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🧙 Figuras do Oculto

Cornélio Agrippa: o homem por trás da Filosofia Oculta

Heinrich Cornelius Agrippa (1486–1535): a vida errante, a defesa de uma acusada de bruxaria em Metz (1519), o cão «Monsieur» e a lenda do mago.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. A vida (facto)
  3. A bruxa de Metz (1519)
  4. A «vaidade das ciências»
  5. A lenda: o cão «Monsieur»
  6. Influência
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim — em português, Cornélio Agrippa — escreveu a obra mais influente da magia do Renascimento, os Três Livros de Filosofia Oculta. Esta página não trata do livro, que tem ficha própria, mas do homem.

E o homem foi mais surpreendente do que a lenda. Soldado, médico, advogado, professor e historiador, mudou de cidade e de protetor dezenas de vezes. Em Metz, salvou da fogueira uma mulher acusada de bruxaria.

Depois da morte, virou personagem: um mago acompanhado por um cão negro diabólico.

➜ Três Livros de Filosofia Oculta, de Agrippa

Ficha

Campo Informação
Nome Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim (Cornélio Agrippa)
Nascimento 14 de setembro de 1486, Colónia (família de Nettesheim)
Morte 18 de fevereiro de 1535, Grenoble (ou, o mais tardar, 1536)
Origem Sacro Império Romano-Germânico
Ocupação Soldado, jurista, médico, professor, historiógrafo
Obras principais Filosofia Oculta; Da vaidade das ciências; Da nobreza do sexo feminino
Conhecido por Filosofia mágica, ceticismo, defesa de uma acusada de bruxaria

A vida (facto)

Estudou na Universidade de Colónia (1499–1502) e depois em Paris. Em 1509, em Dole (França), deu lições sobre um livro cabalístico de Johannes Reuchlin. Um frade franciscano acusou-o de «herege judaizante» e teve de partir.

Nesse período escreveu Da nobreza e excelência do sexo feminino, onde defendia, com argumentos teológicos, a superioridade das mulheres. Uma tese ousada para a época.

No inverno de 1509–1510 esteve com o abade Tritémio, em Würzburg, e dedicou-lhe a primeira versão da Filosofia Oculta.

➜ Tritémio, o abade de Sponheim

Uma vida errante

Anos Onde e o quê
1510 Missão diplomática em Inglaterra
1511–1518 Itália: serviço militar ao imperador Maximiliano I, que o fez cavaleiro; lições em Pávia sobre Hermes Trismegisto (1515)
1518–1520 Metz: advogado e orador da cidade
Anos 1520 Genebra e Friburgo, como médico
1524–c. 1528 Lyon: médico de Luísa de Saboia, mãe do rei Francisco I
c. 1529–1530 Países Baixos: arquivista e historiógrafo de Carlos V, sob proteção de Margarida de Áustria
1532–1535 Colónia e Bona, sob proteção do arcebispo Hermann von Wied

No início da década de 1530 esteve preso por dívidas em Bruxelas. Em 1535 voltou a França, foi detido por ordem de Francisco I e, pouco depois de libertado, morreu em Grenoble.

A bruxa de Metz (1519)

Em 1519, em Metz, uma mulher da aldeia de Woippy foi acusada de bruxaria. Parte da acusação assentava no facto de a mãe dela já ter sido queimada como bruxa.

Agrippa, como advogado da cidade, tomou a defesa contra o inquisidor Nicolas Savin. Agrippa respondeu que ser filha de uma condenada não provava coisa nenhuma. Contestou os argumentos tirados do Malleus Maleficarum — o célebre manual dos caçadores de bruxas — e conseguiu a absolvição da mulher.

O caso custou-lhe caro. Criou inimigos, espalharam-se rumores de que só um aliado do diabo venceria a Inquisição, e em 1520 deixou o cargo.

É um episódio notável: meio século antes de Johann Weyer, o seu antigo aluno, escrever contra a perseguição às bruxas, Agrippa já a enfrentava num tribunal.

➜ Malleus Maleficarum

➜ Caça às bruxas na Europa

A «vaidade das ciências»

Em 1526 concluiu Da incerteza e vaidade das ciências, uma sátira que ataca todos os saberes do seu tempo, incluindo a magia e a astrologia. Foi muito lida e influenciou Montaigne.

Em Bruxelas, o livro foi mandado queimar. Mesmo assim, Agrippa publicou depois a Filosofia Oculta (1531–1533). Os historiadores ainda discutem como se conciliam as duas obras.

Um ponto importante: não há prova de que tenha sido acusado ou perseguido em vida por praticar magia. Os seus problemas vieram das polémicas com teólogos, das dívidas e do mau feitio com que respondia aos adversários.

A lenda: o cão «Monsieur»

Depois da morte, contou-se que Agrippa andava sempre com um cão negro, que seria na verdade um demónio familiar.

Quem desmentiu foi Johann Weyer, que em jovem vivera em casa de Agrippa. Escreveu que o cão era preto, de tamanho médio, e se chamava «Monsieur» (em francês, «senhor»). Acrescentou que o levara muitas vezes pela trela e que era um cão perfeitamente normal.

A lenda sobreviveu ao desmentido. Muitos estudiosos pensam que o cão de Agrippa passou para a tradição de Fausto: no Fausto de Goethe (1808), Mefistófeles aparece primeiro como um caniche negro.

➜ O «familiar» das bruxas

➜ Mefistófeles

Influência

  • A Filosofia Oculta tornou-se a base das tabelas de correspondências usadas até hoje.
  • Em Inglaterra, foi lido sobretudo como um mago semilendário; Marlowe cita-o no Doutor Fausto.
  • Mary Shelley põe o jovem Victor Frankenstein a ler Agrippa.
  • Um «Quarto Livro» falso, com instruções para chamar espíritos, circulou com o seu nome a partir de 1559. O próprio Weyer denunciou-o.

➜ Heptameron ou Elementos Mágicos

Continue a ler

➜ Figuras do oculto

➜ Magia renascentista

➜ Pseudomonarchia Daemonum, de Johann Weyer

➜ Paracelso

Fontes

  • «Heinrich Cornelius Agrippa», Stanford Encyclopedia of Philosophy — plato.stanford.edu
  • «Heinrich Cornelius Agrippa», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Agrippa von Nettesheim», Wikipedia — de.wikipedia.org
  • «Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim», Encyclopaedia Britannica — britannica.com
  • Willem de Blécourt, «A Man and His Dog» — isfnr.org (PDF)
  • Charles G. Nauert, Agrippa and the Crisis of Renaissance Thought, University of Illinois Press, 1965.

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