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Mefistófeles

Mefistófeles nasceu num livro popular alemão de 1587. Veja o Fausto histórico, a peça de Marlowe, o Fausto de Goethe e como se formou a lenda do pacto.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. O Fausto real
  3. A lenda: o livro de 1587
  4. Marlowe: o demónio que sofre
  5. Goethe: o espírito que nega
  6. Na ópera e na música
  7. Mefistófeles em Portugal
  8. A lenda do pacto: o que é facto e o que é ficção
  9. Continue a ler
  10. Fontes

Mefistófeles é o demónio mais famoso da literatura europeia. É ele quem faz o pacto com Fausto: poder e saber durante alguns anos, em troca da alma.

Ao contrário de Lúcifer, Belzebu ou Asmodeu, Mefistófeles não vem da Bíblia nem da demonologia antiga. Nasceu num livro popular alemão impresso em 1587 e cresceu no teatro, na poesia e na ópera.

Nesta página separamos o homem real (Fausto), a lenda e as grandes obras que fizeram de Mefistófeles um símbolo.

Ficha

Campo Informação
Nome e variantes Mefistófeles; Mephostophiles (1587), Mephistophilis (Marlowe), Mephistopheles (Goethe)
Tipo Demónio literário
Primeira fonte Historia von D. Johann Fausten (Frankfurt, 1587)
Tradições Lenda de Fausto, teatro, ópera, literatura
Símbolos/atributos O pacto assinado com sangue, a ironia, o disfarce

O Fausto real

Houve um Fausto histórico. Chamava-se provavelmente Johann Georg Faust e viveu entre o fim do século XV e c. 1540. Era um astrólogo, curandeiro e mago itinerante.

O documento mais antigo sobre ele é uma carta do abade Tritémio, de 20 de agosto de 1507. Tritémio chama-lhe impostor e charlatão. Há outras menções em Bamberga (1520), Ingolstadt (1528) e Münster (1535).

Segundo a lenda, morreu por volta de 1540 em Staufen, talvez numa explosão durante uma experiência de alquimia. Não há nenhum documento que ligue o Fausto real a um demónio chamado Mefistófeles.

➜ Tritémio

A lenda: o livro de 1587

Em 1587, o impressor Johann Spies, de Frankfurt, publicou a Historia von D. Johann Fausten, conhecida como o Faustbuch. O autor é anónimo.

É aqui que surge Mefistófeles. O livro conta que Fausto invoca o diabo e assina um pacto com o próprio sangue: o demónio servi-lo-á durante 24 anos; no fim, Fausto pertence-lhe. Passado o prazo, Fausto tem um fim horrível.

O livro tinha uma intenção moral e protestante: avisar contra a curiosidade proibida e a magia.

De onde vem o nome?

Ninguém sabe ao certo. A hipótese mais citada vê no nome palavras gregas deformadas: mē («não»), phōs («luz») e philos («amigo»), ou seja, «o que não ama a luz». É apenas uma hipótese.

Marlowe: o demónio que sofre

O livro alemão foi traduzido para inglês e chegou a Christopher Marlowe, que escreveu Doctor Faustus (c. 1589–1593; impresso em 1604).

O Mephistophilis de Marlowe é um anjo caído triste. Quando Fausto lhe pergunta como pode estar fora do inferno, responde que o inferno está onde ele está: «Why, this is hell, nor am I out of it».

A peça mantém os 24 anos do pacto e termina com a condenação de Fausto.

Goethe: o espírito que nega

Johann Wolfgang von Goethe trabalhou no Fausto durante quase toda a vida. A primeira parte saiu em 1808; a segunda em 1832, depois da sua morte.

O Mefistófeles de Goethe é irónico, frio e divertido. Algumas diferenças importantes:

  • A aposta no céu: no «Prólogo no Céu», Mefistófeles aposta com Deus que consegue desviar Fausto.
  • A aposta com Fausto: não há prazo de anos. Fausto só perde se alguma vez pedir a um momento que fique para sempre.
  • O disfarce: aparece primeiro como um cão (um caniche) e depois como estudante viajante.
  • O fim: na segunda parte, Fausto é salvo.

Mefistófeles apresenta-se como o espírito que sempre nega, «parte daquela força que quer sempre o mal e sempre faz o bem».

Na ópera e na música

Obra Ano
Berlioz, A Danação de Fausto 1846
Gounod, Fausto 1859
Boito, Mefistofele 1868
Mahler, Sinfonia n.º 8 (cena final do Fausto II) 1906–1907

Mefistófeles em Portugal

O Fausto de Goethe foi traduzido cedo para português: Agostinho de Ornelas publicou a primeira parte em 1867 (e a segunda em 1873) e António Feliciano de Castilho fez uma versão em 1872. Mais recentemente, João Barrento traduziu a obra (1999).

Fernando Pessoa também deixou fragmentos de um Fausto próprio, publicados depois da sua morte.

Na cultura popular portuguesa, porém, o diabo do pacto raramente se chama Mefistófeles. Tem nomes da terra: o Tinhoso, o Mafarrico, o Porco.

➜ O diabo na tradição portuguesa

A lenda do pacto: o que é facto e o que é ficção

A ideia do pacto escrito com o diabo é muito anterior a Fausto (por exemplo, na lenda de Teófilo, na Idade Média). Mas foi a história de Fausto que a tornou universal.

  • Facto: existiu um mago itinerante chamado Fausto.
  • Lenda: o pacto de 24 anos e a morte às mãos do diabo.
  • Literatura: Mefistófeles, tal como o conhecemos.

Os grimórios franceses dos séculos XVIII e XIX, como o Grande Grimório, dão o papel do demónio do pacto a outra figura: Lucífugo Rofocale.

➜ Lucífugo Rofocale

➜ Dicionário do oculto: letra P (Pacto)

Continue a ler

➜ Lúcifer

➜ O Grande Grimório

➜ Anjos, demónios e entidades

Fontes

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