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👁️ Anjos, Demónios e Entidades

Lilith

Quem é Lilith? Os demónios lilitu, a única menção na Bíblia (Isaías 34:14), o Alfabeto de Ben Sira, os amuletos das parturientes e o símbolo feminista.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Origem nas fontes antigas
  3. Evolução: a primeira mulher de Adão
  4. Na cultura moderna
  5. O que não é verdade
  6. Continue a ler
  7. Fontes

Lilith é uma das figuras mais conhecidas da demonologia. Hoje é apresentada como a «primeira mulher de Adão», rebelde e independente. Mas essa história é medieval, e não bíblica.

Por trás do nome há quase três mil anos de crenças diferentes: demónios noturnos da Mesopotâmia, uma palavra isolada no livro de Isaías, amuletos para proteger mães e recém-nascidos, a Cabala e, por fim, o feminismo do século XX.

Nesta página separamos o que dizem as fontes antigas, o que acrescentou a lenda e o que é leitura moderna.

Ficha

Campo Informação
Nome e variantes Lilith, Lilit; no plural hebraico lilin e liliyyot
Tipo Demónio feminino noturno (folclore judaico)
Primeira fonte Isaías 34:14 (única menção na Bíblia hebraica)
Antecedentes Demónios mesopotâmicos lilû e lilītu (ligação discutida)
Tradições Magia judaica popular, Talmude, Cabala, literatura, feminismo
Símbolos/atributos Noite, cabelo longo, ameaça a grávidas e bebés, sedução

Origem nas fontes antigas

Os demónios da Mesopotâmia

Em acádio, as palavras lilû e *lilītu* designavam espíritos associados ao vento e à noite. Eram, segundo a crença, pessoas que tinham morrido jovens, antes de casar ou de ter filhos.

A ligação entre estes demónios e a Lilith hebraica é provável mas discutida pelos estudiosos. Nos anos 1930, alguns tradutores viram «Lilith» num episódio da Epopeia de Gilgamesh. Hoje essa leitura é geralmente rejeitada.

Isaías 34:14

A palavra lilit aparece uma única vez na Bíblia hebraica. Isaías descreve a ruína de Edom: um lugar deserto onde vivem animais selvagens e onde «repousará» a lilit.

As traduções nunca concordaram:

Tradução Como traduziu
Vulgata (latim, séc. V) lamia
King James (inglês, 1611) «coruja» (screech owl)
Traduções modernas «criatura noturna», «fantasma» ou «Lilith»

É por isso que muitas Bíblias em português nem sequer mostram o nome.

Manuscritos do Mar Morto e Talmude

A referência mais antiga fora da Bíblia está nos Cânticos do Sábio (Qumran, c. 40–10 a.C.), uma lista de espíritos contra os quais se pede proteção.

O Talmude da Babilónia (c. 500 d.C.) menciona lilit poucas vezes. Uma passagem conhecida (Shabbat 151b) desaconselha dormir sozinho numa casa, porque quem o faz pode ser «apanhado por Lilith».

➜ Demonologia

Evolução: a primeira mulher de Adão

O Alfabeto de Ben Sira

A história de Lilith como primeira mulher de Adão aparece pela primeira vez completa no Alfabeto de Ben Sira, um texto hebraico composto entre c. 700 e 1000 d.C. Muitos estudiosos leem-no como obra satírica.

Segundo o texto, Lilith foi criada da terra, tal como Adão, e recusou submeter-se a ele. Fugiu do Éden. Deus enviou três anjos — Senoy, Sansenoy e Semangelof — para a trazer de volta. Ela recusou, mas prometeu não fazer mal aos recém-nascidos que tivessem os nomes desses anjos escritos num amuleto.

É uma lenda medieval, não um texto bíblico. O Génesis não fala de Lilith.

Taças e amuletos para parturientes

A crença em Lilith deixou objetos reais:

  • Taças de encantamento aramaicas (séc. IV–VI d.C.), encontradas na antiga Babilónia. Eram enterradas de boca para baixo para «prender» os demónios. Cerca de oitenta mencionam Lilith ou os lilin.
  • Amuletos para o parto, com os nomes dos três anjos, pendurados junto da cama da mãe e do bebé. O costume durou até ao século XX em várias comunidades judaicas.

➜ Magia judaica popular

Na Cabala

No Zohar (séc. XIII) e noutros textos cabalísticos, Lilith torna-se uma figura maior: consorte de Samael, rainha dos demónios e sedutora dos homens que dormem sozinhos.

➜ Cabala

Na cultura moderna

Arte e literatura

No século XIX, Lilith passou de demónio a figura de beleza e mistério:

  • O pintor Dante Gabriel Rossetti pintou Lady Lilith (1866–1868, revista em 1872–1873), hoje no Delaware Art Museum.
  • George MacDonald publicou o romance Lilith (1895).
  • John Collier pintou uma Lilith envolta numa serpente.

Goethe já a tinha posto a passar numa cena do Fausto, na noite de Walpurgis.

Símbolo feminista

A partir dos anos 1970, a lenda do Alfabeto de Ben Sira foi relida ao contrário: Lilith deixou de ser a ameaça e passou a ser a mulher que recusou a submissão.

  • A revista judaica feminista Lilith foi fundada em 1976 nos Estados Unidos.
  • O festival de música Lilith Fair, criado por Sarah McLachlan, decorreu entre 1997 e 1999 (e em 2010), só com artistas mulheres.

Esta é uma interpretação moderna, legítima como leitura cultural, mas diferente da Lilith das fontes antigas.

Astrologia

Na astrologia moderna chama-se «Lua Negra» ou «Lilith» a um ponto calculado da órbita da Lua (o apogeu). É um ponto matemático, não um corpo celeste. O significado que lhe é dado é interpretação astrológica recente.

O que não é verdade

  • Não há Lilith no Génesis.
  • Não está provado que Lilith fosse uma deusa mesopotâmica adorada.
  • Não existe uma «oração de Lilith» antiga. Os textos que circulam na internet são modernos.

Continue a ler

➜ Anjos, demónios e entidades

➜ Asmodeu

➜ Lúcifer

➜ Dicionário do oculto: letra L

Fontes

  • Wikipedia (inglês), Lilith — fontes mesopotâmicas, Isaías 34:14, Qumran, Talmude, Alfabeto de Ben Sira, taças de encantamento
  • Wikipedia (português), Lilith
  • Delaware Art Museum / Wikipedia, Lady Lilith
  • Wikipedia (inglês), Lilith (magazine) e Lilith Fair

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