no Génesis.
- Não está provado que Lilith fosse uma deusa mesopotâmica adorada.
- Não existe uma «oração de Lilith» antiga. Os textos que circulam na internet são modernos.
Continue a ler
➜ Asmodeu
➜ Lúcifer
➜ Dicionário do oculto: letra L
Fontes
- Wikipedia (inglês), Lilith — fontes mesopotâmicas, Isaías 34:14, Qumran, Talmude, Alfabeto de Ben Sira, taças de encantamento
- Wikipedia (português), Lilith
- Delaware Art Museum / Wikipedia, Lady Lilith
- Wikipedia (inglês), Lilith (magazine) e Lilith Fair