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Maria Padilha

A história real de María de Padilla (c. 1334–1361), a fama de feiticeira, os conjuros da Inquisição portuguesa e a Pombagira Maria Padilha da Umbanda.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A mulher histórica
  3. A lenda da feiticeira
  4. Maria Padilha na Inquisição portuguesa
  5. A Pombagira Maria Padilha
  6. O que não é verdade
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Maria Padilha é hoje conhecida, sobretudo no Brasil, como uma das Pombagiras mais populares da Umbanda e da Quimbanda. Mas o nome pertenceu primeiro a uma mulher real: María de Padilla, companheira do rei Pedro I de Castela, no século XIV.

Entre a nobre castelhana e a entidade afro-brasileira passaram quinhentos anos. Pelo caminho, o nome circulou em romances populares, em conjuros de feiticeiras e em processos da Inquisição portuguesa.

Esta página separa o que é história documentada, o que é lenda e o que é crença religiosa.

Ficha

Campo Informação
Nome e variantes María de Padilla (castelhano); Maria Padilha (português)
Tipo Figura histórica; figura do folclore mágico ibérico; Pombagira
Nascimento c. 1334, local incerto (Castela)
Morte Julho de 1361, talvez de peste
Primeira fonte Crónicas castelhanas do reinado de Pedro I
Tradições Romanceiro ibérico, feitiçaria amorosa, Umbanda, Quimbanda

A mulher histórica

María de Padilla pertencia à pequena nobreza castelhana. Conheceu o rei Pedro I de Castela no verão de 1352. As crónicas descrevem-na como bela, inteligente e «pequena de corpo».

Em 1353, o rei casou por razões políticas com Branca de Bourbon, mas abandonou-a poucos dias depois e voltou para María. A relação durou até à morte dela, em 1361.

Tiveram quatro filhos. Duas filhas casaram com príncipes ingleses: Constança com João de Gante, duque de Lencastre, e Isabel com Edmundo de Langley, duque de Iorque.

Depois da morte de María, o rei declarou que tinham casado em segredo em 1353 e passou a apresentá-la como sua mulher legítima. Está sepultada na Capela Real da Catedral de Sevilha.

➜ A Inquisição em Portugal

A lenda da feiticeira

Um rei que abandona a rainha por uma amante pedia uma explicação. A que circulou foi a feitiçaria.

Segundo uma lenda antiga, María teria pedido a um feiticeiro que transformasse num cinto de ouro, oferecido por Branca de Bourbon ao rei, numa serpente, para que Pedro odiasse a mulher. Não há prova histórica disto. É o tipo de acusação que se fazia contra mulheres com poder na corte.

A fama ficou. Nos séculos seguintes, «Maria Padilha» tornou-se na Península Ibérica um nome de patrona das feiticeiras, sobretudo na magia amorosa.

Maria Padilha na Inquisição portuguesa

O caso de Antónia Maria

O exemplo mais estudado é o de Antónia Maria, moradora em Beja. Foi presa pela Inquisição de Lisboa a 11 de setembro de 1712, acusada de práticas supersticiosas, invocação do demónio e pacto com o diabo.

Em 1713 foi condenada, entre outras penas, a açoites públicos e a três anos de degredo em Angola. Mais tarde viveu no Recife. Voltou a ser presa no Brasil, em Alagoas, e saiu em auto da fé em Lisboa a 10 de outubro de 1723.

Nas confissões aparecem conjuros amorosos que chamam várias figuras. Um deles invoca Barrabás, Satanás, Lúcifer e termina assim:

«vá Maria Padilha com toda a sua quadrilha»

(texto do processo, ANTT, Inquisição de Lisboa, proc. 1377, segundo a transcrição citada por Silva e Cavalcanti)

O percurso desta mulher — de Beja a Angola, de Angola ao Recife — é o mesmo caminho que o nome Maria Padilha fez até ao Brasil.

➜ A oração de São Marcos e os conjuros de amor

Porque interessa

Casos como este mostram que Maria Padilha não nasceu no Brasil. Era já uma figura da feitiçaria portuguesa e espanhola, invocada em fórmulas de amor ao lado de demónios.

➜ Feitiçaria portuguesa

A Pombagira Maria Padilha

Na Umbanda e na Quimbanda, Maria Padilha é uma falange de Pombagiras: espíritos femininos associados ao amor, ao desejo, à proteção e às encruzilhadas. Muitos devotos contam a sua história como a de uma rainha espanhola.

Aqui é preciso separar:

  • Facto: existiu uma María de Padilla; o nome aparece em conjuros ibéricos e em processos inquisitoriais.
  • Hipótese de estudo: o nome terá chegado ao Brasil com a feitiçaria portuguesa e fundiu-se com a Pombagira de origem banta.
  • Crença religiosa: que a entidade dos terreiros seja o espírito da mulher histórica. Isto não se pode provar nem refutar pela história.

O estudioso Ronaldo Rego lembra que não há provas de que uma seja a outra. A antropóloga Monique Augras defendeu que a origem histórica, sozinha, não explica a figura: pesa mais o medo antigo da mulher que assume o desejo.

➜ Exu e Pombagira

O que não é verdade

  • Não existem «orações de Maria Padilha» medievais. As que circulam hoje são textos populares recentes.
  • Não há registo de que a María histórica praticasse magia.
  • Nenhuma oração ou ritual garante o regresso de alguém. A vontade de outra pessoa não se força.

Continue a ler

➜ Exu e Pombagira

➜ Quimbanda

➜ Bruxaria em Portugal

➜ Dicionário do oculto: letra M

Fontes

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