Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim — em português, Cornélio Agrippa — escreveu a obra mais influente da magia do Renascimento, os Três Livros de Filosofia Oculta. Esta página não trata do livro, que tem ficha própria, mas do homem.
E o homem foi mais surpreendente do que a lenda. Soldado, médico, advogado, professor e historiador, mudou de cidade e de protetor dezenas de vezes. Em Metz, salvou da fogueira uma mulher acusada de bruxaria.
Depois da morte, virou personagem: um mago acompanhado por um cão negro diabólico.
➜ Três Livros de Filosofia Oculta, de Agrippa
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim (Cornélio Agrippa) |
| Nascimento | 14 de setembro de 1486, Colónia (família de Nettesheim) |
| Morte | 18 de fevereiro de 1535, Grenoble (ou, o mais tardar, 1536) |
| Origem | Sacro Império Romano-Germânico |
| Ocupação | Soldado, jurista, médico, professor, historiógrafo |
| Obras principais | Filosofia Oculta; Da vaidade das ciências; Da nobreza do sexo feminino |
| Conhecido por | Filosofia mágica, ceticismo, defesa de uma acusada de bruxaria |
A vida (facto)
Estudou na Universidade de Colónia (1499–1502) e depois em Paris. Em 1509, em Dole (França), deu lições sobre um livro cabalístico de Johannes Reuchlin. Um frade franciscano acusou-o de «herege judaizante» e teve de partir.
Nesse período escreveu Da nobreza e excelência do sexo feminino, onde defendia, com argumentos teológicos, a superioridade das mulheres. Uma tese ousada para a época.
No inverno de 1509–1510 esteve com o abade Tritémio, em Würzburg, e dedicou-lhe a primeira versão da Filosofia Oculta.
➜ Tritémio, o abade de Sponheim
Uma vida errante
| Anos | Onde e o quê |
|---|---|
| 1510 | Missão diplomática em Inglaterra |
| 1511–1518 | Itália: serviço militar ao imperador Maximiliano I, que o fez cavaleiro; lições em Pávia sobre Hermes Trismegisto (1515) |
| 1518–1520 | Metz: advogado e orador da cidade |
| Anos 1520 | Genebra e Friburgo, como médico |
| 1524–c. 1528 | Lyon: médico de Luísa de Saboia, mãe do rei Francisco I |
| c. 1529–1530 | Países Baixos: arquivista e historiógrafo de Carlos V, sob proteção de Margarida de Áustria |
| 1532–1535 | Colónia e Bona, sob proteção do arcebispo Hermann von Wied |
No início da década de 1530 esteve preso por dívidas em Bruxelas. Em 1535 voltou a França, foi detido por ordem de Francisco I e, pouco depois de libertado, morreu em Grenoble.
A bruxa de Metz (1519)
Em 1519, em Metz, uma mulher da aldeia de Woippy foi acusada de bruxaria. Parte da acusação assentava no facto de a mãe dela já ter sido queimada como bruxa.
Agrippa, como advogado da cidade, tomou a defesa contra o inquisidor Nicolas Savin. Agrippa respondeu que ser filha de uma condenada não provava coisa nenhuma. Contestou os argumentos tirados do Malleus Maleficarum — o célebre manual dos caçadores de bruxas — e conseguiu a absolvição da mulher.
O caso custou-lhe caro. Criou inimigos, espalharam-se rumores de que só um aliado do diabo venceria a Inquisição, e em 1520 deixou o cargo.
É um episódio notável: meio século antes de Johann Weyer, o seu antigo aluno, escrever contra a perseguição às bruxas, Agrippa já a enfrentava num tribunal.
A «vaidade das ciências»
Em 1526 concluiu Da incerteza e vaidade das ciências, uma sátira que ataca todos os saberes do seu tempo, incluindo a magia e a astrologia. Foi muito lida e influenciou Montaigne.
Em Bruxelas, o livro foi mandado queimar. Mesmo assim, Agrippa publicou depois a Filosofia Oculta (1531–1533). Os historiadores ainda discutem como se conciliam as duas obras.
Um ponto importante: não há prova de que tenha sido acusado ou perseguido em vida por praticar magia. Os seus problemas vieram das polémicas com teólogos, das dívidas e do mau feitio com que respondia aos adversários.
A lenda: o cão «Monsieur»
Depois da morte, contou-se que Agrippa andava sempre com um cão negro, que seria na verdade um demónio familiar.
Quem desmentiu foi Johann Weyer, que em jovem vivera em casa de Agrippa. Escreveu que o cão era preto, de tamanho médio, e se chamava «Monsieur» (em francês, «senhor»). Acrescentou que o levara muitas vezes pela trela e que era um cão perfeitamente normal.
A lenda sobreviveu ao desmentido. Muitos estudiosos pensam que o cão de Agrippa passou para a tradição de Fausto: no Fausto de Goethe (1808), Mefistófeles aparece primeiro como um caniche negro.
Influência
- A Filosofia Oculta tornou-se a base das tabelas de correspondências usadas até hoje.
- Em Inglaterra, foi lido sobretudo como um mago semilendário; Marlowe cita-o no Doutor Fausto.
- Mary Shelley põe o jovem Victor Frankenstein a ler Agrippa.
- Um «Quarto Livro» falso, com instruções para chamar espíritos, circulou com o seu nome a partir de 1559. O próprio Weyer denunciou-o.
➜ Heptameron ou Elementos Mágicos
Continue a ler
➜ Pseudomonarchia Daemonum, de Johann Weyer
Fontes
- «Heinrich Cornelius Agrippa», Stanford Encyclopedia of Philosophy — plato.stanford.edu
- «Heinrich Cornelius Agrippa», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Agrippa von Nettesheim», Wikipedia — de.wikipedia.org
- «Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim», Encyclopaedia Britannica — britannica.com
- Willem de Blécourt, «A Man and His Dog» — isfnr.org (PDF)
- Charles G. Nauert, Agrippa and the Crisis of Renaissance Thought, University of Illinois Press, 1965.