Em Portugal, as histórias de bruxas, mouras e diabos quase nunca acontecem «em qualquer sítio». Acontecem numa encruzilhada, numa ponte, junto a uma fonte ou debaixo de um penedo.
Esta página mostra alguns desses lugares, com localização e fonte, e separa o que é lenda, o que é tradição viva e o que é facto.
Não é um guia de «locais assombrados». Relatos de fantasmas e fenómenos paranormais têm o seu lugar no site irmão PortugalParanormal.pt.
Porque estes lugares?
A ligação entre magia e certos lugares é muito antiga e está documentada.
No século VI, São Martinho de Dume, bispo de Braga, censurava os camponeses da Galécia por acenderem velas «junto às pedras, às árvores, às fontes e nas encruzilhadas». No original latino: ad petras et ad arbores et ad fontes et per trivia (De correctione rusticorum, cap. 16).
Mil anos depois, as lendas portuguesas continuam a pôr bruxas, mouras e diabos exatamente nesses lugares. São sítios de passagem, entre a aldeia e o monte, entre este mundo e o outro.
➜ São Martinho de Dume e as superstições dos camponeses
Mapa rápido
| Lugar | O que se conta |
|---|---|
| Ponte da Misarela (Montalegre / Vieira do Minho) | Ponte do diabo; batismo de grávidas |
| Portela das Bruxas (Mação) | Reuniões de bruxas em noites de lua cheia |
| Moura (Alentejo) | Lenda da moura Salúquia, no brasão da cidade |
| Boca do Inferno (Cascais) | Nome dado pelo mar; encenação de Crowley em 1930 |
| São Bartolomeu do Mar (Esposende) | Banho santo das crianças a 24 de agosto |
| Montalegre (Barroso) | Noite das Bruxas nas sextas-feiras 13 (festa moderna) |
Pontes: a Ponte da Misarela
Facto: a ponte fica sobre o rio Rabagão, entre Ruivães e Campos (Vieira do Minho) e Ferral (Montalegre). É medieval, foi reconstruída no início do século XIX e está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1958. Em maio de 1809 foi palco de combates durante a retirada do exército francês do marechal Soult.
Lenda: um fugitivo prometeu a alma ao diabo em troca de uma ponte. Mais tarde, um padre repetiu o pedido e benzeu a ponte; o diabo desapareceu e a ponte ficou.
Tradição: a junta de freguesia regista, citando o padre José Carlos Alves Vieira, um costume de mulheres grávidas que tinham perdido filhos. Iam à ponte de madrugada e pediam ao primeiro desconhecido que passasse que lhes deitasse água do rio na barriga, em forma de cruz, num «batismo» do bebé ainda por nascer.
É uma prática popular de proteção, não um sacramento da Igreja. E não substitui o acompanhamento médico da gravidez.
➜ O diabo na tradição portuguesa
Encruzilhadas: a Portela das Bruxas
Em Mação (distrito de Santarém), as lendas locais recolhidas pelo município falam da Portela das Bruxas, perto da Aldeia de Santos. Seria o ponto de encontro das bruxas de várias aldeias vizinhas, em noites de lua cheia.
As mesmas lendas põem bruxas a dançar à meia-noite em encruzilhadas, junto à Ponte da Ladeira e em Envendos.
Lenda, não facto: não há qualquer documento sobre reuniões reais de bruxas. O padrão, porém, repete-se por todo o país: a encruzilhada como lugar de bruxas, almas e diabo.
Fontes e torres: as mouras
As mouras encantadas vivem em fontes, poços, castelos e penedos. A lenda mais «oficial» de todas é a da moura Salúquia, na cidade de Moura (Alentejo).
Conta a lenda que a princesa Salúquia esperava o noivo, o alcaide de Aroche, morto numa emboscada por cavaleiros cristãos. Ao perceber o engano, atirou-se da torre. A lenda explica assim o nome da cidade, e o brasão de Moura mostra uma moura morta junto a uma torre.
Lenda: não há documento que prove a existência de Salúquia. O que é facto é que a lenda passou para a heráldica da cidade.
➜ O Ciprianillo e a procura de tesouros
O mar: Boca do Inferno
A Boca do Inferno, a oeste de Cascais, é uma cavidade nas rochas calcárias, provavelmente uma antiga gruta cujo teto abateu. O nome vem do aspeto do lugar e da violência das ondas. Não há uma lenda antiga de bruxaria associada.
A fama oculta é moderna: em setembro de 1930, o mago inglês Aleister Crowley encenou ali o seu falso suicídio, com a ajuda de Fernando Pessoa.
Cuidado: as arribas não têm proteção. Não se aproxime da beira.
➜ Crowley em Lisboa e a Boca do Inferno
Romarias: São Bartolomeu do Mar
Em São Bartolomeu do Mar (Esposende), a 24 de agosto, realiza-se o «banho santo». Famílias levam crianças ao mar para pedir ao santo proteção contra o medo, a gaguez e outros males. Muitas crianças dão três voltas à capela com uma galinha preta, que depois fica para a festa.
É uma tradição religiosa popular viva, com séculos. Problemas de fala, convulsões ou medos persistentes numa criança devem ser vistos pelo médico de família ou pediatra.
Montalegre: uma tradição nova
Montalegre, no Barroso, tornou-se a «terra das bruxas» do turismo português. Desde 2002, cada sexta-feira 13 é celebrada com a Noite das Bruxas, um grande espetáculo de rua. O padre António Fontes prepara uma queimada.
Atenção: é uma festa moderna, inspirada no folclore, não um ritual antigo. A própria queimada com esconjuro é uma invenção galega do século XX.
➜ A queimada galega e o «conxuro»
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➜ Minho: bruxaria e superstições
➜ PortugalParanormal.pt, para relatos e locais «assombrados» — portugalparanormal.pt
Fontes
- Martinho de Braga, De correctione rusticorum, cap. 16 — thelatinlibrary.com
- União das Freguesias de Ruivães e Campos, «Ponte da Misarela» — uf-ruivaescampos.pt; e «Ponte da Misarela», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- Rotas de Mação, «Lendas de bruxas e lobisomens» — rotasdemacao.pt
- «Lenda da Moura Salúquia» e «Boca do Inferno (Cascais)», Wikipédia — pt.wikipedia.org · pt.wikipedia.org
- Correio do Minho, «Romaria de S. Bartolomeu do Mar…» — correiodominho.pt; NiT, sobre a Noite das Bruxas de Montalegre — nit.pt