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🏺 Tradição Portuguesa

Espinhela caída e bucho virado

O que é a espinhela caída e o bucho virado na tradição portuguesa: a crença, como se «media» e «levantava» o mal, as rezas e o que a medicina vê nestes sintomas.

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Neste artigo
  1. O que é a espinhela
  2. A crença
  3. O bucho virado
  4. A leitura médica
  5. Continue a ler
  6. Fontes

Cansaço, fraqueza, dor na «boca do estômago», falta de apetite. Durante séculos, em Portugal e depois no Brasil, estes sinais tinham um nome popular: espinhela caída. Nas crianças com cólicas, vómitos e sem vontade de comer, dizia-se que tinham o bucho virado.

Nenhum dos dois é um diagnóstico médico. São males populares: formas antigas de dar nome a um mal-estar e de lhe dar um remédio, quase sempre pelas mãos de uma benzedeira.

Esta página explica a crença e as benzeduras e diz, no fim, quando estes sintomas precisam de médico.

O que é a espinhela

A palavra existe e tem um sentido anatómico. Segundo o Dicionário Priberam, espinhela é o «apêndice cartilagíneo que termina a parte inferior do esterno»: o que os médicos chamam apêndice xifoide, a pontinha do osso do peito.

O mesmo dicionário regista duas expressões populares:

Expressão Sentido
Espinhela caída Desconforto no peito por esforço ou fadiga; grande fraqueza ou prostração
Levantar a espinhela Tratar o mal com práticas de curandeiro; em sentido figurado, dar ânimo

A crença

Na crença popular, a espinhela é um ossinho que pode «cair» ou dobrar-se para dentro depois de um esforço: carregar pesos, trabalhar muito no campo, tossir com força. Caída, provocaria dor no peito e nas costas, fraqueza nos braços, enjoo e um cansaço que não passa.

A ideia não nasceu no povo. Médicos portugueses dos séculos XVII e XVIII, como João Curvo Semedo e o cirurgião Luís Gomes Ferreira, já escreviam sobre a espinhela caída e o seu tratamento. A noção viajou para o Brasil, onde ainda hoje é muito conhecida (também como «peito aberto» ou «arca caída»).

Como se «media»

Para confirmar o mal, a tradição usava medições com o corpo. Uma das mais citadas compara a distância do cotovelo à ponta dos dedos de um braço com a do outro, ou com a largura dos ombros. Se as medidas não batessem certo, dizia-se que a espinhela estava caída.

Como se «levantava»

Depois vinha a benzedura: uma reza em que se pede, em nome de Deus, que o mal da espinhela caída seja curado. Como noutras benzeduras, a tradição associa-lhe gestos e repetições que variam de terra para terra.

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ Ensalmos: as rezas de cura

O bucho virado

Bucho é, na linguagem popular, a barriga ou o estômago. O bucho virado era um mal sobretudo das crianças: cólicas, vómitos, febre, falta de apetite e de energia.

O Museu Etnográfico da Madeira registou em 2016, no Campanário (Ribeira Brava), como uma senhora «curava» o bucho:

  • a criança deitava-se e fazia-se uma massagem na barriga com as mãos untadas em azeite;
  • colocavam-se folhas de couve aquecidas e untadas, uma no ventre e outra nas costas, presas com uma toalha de linho;
  • durante a massagem rezava-se três vezes uma oração a Nossa Senhora e a Deus;
  • as curas faziam-se sempre em número ímpar.

No dia seguinte olhava-se para as folhas: se estivessem secas, o bucho «estava encostado»; se estivessem verdes, não havia mal.

➜ Oração a Nossa Senhora

A leitura médica

O apêndice xifoide está preso ao esterno e não «cai». As medições com os braços e os ombros variam de pessoa para pessoa e não servem para diagnosticar nada.

Isto não quer dizer que as pessoas não estivessem doentes. Os sintomas atribuídos à espinhela caída e ao bucho virado são reais e podem ter muitas causas: cansaço extremo, anemia, problemas de estômago, infeções intestinais e, em alguns casos, problemas do coração.

Procure médico ou ligue para o SNS 24 (808 24 24 24) se:

  • tiver dor no peito com o esforço, falta de ar ou dor que vai para o braço ou o maxilar (nesse caso, ligue 112);
  • um bebé ou criança tiver vómitos repetidos, febre, estiver muito mole ou com sinais de desidratação (boca seca, poucas fraldas molhadas);
  • a fraqueza e o cansaço durarem semanas.

A benzedura pode ser um gesto de conforto e de tradição. Nunca deve atrasar a consulta. E não se deve fazer massagens com força na barriga de uma criança doente.

Continue a ler

➜ Talhar o cobrão

➜ Tradição portuguesa: índice

➜ Oração para a saúde

Fontes

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