Paracelso foi um médico suíço do Renascimento que desafiou a medicina do seu tempo. Queimou em público um livro de Avicena, ensinou em alemão em vez de latim e defendeu remédios preparados com minerais e metais.
É também uma figura central do ocultismo. Foi nos seus escritos que surgiram os nomes gnomo, ondina e sílfide, e os seguidores rosa-cruzes viam nele quase um profeta.
Nesta página separamos o que é facto documentado do que é lenda — e há muita lenda à volta dele.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Philippus Aureolus Theophrastus Bombast von Hohenheim |
| Nascimento | 10 de novembro de 1493, Einsiedeln (Suíça) |
| Morte | 24 de setembro de 1541, Salzburgo (Áustria) |
| Origem | Confederação Suíça (Einsiedeln, cantão de Schwyz) |
| Ocupação | Médico, cirurgião, alquimista, filósofo |
| Obras principais | Paragranum (1530), Opus Paramirum (c. 1531), Die große Wundarznei (1536) |
| Conhecido por | Iatroquímica, tria prima, elementais, «a dose faz o veneno» |
A vida (facto)
Estudou em Basileia, Viena e Ferrara, onde terá obtido o grau de médico por volta de 1515–1516. Depois viajou durante anos pela Europa.
Em 1527 foi nomeado médico municipal de Basileia e professor na universidade. Deu aulas em alemão, o que escandalizou os colegas.
A 23 de junho de 1527 queimou publicamente um exemplar do Cânone da Medicina de Avicena, o grande manual da época. Em janeiro de 1528, depois de muitos conflitos com médicos e autoridades, teve de deixar a cidade.
Voltou à vida errante. Morreu em Salzburgo em 1541, aos 47 anos, e foi sepultado na igreja de São Sebastião.
O nome «Paracelso»
O significado não é certo. Pode ser uma latinização de «Hohenheim» (celsus = alto) ou uma provocação: «para além de Celso», o médico romano. Em vida publicou como Theophrastus ab Hohenheim ou Theophrastus Paracelsus.
A obra e as ideias
Iatroquímica: a química ao serviço da medicina
Paracelso defendia que o médico devia preparar remédios em laboratório, com sais, minerais e metais. Esta «química médica» chama-se iatroquímica e é vista como antecessora da farmacologia.
É-lhe atribuída a primeira utilização do nome moderno do zinco (zincum), por volta de 1526. Promoveu também um preparado chamado laudanum, mas não deixou a receita completa.
Nota: os remédios de Paracelso incluíam substâncias tóxicas. São história da medicina, não conselhos. Para qualquer problema de saúde, consulte um médico.
«A dose faz o veneno»
Na sua Terceira Defesa escreveu, em substância, que só a dose determina que uma coisa não seja veneno. A frase ficou resumida no latim sola dosis facit venenum e ainda hoje é ensinada em toxicologia.
Os três princípios (tria prima)
À teoria antiga dos quatro elementos, Paracelso juntou três princípios: enxofre (o que arde), mercúrio (o que é volátil) e sal (o que é sólido e permanece). O modelo aparece no Opus Paramirum, de cerca de 1530.
Os elementais: gnomos, ondinas, sílfides e salamandras
O texto mais importante para o ocultismo é o Liber de nymphis, sylphis, pygmaeis et salamandris, publicado postumamente em 1566. Nele, Paracelso descreve seres que vivem em cada um dos quatro elementos:
| Elemento | Ser |
|---|---|
| Terra | Gnomos (ou pigmeus) |
| Água | Ondinas (ninfas) |
| Ar | Sílfides |
| Fogo | Salamandras |
Para ele, estes seres estavam entre as criaturas e os espíritos: tinham corpo, mas não tinham alma imortal. Segundo o livro, uma ondina que casasse com um humano podia ganhar alma.
As palavras gnomus, undina e sylph parecem aparecer pela primeira vez nos seus escritos.
A lenda
Depois da morte, Paracelso tornou-se personagem de lenda. Estas histórias não estão documentadas como factos:
- A espada com o «Azoth»: diz-se que guardava no punho da espada um remédio universal ou um espírito familiar. É tradição posterior, sem prova.
- O homúnculo: um texto atribuído a Paracelso, De natura rerum, descreve como criar um pequeno ser humano artificial. A autoria desse texto é discutida pelos historiadores.
- A pedra filosofal: alquimistas posteriores atribuíram-lhe a posse do segredo da transmutação, o que nenhum documento confirma.
Influência
- Paracelsismo: no século XVII formou-se um movimento com o seu nome, sobretudo na Alemanha.
- Rosa-Cruz: os rosa-cruzes alemães veneravam-no como profeta.
- Literatura: os elementais chegaram ao grande público com a sátira francesa Le Comte de Gabalis (1670), que inspirou The Rape of the Lock de Alexander Pope (1712) e a novela Undine de Fouqué (1811).
- Ocultismo moderno: a classificação dos quatro elementais continua a ser usada na magia cerimonial e em muitos livros esotéricos atuais.
Curiosidades
- Terá viajado por Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Suécia e Polónia; as histórias de viagens à Índia ou à China são consideradas muito improváveis.
- A Große Wundarznei (1536) é por vezes apontada como uma precursora da antissepsia.
Continue a ler
Fontes
- Paracelsus — Wikipedia (inglês)
- Paracelso — Wikipédia (português)
- Elemental — Wikipedia (inglês)
- Charles Webster, Paracelsus: Medicine, Magic and Mission at the End of Time, Yale University Press, 2008.