Maria Padilha é hoje conhecida, sobretudo no Brasil, como uma das Pombagiras mais populares da Umbanda e da Quimbanda. Mas o nome pertenceu primeiro a uma mulher real: María de Padilla, companheira do rei Pedro I de Castela, no século XIV.
Entre a nobre castelhana e a entidade afro-brasileira passaram quinhentos anos. Pelo caminho, o nome circulou em romances populares, em conjuros de feiticeiras e em processos da Inquisição portuguesa.
Esta página separa o que é história documentada, o que é lenda e o que é crença religiosa.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | María de Padilla (castelhano); Maria Padilha (português) |
| Tipo | Figura histórica; figura do folclore mágico ibérico; Pombagira |
| Nascimento | c. 1334, local incerto (Castela) |
| Morte | Julho de 1361, talvez de peste |
| Primeira fonte | Crónicas castelhanas do reinado de Pedro I |
| Tradições | Romanceiro ibérico, feitiçaria amorosa, Umbanda, Quimbanda |
A mulher histórica
María de Padilla pertencia à pequena nobreza castelhana. Conheceu o rei Pedro I de Castela no verão de 1352. As crónicas descrevem-na como bela, inteligente e «pequena de corpo».
Em 1353, o rei casou por razões políticas com Branca de Bourbon, mas abandonou-a poucos dias depois e voltou para María. A relação durou até à morte dela, em 1361.
Tiveram quatro filhos. Duas filhas casaram com príncipes ingleses: Constança com João de Gante, duque de Lencastre, e Isabel com Edmundo de Langley, duque de Iorque.
Depois da morte de María, o rei declarou que tinham casado em segredo em 1353 e passou a apresentá-la como sua mulher legítima. Está sepultada na Capela Real da Catedral de Sevilha.
A lenda da feiticeira
Um rei que abandona a rainha por uma amante pedia uma explicação. A que circulou foi a feitiçaria.
Segundo uma lenda antiga, María teria pedido a um feiticeiro que transformasse num cinto de ouro, oferecido por Branca de Bourbon ao rei, numa serpente, para que Pedro odiasse a mulher. Não há prova histórica disto. É o tipo de acusação que se fazia contra mulheres com poder na corte.
A fama ficou. Nos séculos seguintes, «Maria Padilha» tornou-se na Península Ibérica um nome de patrona das feiticeiras, sobretudo na magia amorosa.
Maria Padilha na Inquisição portuguesa
O caso de Antónia Maria
O exemplo mais estudado é o de Antónia Maria, moradora em Beja. Foi presa pela Inquisição de Lisboa a 11 de setembro de 1712, acusada de práticas supersticiosas, invocação do demónio e pacto com o diabo.
Em 1713 foi condenada, entre outras penas, a açoites públicos e a três anos de degredo em Angola. Mais tarde viveu no Recife. Voltou a ser presa no Brasil, em Alagoas, e saiu em auto da fé em Lisboa a 10 de outubro de 1723.
Nas confissões aparecem conjuros amorosos que chamam várias figuras. Um deles invoca Barrabás, Satanás, Lúcifer e termina assim:
«vá Maria Padilha com toda a sua quadrilha»
(texto do processo, ANTT, Inquisição de Lisboa, proc. 1377, segundo a transcrição citada por Silva e Cavalcanti)
O percurso desta mulher — de Beja a Angola, de Angola ao Recife — é o mesmo caminho que o nome Maria Padilha fez até ao Brasil.
➜ A oração de São Marcos e os conjuros de amor
Porque interessa
Casos como este mostram que Maria Padilha não nasceu no Brasil. Era já uma figura da feitiçaria portuguesa e espanhola, invocada em fórmulas de amor ao lado de demónios.
A Pombagira Maria Padilha
Na Umbanda e na Quimbanda, Maria Padilha é uma falange de Pombagiras: espíritos femininos associados ao amor, ao desejo, à proteção e às encruzilhadas. Muitos devotos contam a sua história como a de uma rainha espanhola.
Aqui é preciso separar:
- Facto: existiu uma María de Padilla; o nome aparece em conjuros ibéricos e em processos inquisitoriais.
- Hipótese de estudo: o nome terá chegado ao Brasil com a feitiçaria portuguesa e fundiu-se com a Pombagira de origem banta.
- Crença religiosa: que a entidade dos terreiros seja o espírito da mulher histórica. Isto não se pode provar nem refutar pela história.
O estudioso Ronaldo Rego lembra que não há provas de que uma seja a outra. A antropóloga Monique Augras defendeu que a origem histórica, sozinha, não explica a figura: pesa mais o medo antigo da mulher que assume o desejo.
O que não é verdade
- Não existem «orações de Maria Padilha» medievais. As que circulam hoje são textos populares recentes.
- Não há registo de que a María histórica praticasse magia.
- Nenhuma oração ou ritual garante o regresso de alguém. A vontade de outra pessoa não se força.
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Fontes
- Wikipedia (inglês), María de Padilla e (espanhol) María de Padilla — vida, filhos, sepultura, lenda do cinto
- Nereida Soares Martins da Silva e Carlos André Cavalcanti, «A feitiçaria moderna na América portuguesa», Religare, v. 11, n. 1, 2014 — o processo de Antónia Maria
- Marlyse Meyer, Maria Padilha e toda a sua quadrilha: de amante de um rei de Castela a pomba-gira de umbanda (1993)
- Monique Augras, «María Padilla, reina de la magia», Revista Española de Antropología Americana, 31 (2001), pp. 293–319
- Museu Bajubá, «A palavra é: Maria Padilha» — citando Rego (2021)