A Bíblia atribui a Moisés cinco livros: o Pentateuco. Desde cedo, porém, circularam histórias sobre livros secretos de Moisés, com os poderes que ele teria usado diante do faraó.
O Sexto e Sétimo Livros de Moisés é o mais famoso destes supostos livros perdidos. Foi publicado na Alemanha em 1849 e tornou-se um dos grimórios mais difundidos do mundo — da Pensilvânia à Jamaica, da Nigéria à Suécia.
Moisés não o escreveu. É um livro do século XIX, feito a partir de materiais mágicos europeus mais antigos.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Sexto e Sétimo Livros de Moisés |
| Nome original | Das sechste und siebente Buch Mosis (alemão) |
| Período | Publicado em 1849; materiais de origem dos séc. XVIII–XIX |
| Origem | Alemanha (Estugarda) |
| Autoria | Atribuída a Moisés; compilação anónima, editada por Johann Scheible |
| Idiomas | Alemão; depois inglês (1880), sueco, finlandês e outros |
| Tipo | Grimório de selos, conjurações e uso mágico dos Salmos |
Moisés, o «mago»
No livro do Êxodo, Moisés e Aarão enfrentam os magos do faraó com prodígios. Já na Antiguidade, isto deu a Moisés fama de grande mago entre gregos, romanos e judeus.
Os papiros mágicos gregos (séculos II a.C.–V d.C.) incluem textos chamados «oitavo livro de Moisés». O nome de Moisés, tal como o de Salomão, servia para dar autoridade a um texto mágico.
A origem real: Scheible, 1849
O livro foi impresso por Johann Scheible, editor e livreiro de Estugarda, no volume 6 da sua coleção Das Kloster («O Claustro»). Esta coleção reunia textos de magia e literatura popular alemã.
Segundo a Wikipédia, não se conhece nenhum manuscrito completo anterior a 1849. A pretensão de que o texto vem de Moisés, do Talmude ou de antigos manuscritos hebraicos é considerada pseudoepigráfica — isto é, uma falsa atribuição.
Os selos trazem inscrições apresentadas como hebraicas, o que reforçava a ilusão de antiguidade.
Nota: o nome do editor aparece por vezes escrito «Scheibel»; a grafia correta é Scheible.
O que contém
O subtítulo da edição americana apresenta o livro como a «arte mágica dos espíritos de Moisés», tirada da Cabala e do Talmude. A edição revista de Joseph H. Peterson mostra esta estrutura:
- Uma introdução sobre a «magia dos israelitas», copiada de um livro de história da magia de Joseph Ennemoser (1844);
- O Sexto Livro e o Sétimo Livro, com selos desenhados e as conjurações que os acompanham;
- No Sétimo Livro, doze «tábuas» ligadas aos espíritos do ar, do fogo, da água, da terra e dos planetas;
- Várias versões alternativas, com selos diferentes;
- Apêndices sobre os nomes de Deus e o Shimmush Tehillim, o uso mágico dos Salmos.
Os selos ou «pentáculos»
Os selos são o elemento mais conhecido. São desenhos circulares com letras, nomes e figuras, na linha dos pentáculos da Clavícula de Salomão. Na crença de quem usa o livro, cada selo tem um fim próprio: proteção, sorte, riqueza, cura.
Descrevemos o livro como objeto histórico. Não reproduzimos as conjurações nem as instruções de uso.
A viagem do livro pelo mundo
Estados Unidos: o pow-wow
Houve uma edição alemã em Nova Iorque em 1865 e a primeira tradução inglesa, também em Nova Iorque, em 1880.
Entre os alemães da Pensilvânia (Pennsylvania Dutch), o livro entrou no mundo do pow-wow ou Braucherei, uma tradição de cura popular com orações e benzeduras. O livro de referência desta tradição era outro: Pow-Wows; or, Long Lost Friend, de John George Hohman (1820). O de Moisés era visto como mais perigoso, por conter «magia negra».
O hoodoo afro-americano
A editora de L. W. de Laurence, em Chicago, vendeu edições baratas por correspondência. O livro tornou-se uma peça central do hoodoo, a magia popular afro-americana do Sul dos EUA.
Entre 1936 e 1972, o folclorista Harry Middleton Hyatt entrevistou cerca de 1600 praticantes de hoodoo, e o livro é referido nesses registos.
Caraíbas: obeah e Rastafari
Na Jamaica, o livro tornou-se um dos textos centrais do obeah. É também referido nas origens do movimento revivalista e do Rastafari, no início do século XX. Em 1963, o grupo Toots and the Maytals gravou uma canção com o seu nome.
Segundo a Wikipédia, as publicações de De Laurence foram proibidas na Jamaica, no quadro das leis contra o obeah.
África Ocidental
Na Costa do Ouro (atual Gana) e na Nigéria, durante o período colonial, o livro foi visto como uma magia «ocidental», próxima da maçonaria ou do rosacrucianismo. Nos anos 1920, jornais nigerianos publicavam anúncios para o vender. Os selos usados na Igreja do Senhor (Aladura), na Nigéria, parecem inspirar-se nele.
Escandinávia
Na Suécia e na Finlândia, circulou como a «Bíblia Negra» (Den Svarta Bibeln, Musta Raamattu).
Um livro com má fama
Em várias comunidades, como entre os alemães da Pensilvânia, o livro ganhou fama de perigoso. É uma crença popular, que também ajudou a torná-lo desejado.
Os historiadores veem nele outra coisa: um produto editorial de sucesso, que juntou tradições judaicas, cristãs e mágicas europeias e que cada cultura adaptou à sua maneira.
Onde ler
- Sacred-Texts tem a tradução inglesa em domínio público: Sexto Livro e Sétimo Livro.
- Esoteric Archives tem uma edição revista por Joseph H. Peterson, baseada na edição alemã de Nova Iorque (1865).
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➜ Cabala
Fontes
- «Sixth and Seventh Books of Moses», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Joseph H. Peterson (ed.), The Sixth and Seventh Books of Moses — esotericarchives.com
- «Lauron William de Laurence», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009.