Nostradamus é o nome mais famoso da profecia ocidental. Há quase cinco séculos que as suas quadras enigmáticas são lidas como previsões de guerras, reis e catástrofes.
Mas quem foi realmente? Um médico e boticário da Provença, autor de almanaques astrológicos, que publicou em 1555 um livro de versos obscuros: Les Prophéties.
Esta página separa o que é verificável do que é interpretação posterior — muitas vezes feita depois de os acontecimentos terem ocorrido.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Michel de Nostredame (latinizado Nostradamus) |
| Nascimento | 14 de dezembro de 1503, Saint-Rémy-de-Provence (França) |
| Morte | 1–2 de julho de 1566, Salon-de-Provence (França) |
| Origem | Provença, França |
| Ocupação | Médico, boticário, astrólogo, autor de almanaques |
| Obras principais | Les Prophéties (1555), almanaques anuais (1550–1567), Traité des fardements et confitures (1555) |
| Conhecido por | As quadras proféticas |
A vida (facto)
Nostradamus trabalhou como médico e boticário durante as epidemias de peste na Provença. Ficou conhecido por uma «pílula de rosas» que, segundo ele, protegia da doença. Não há qualquer prova de que tivesse efeito contra a peste.
A partir de 1550 publicou almanaques anuais, com previsões astrológicas para o ano seguinte. Tiveram grande sucesso.
Também escreveu um livro de receitas de cosméticos e doces, o Traité des fardements et confitures (1555).
A rainha Catarina de Médicis tornou-se sua protetora. Antes de morrer, era conselheiro e médico do rei Carlos IX.
As Prophéties: como é o livro
A primeira edição saiu em Lyon, em 1555, impressa por Macé Bonhomme, com 353 quadras.
A obra está organizada em «centúrias», grupos de cem quadras. A edição de 1568, publicada após a morte do autor, reuniu 942 quadras em dez centúrias (a sétima tem só 42).
As quadras são versos de quatro linhas, sem datas claras, com mistura de francês, latim, anagramas e nomes antigos. O próprio Nostradamus recusou várias vezes o título de «profeta» nos prefácios.
De onde vinham as ideias
Os estudiosos mostraram que muitas quadras se baseiam em acontecimentos do passado: historiadores romanos como Tito Lívio e Plutarco, crónicas medievais e livros de profecias como o Mirabilis Liber (1522). Nostradamus projetava o passado no futuro, na convicção de que a história se repete.
Mitos e factos
A morte de Henrique II
Diz-se que a quadra I.35 previu a morte do rei Henrique II num torneio, em 1559. Facto: essa quadra só aparece impressa pela primeira vez em 1614, 55 anos depois do acontecimento.
«Hister» e Hitler
«Hister», que aparece em algumas quadras, era o nome clássico do baixo Danúbio. A leitura como «Hitler» é posterior e forçada.
Nomes «escondidos»
«Pau, Nay, Loron», lido às vezes como anagrama de «Napoleão», são três localidades do sudoeste de França, perto da região onde Nostradamus viveu.
O que é verificável
- As quadras são vagas e aplicam-se a muitas situações.
- As ligações a acontecimentos concretos são feitas depois de estes ocorrerem — o que se chama «clarividência retroativa».
- Não se conhece nenhuma quadra que tenha permitido prever um acontecimento específico antes de ele acontecer, a não ser em termos muito gerais.
- Muitas «profecias de Nostradamus» que circulam na internet são traduções erradas ou inventadas.
Porque continua a fascinar
A linguagem obscura deixa espaço à imaginação. Cada geração encontra nas quadras os seus medos: guerras, cometas, fim do mundo.
É o mesmo fenómeno que em Portugal se viu com as Trovas do Bandarra, o sapateiro de Trancoso cujos versos alimentaram o sebastianismo.
➜ O Sebastianismo e as Trovas do Bandarra
Influência
- Les Prophéties nunca deixou de ser reeditado desde o século XVI.
- É uma referência constante na cultura popular, em livros, filmes e documentários.
Curiosidades
- Nos almanaques terá publicado milhares de previsões — pelo menos 6338, segundo um levantamento.
- Nostradamus é a forma latinizada do apelido «Nostredame».
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Fontes
- Nostradamus — Wikipedia (inglês)
- Peter Lemesurier, The Unknown Nostradamus, O Books, 2003.
- Pierre Brind'Amour, Nostradamus astrophile, Presses de l'Université d'Ottawa, 1993.