Lúcifer é hoje, para muita gente, simplesmente outro nome do diabo. Mas a palavra tem uma história muito mais curiosa: em latim, lucifer quer dizer «portador da luz» e era o nome da estrela da manhã — o planeta Vénus visto antes do nascer do sol.
A passagem de estrela a anjo caído deu-se ao longo de séculos, através da tradução da Bíblia, da leitura dos teólogos e da literatura. Esta página separa o que está no texto bíblico, o que é interpretação cristã posterior e o que é criação literária ou esotérica.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | Lúcifer; latim lucifer; hebraico Hêlēl ben Šaḥar |
| Significado | «Portador da luz»; a estrela da manhã (Vénus) |
| Tipo | Na teologia cristã, anjo caído identificado com Satanás |
| Primeira fonte | Isaías 14:12, na tradução latina (Vulgata) |
| Tradições | Mitologia romana, cristianismo, literatura, grimórios, luciferianismo |
| Atributos | Luz, orgulho, queda; beleza perdida |
A origem: Isaías 14 e a estrela da manhã
O capítulo 14 de Isaías é um poema de troça contra o rei da Babilónia. O profeta compara a queda desse rei à de um astro brilhante. No hebraico, o astro chama-se Hêlēl ben Šaḥar, «o brilhante, filho da aurora».
Quando São Jerónimo traduziu a Bíblia para latim (a Vulgata), usou a palavra comum para a estrela da manhã. A Nova Vulgata ainda diz: «Quomodo cecidisti de caelo, lucifer, fili aurorae?» — «Como caíste do céu, estrela da manhã, filho da aurora?»
Na origem, portanto, lucifer não era um nome próprio. A mesma palavra aparece noutros textos latinos sem qualquer sentido negativo — na Segunda Carta de Pedro, por exemplo, aplica-se à luz que nasce no coração dos crentes. Houve até um bispo e santo chamado Lúcifer de Cagliari (m. c. 370), defensor de Atanásio contra o arianismo.
Os estudiosos notam ainda paralelos com um mito cananeu: o deus Athtar tenta ocupar o trono de Baal e acaba por descer ao mundo inferior.
Como Lúcifer se tornou o diabo
A identificação com Satanás é uma interpretação cristã, não o sentido original do texto. Autores como Tertuliano (c. 160–225) e Orígenes leram Isaías 14 como uma descrição da queda do diabo. Santo Agostinho (354–430) consolidou a ideia de que o primeiro pecado do anjo rebelde foi o orgulho.
Juntou-se a isto outra passagem, Lucas 10:18 («Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago»), e o nome ficou colado ao anjo caído. Na tradição popular, «Lúcifer» passou a ser o nome do anjo antes da queda, e «Satanás» o nome depois.
Muitas traduções modernas da Bíblia já não usam «Lúcifer» em Isaías 14 e preferem «estrela da manhã» ou «astro brilhante».
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Lúcifer na literatura
Dante
No Inferno de Dante (escrito c. 1306–1310), Lúcifer — também chamado Dite — está no nono círculo, preso no gelo do lago Cocito. Tem três caras (vermelha, amarelada e negra) e seis asas cujo bater só produz frio. Em cada boca mastiga um traidor: Judas, Bruto e Cássio.
Não é um rei orgulhoso: é uma figura imóvel e impotente, o oposto de Deus.
Milton
No Paraíso Perdido (1667), de John Milton, Satanás — «antes chamado Lúcifer» — é carismático, eloquente e trágico. É dele a frase célebre: «Melhor reinar no Inferno do que servir no Céu» (Livro I).
Os românticos leram-no quase como herói. William Blake escreveu que Milton era «do partido do Diabo sem o saber». Esta leitura influenciou muito a imagem moderna de Lúcifer como rebelde.
Lúcifer nos grimórios
Nos grimórios europeus dos séculos XVIII e XIX, Lúcifer aparece no topo das hierarquias infernais:
- No Grimorium Verum, é o primeiro de três «poderes» (com Belzebu e Astaroth) e governa a Europa e a Ásia;
- No Grande Grimório, é o «imperador» dos espíritos rebeldes, e o pacto faz-se com o seu «primeiro-ministro», Lucífugo Rofocale.
Na Goetia, pelo contrário, quase não aparece: só é mencionado a propósito de outros espíritos. Estas hierarquias são construções dos próprios grimórios, não doutrina da Igreja nem tradição antiga.
O luciferianismo moderno
Luciferianismo é o nome dado a correntes modernas que veem Lúcifer como símbolo de luz, conhecimento e liberdade, e não como o mal. Algumas distinguem-no claramente de Satanás; outras não.
Alguns marcos documentados:
- Helena Blavatsky fundou em Londres, em 1887, uma revista teosófica chamada Lucifer, usando o nome no sentido de «portador da luz»;
- A Fraternitas Saturni (Alemanha, 1926) é muitas vezes apontada como uma ordem de orientação luciferiana;
- Nos séculos XIII e XIV houve acusações de «luciferianismo» contra grupos heréticos, que os historiadores consideram hoje invenções dos acusadores.
Vale a pena conhecer o embuste de Léo Taxil: nos anos 1880–1890, este escritor francês inventou que a maçonaria adorava Lúcifer. Em 1897 confessou publicamente a fraude — mas as suas falsificações ainda circulam.
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