Entre meados do século XV e meados do século XVIII, a Europa processou dezenas de milhares de pessoas por bruxaria. Muitas foram executadas, quase sempre na fogueira ou na forca.
É um dos episódios mais estudados da história europeia. E também um dos mais cheios de mitos: os «nove milhões de bruxas queimadas», a ideia de que foi obra da Idade Média ou de que a Inquisição queimou bruxas em toda a parte.
Esta página resume o que os historiadores sabem hoje, com números e fontes.
Os números: o que dizem os historiadores
Os números exatos nunca serão conhecidos, porque muitos processos se perderam. Mas as estimativas atuais são muito mais baixas do que os mitos:
| Dado | Estimativa |
|---|---|
| Processos | Cerca de 80 000 a 100 000 |
| Execuções | Entre 35 000 e 60 000; muitos historiadores apontam cerca de 40 000 |
| Mulheres | Cerca de 75–85% dos acusados |
| Período mais intenso | Entre 1560 e 1630 |
O número de «nove milhões», que ainda circula, não tem base documental. Foi avançado em 1784 por Gottfried Christian Voigt, numa polémica com Voltaire, e depois repetido sem verificação.
A caça às bruxas também não foi medieval. Os grandes processos são da época moderna — o tempo do Renascimento, da Reforma e da ciência de Galileu.
Onde foi pior
A perseguição foi muito desigual:
| Região | Execuções estimadas |
|---|---|
| Sacro Império (Alemanha, Suíça, Países Baixos) | 25 000 a 30 000 |
| Ilhas Britânicas | 1500 a 2000 |
| Escandinávia | 1700 a 2000 |
| França | Cerca de 1000 |
| Espanha, Portugal e Itália | Cerca de 1000, no conjunto |
Os piores episódios aconteceram em pequenos estados alemães governados por príncipes-bispos. Em Würzburg e Bamberg, entre 1626 e 1631, centenas de pessoas foram executadas em poucos anos.
Em Inglaterra, Matthew Hopkins, que se intitulava «Witchfinder General», levou à forca entre 1644 e 1647 mais pessoas do que todos os caçadores de bruxas ingleses dos 160 anos anteriores, em plena guerra civil.
Fora da Europa, os processos de Salém (Massachusetts, 1692–1693) levaram ao enforcamento de 19 pessoas.
Como começou
Uma ideia nova de bruxa
Na Idade Média, os processos por bruxaria eram raros. Um texto canónico muito citado, o Canon Episcopi, tratava os voos noturnos das bruxas como ilusão. No século XV surgiu uma ideia nova: a bruxa como membro de uma seita de adoradores do Diabo, que faziam pacto, voavam para o sabat e causavam malefícios.
A bula e o Malleus
Em 1484, o papa Inocêncio VIII publicou a bula Summis desiderantes affectibus, que apoiava os inquisidores Heinrich Kramer e Jacob Sprenger na Alemanha.
Em 1486, Kramer publicou o Malleus Maleficarum, «O Martelo das Feiticeiras». Não foi o único tratado, nem foi aceite por todos os teólogos, mas teve várias edições e ajudou a espalhar a nova imagem da bruxa.
➜ Malleus Maleficarum: o Martelo das Feiticeiras
Porque se tornou uma caça
Os historiadores apontam várias causas, que se combinam:
- Tortura usada para obter confissões e nomes de «cúmplices», que geravam novas acusações em cadeia;
- Tribunais locais sem controlo superior, sobretudo nos pequenos estados alemães;
- Crises: guerras religiosas, más colheitas, epidemias e o arrefecimento do clima;
- Conflitos de vizinhança: muitas acusações começavam com uma desavença.
As vozes críticas
Mesmo na época, houve quem denunciasse a caça.
- Alonso de Salazar Frías, inquisidor espanhol, investigou os processos de bruxaria bascos de 1609–1614. Concluiu que não havia provas reais. A Inquisição espanhola adotou regras de prova mais exigentes em 1614, o que praticamente acabou com as execuções em Espanha.
- Friedrich Spee, jesuíta alemão, publicou anonimamente em 1631 a Cautio Criminalis. Tinha acompanhado condenadas à fogueira e mostrou que a tortura fabricava confissões falsas.
Como acabou
A partir do fim do século XVII, os tribunais passaram a exigir mais provas e as elites deixaram de acreditar em pactos e voos. As leis contra a bruxaria foram sendo abolidas.
Uma das últimas execuções na Europa Ocidental foi a de Anna Göldi, na Suíça, em 1782, oficialmente por envenenamento.
Porque Portugal foi diferente
Portugal teve crença em bruxas, leis e tribunais, mas quase não teve caça às bruxas. Segundo o historiador José Pedro Paiva, entre 1600 e 1774 a Inquisição portuguesa processou algumas centenas de pessoas por feitiçaria, e muito poucas foram entregues para execução.
As razões apontadas: a Inquisição concentrava-se nos cristãos-novos, os juízes eram céticos quanto aos voos e ao sabat, e houve pouca demonologia portuguesa. A página própria tem os números e as obras de referência.
➜ Bruxaria em Portugal: um país sem caça às bruxas
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Fontes
- Brian P. Levack, The Witch-Hunt in Early Modern Europe (Longman, 1987; várias edições)
- Wikipedia (inglês), Witch trials in the early modern period e Witch-hunt
- Wikipedia (inglês), Basque witch trials e Friedrich Spee
- Wikipedia (inglês), Matthew Hopkins e Salem witch trials
- José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774) (Notícias, 1997)