Cansaço, fraqueza, dor na «boca do estômago», falta de apetite. Durante séculos, em Portugal e depois no Brasil, estes sinais tinham um nome popular: espinhela caída. Nas crianças com cólicas, vómitos e sem vontade de comer, dizia-se que tinham o bucho virado.
Nenhum dos dois é um diagnóstico médico. São males populares: formas antigas de dar nome a um mal-estar e de lhe dar um remédio, quase sempre pelas mãos de uma benzedeira.
Esta página explica a crença e as benzeduras e diz, no fim, quando estes sintomas precisam de médico.
O que é a espinhela
A palavra existe e tem um sentido anatómico. Segundo o Dicionário Priberam, espinhela é o «apêndice cartilagíneo que termina a parte inferior do esterno»: o que os médicos chamam apêndice xifoide, a pontinha do osso do peito.
O mesmo dicionário regista duas expressões populares:
| Expressão | Sentido |
|---|---|
| Espinhela caída | Desconforto no peito por esforço ou fadiga; grande fraqueza ou prostração |
| Levantar a espinhela | Tratar o mal com práticas de curandeiro; em sentido figurado, dar ânimo |
A crença
Na crença popular, a espinhela é um ossinho que pode «cair» ou dobrar-se para dentro depois de um esforço: carregar pesos, trabalhar muito no campo, tossir com força. Caída, provocaria dor no peito e nas costas, fraqueza nos braços, enjoo e um cansaço que não passa.
A ideia não nasceu no povo. Médicos portugueses dos séculos XVII e XVIII, como João Curvo Semedo e o cirurgião Luís Gomes Ferreira, já escreviam sobre a espinhela caída e o seu tratamento. A noção viajou para o Brasil, onde ainda hoje é muito conhecida (também como «peito aberto» ou «arca caída»).
Como se «media»
Para confirmar o mal, a tradição usava medições com o corpo. Uma das mais citadas compara a distância do cotovelo à ponta dos dedos de um braço com a do outro, ou com a largura dos ombros. Se as medidas não batessem certo, dizia-se que a espinhela estava caída.
Como se «levantava»
Depois vinha a benzedura: uma reza em que se pede, em nome de Deus, que o mal da espinhela caída seja curado. Como noutras benzeduras, a tradição associa-lhe gestos e repetições que variam de terra para terra.
➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal
O bucho virado
Bucho é, na linguagem popular, a barriga ou o estômago. O bucho virado era um mal sobretudo das crianças: cólicas, vómitos, febre, falta de apetite e de energia.
O Museu Etnográfico da Madeira registou em 2016, no Campanário (Ribeira Brava), como uma senhora «curava» o bucho:
- a criança deitava-se e fazia-se uma massagem na barriga com as mãos untadas em azeite;
- colocavam-se folhas de couve aquecidas e untadas, uma no ventre e outra nas costas, presas com uma toalha de linho;
- durante a massagem rezava-se três vezes uma oração a Nossa Senhora e a Deus;
- as curas faziam-se sempre em número ímpar.
No dia seguinte olhava-se para as folhas: se estivessem secas, o bucho «estava encostado»; se estivessem verdes, não havia mal.
A leitura médica
O apêndice xifoide está preso ao esterno e não «cai». As medições com os braços e os ombros variam de pessoa para pessoa e não servem para diagnosticar nada.
Isto não quer dizer que as pessoas não estivessem doentes. Os sintomas atribuídos à espinhela caída e ao bucho virado são reais e podem ter muitas causas: cansaço extremo, anemia, problemas de estômago, infeções intestinais e, em alguns casos, problemas do coração.
Procure médico ou ligue para o SNS 24 (808 24 24 24) se:
- tiver dor no peito com o esforço, falta de ar ou dor que vai para o braço ou o maxilar (nesse caso, ligue 112);
- um bebé ou criança tiver vómitos repetidos, febre, estiver muito mole ou com sinais de desidratação (boca seca, poucas fraldas molhadas);
- a fraqueza e o cansaço durarem semanas.
A benzedura pode ser um gesto de conforto e de tradição. Nunca deve atrasar a consulta. E não se deve fazer massagens com força na barriga de uma criança doente.
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Fontes
- «Espinhela», Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — dicionario.priberam.org/espinhela
- Argus Vasconcelos de Almeida, Espinhela caída: referências históricas e práticas de cura populares, Recife, EDUFRPE, 2013 — repository.ufrpe.br
- «Medicina popular – Cura do bucho virado», Direção Regional da Cultura da Madeira — cultura.madeira.gov.pt
- «Espinhela», Wikipédia — pt.wikipedia.org