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Lúcifer: a estrela da manhã que se tornou o diabo

Quem é Lúcifer? A origem do nome em Isaías 14 e na Vulgata, como se tornou o diabo, Dante, Milton, os grimórios e o luciferianismo moderno.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A origem: Isaías 14 e a estrela da manhã
  3. Como Lúcifer se tornou o diabo
  4. Lúcifer na literatura
  5. Lúcifer nos grimórios
  6. O luciferianismo moderno
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Lúcifer é hoje, para muita gente, simplesmente outro nome do diabo. Mas a palavra tem uma história muito mais curiosa: em latim, lucifer quer dizer «portador da luz» e era o nome da estrela da manhã — o planeta Vénus visto antes do nascer do sol.

A passagem de estrela a anjo caído deu-se ao longo de séculos, através da tradução da Bíblia, da leitura dos teólogos e da literatura. Esta página separa o que está no texto bíblico, o que é interpretação cristã posterior e o que é criação literária ou esotérica.

Ficha

Campo Informação
Nome e variantes Lúcifer; latim lucifer; hebraico Hêlēl ben Šaḥar
Significado «Portador da luz»; a estrela da manhã (Vénus)
Tipo Na teologia cristã, anjo caído identificado com Satanás
Primeira fonte Isaías 14:12, na tradução latina (Vulgata)
Tradições Mitologia romana, cristianismo, literatura, grimórios, luciferianismo
Atributos Luz, orgulho, queda; beleza perdida

A origem: Isaías 14 e a estrela da manhã

O capítulo 14 de Isaías é um poema de troça contra o rei da Babilónia. O profeta compara a queda desse rei à de um astro brilhante. No hebraico, o astro chama-se Hêlēl ben Šaḥar, «o brilhante, filho da aurora».

Quando São Jerónimo traduziu a Bíblia para latim (a Vulgata), usou a palavra comum para a estrela da manhã. A Nova Vulgata ainda diz: «Quomodo cecidisti de caelo, lucifer, fili aurorae?» — «Como caíste do céu, estrela da manhã, filho da aurora?»

Na origem, portanto, lucifer não era um nome próprio. A mesma palavra aparece noutros textos latinos sem qualquer sentido negativo — na Segunda Carta de Pedro, por exemplo, aplica-se à luz que nasce no coração dos crentes. Houve até um bispo e santo chamado Lúcifer de Cagliari (m. c. 370), defensor de Atanásio contra o arianismo.

Os estudiosos notam ainda paralelos com um mito cananeu: o deus Athtar tenta ocupar o trono de Baal e acaba por descer ao mundo inferior.

➜ Baal: o deus cananeu

Como Lúcifer se tornou o diabo

A identificação com Satanás é uma interpretação cristã, não o sentido original do texto. Autores como Tertuliano (c. 160–225) e Orígenes leram Isaías 14 como uma descrição da queda do diabo. Santo Agostinho (354–430) consolidou a ideia de que o primeiro pecado do anjo rebelde foi o orgulho.

Juntou-se a isto outra passagem, Lucas 10:18 («Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago»), e o nome ficou colado ao anjo caído. Na tradição popular, «Lúcifer» passou a ser o nome do anjo antes da queda, e «Satanás» o nome depois.

Muitas traduções modernas da Bíblia já não usam «Lúcifer» em Isaías 14 e preferem «estrela da manhã» ou «astro brilhante».

➜ O diabo na tradição portuguesa

Lúcifer na literatura

Dante

No Inferno de Dante (escrito c. 1306–1310), Lúcifer — também chamado Dite — está no nono círculo, preso no gelo do lago Cocito. Tem três caras (vermelha, amarelada e negra) e seis asas cujo bater só produz frio. Em cada boca mastiga um traidor: Judas, Bruto e Cássio.

Não é um rei orgulhoso: é uma figura imóvel e impotente, o oposto de Deus.

Milton

No Paraíso Perdido (1667), de John Milton, Satanás — «antes chamado Lúcifer» — é carismático, eloquente e trágico. É dele a frase célebre: «Melhor reinar no Inferno do que servir no Céu» (Livro I).

Os românticos leram-no quase como herói. William Blake escreveu que Milton era «do partido do Diabo sem o saber». Esta leitura influenciou muito a imagem moderna de Lúcifer como rebelde.

Lúcifer nos grimórios

Nos grimórios europeus dos séculos XVIII e XIX, Lúcifer aparece no topo das hierarquias infernais:

  • No Grimorium Verum, é o primeiro de três «poderes» (com Belzebu e Astaroth) e governa a Europa e a Ásia;
  • No Grande Grimório, é o «imperador» dos espíritos rebeldes, e o pacto faz-se com o seu «primeiro-ministro», Lucífugo Rofocale.

Na Goetia, pelo contrário, quase não aparece: só é mencionado a propósito de outros espíritos. Estas hierarquias são construções dos próprios grimórios, não doutrina da Igreja nem tradição antiga.

➜ Grimorium Verum

➜ Lucífugo Rofocale

➜ O Selo de Lúcifer

O luciferianismo moderno

Luciferianismo é o nome dado a correntes modernas que veem Lúcifer como símbolo de luz, conhecimento e liberdade, e não como o mal. Algumas distinguem-no claramente de Satanás; outras não.

Alguns marcos documentados:

  • Helena Blavatsky fundou em Londres, em 1887, uma revista teosófica chamada Lucifer, usando o nome no sentido de «portador da luz»;
  • A Fraternitas Saturni (Alemanha, 1926) é muitas vezes apontada como uma ordem de orientação luciferiana;
  • Nos séculos XIII e XIV houve acusações de «luciferianismo» contra grupos heréticos, que os historiadores consideram hoje invenções dos acusadores.

Vale a pena conhecer o embuste de Léo Taxil: nos anos 1880–1890, este escritor francês inventou que a maçonaria adorava Lúcifer. Em 1897 confessou publicamente a fraude — mas as suas falsificações ainda circulam.

➜ Helena Blavatsky

Continue a ler

➜ Anjos, demónios e entidades

➜ Belzebu, o «senhor das moscas»

➜ Demonologia

➜ Mefistófeles

Fontes

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