Para muitos leitores, Nicolau Flamel é o criador da pedra filosofal que aparece no primeiro livro de Harry Potter. Mas Flamel existiu mesmo: foi um escrivão e livreiro de Paris, que morreu em 1418.
O que não existiu foi o alquimista. A fama de ter feito ouro e de ter vencido a morte nasceu quase dois séculos depois, num livro publicado em 1612 com o seu nome.
É um dos melhores exemplos de como uma lenda do ocultismo se constrói em cima de uma pessoa real.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Nicolas Flamel (em português, Nicolau Flamel) |
| Nascimento | c. 1330–1340, talvez em Pontoise |
| Morte | 22 de março de 1418, Paris |
| Origem | França |
| Ocupação | Escrivão público, copista e livreiro jurado da Universidade de Paris |
| Obras principais | Nenhuma obra de alquimia autêntica conhecida |
| Conhecido por | A lenda da pedra filosofal e da imortalidade |
A vida (facto)
Flamel era escrivão público: redigia documentos para quem não sabia escrever, numa época em que poucos sabiam. Tinha também uma banca de cópia e venda de livros, perto do cemitério dos Inocentes, em Paris. Foi sepultado na igreja de Saint-Jacques-de-la-Boucherie, da qual hoje resta apenas a torre.
Casou, por volta de 1370, com Perenelle (ou Pernelle), viúva de dois maridos anteriores, que trouxe para o casamento uma fortuna considerável. Perenelle morreu em 1397.
O casal tinha várias casas e deu muito dinheiro a igrejas e hospícios, muitas vezes pagando esculturas e arcadas com a sua imagem. O testamento de Flamel, de 1416, mostra um homem abastado e generoso, mas sem as riquezas fabulosas que a lenda lhe atribui.
O que ainda se pode ver em Paris
- A casa do n.º 51 da rue de Montmorency, construída em 1407, uma das mais antigas casas de pedra da cidade. A inscrição da fachada pede a quem ali vivia que rezasse todos os dias um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
- A pedra tumular que o próprio Flamel desenhou em 1410. Esteve perdida e foi reencontrada a servir numa venda de legumes. Está hoje no Museu de Cluny.
- Duas ruas perto da Torre Saint-Jacques: a rue Nicolas-Flamel e a rue Pernelle.
A lenda (séc. XVII)
Em 1612 saiu em Paris o Livro das figuras hieroglíficas, apresentado como obra do próprio Flamel. Foi aí que nasceu o alquimista. A história, em resumo:
- em 1357, Flamel compra um livro antigo e misterioso, escrito por «Abraão, o Judeu»;
- não o consegue ler e, anos depois, faz uma peregrinação a Santiago de Compostela à procura de quem o ajude;
- no regresso, em Leão, encontra um sábio judeu convertido, o mestre Canches, que lhe explica o livro e morre pouco depois;
- em 1382, com a ajuda de Perenelle, Flamel transforma mercúrio em prata e depois em ouro;
- as figuras que mandou esculpir no cemitério dos Inocentes seriam, afinal, símbolos alquímicos escondidos.
Mais tarde juntou-se outra camada: Flamel e Perenelle não teriam morrido. Os túmulos estariam vazios, e viajantes diziam tê-los visto vivos, séculos depois.
Nada disto tem base documental. Nos documentos da época, Flamel não aparece ligado à alquimia.
➜ Alquimia
Quem escreveu o livro de 1612?
O livro foi publicado por P. Arnauld de la Chevalerie. Em 1761, o padre Étienne Villain foi o primeiro a pôr em causa a história e a apontar esse editor como verdadeiro autor.
Há quem suspeite que o nome seja pseudónimo do escritor Béroalde de Verville, mas isso não está provado. Certo é que a obra é do início do século XVII, não do século XIV.
Influência
A lenda teve uma vida longa:
- Isaac Newton, que estudou alquimia com seriedade, deixou notas sobre «os dragões de Flamel».
- Em Nossa Senhora de Paris (1831), Victor Hugo põe o arcediago Claude Frollo a estudar as esculturas dos Inocentes em busca do segredo de Flamel.
- Em Harry Potter e a Pedra Filosofal (1997), de J. K. Rowling, Flamel é o único criador conhecido da pedra e acaba de fazer 665 anos.
- Aparece ainda em romances e séries de fantasia, sempre como alquimista imortal.
Curiosidades
- O Flamel verdadeiro enriqueceu com o trabalho, os bens da mulher e a compra de casas — não há sinal de ouro alquímico.
- As doações a igrejas e a inscrição da casa mostram um burguês piedoso do seu tempo, não um mago.
- A mesma técnica — atribuir um livro a um nome antigo e respeitado — explica muitos grimórios, desde a Chave de Salomão ao Heptameron.
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Fontes
- «Nicolas Flamel», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Nicolas Flamel», Wikipédia — fr.wikipedia.org
- «Nicolau Flamel», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Flamel Nicolas», ORAEDES — oraedes.fr