O ankh ☥ é um dos símbolos mais conhecidos do antigo Egito. Tem a forma de uma cruz em T com uma argola em forma de gota no topo.
Não era, em primeiro lugar, um amuleto: era um sinal da escrita hieroglífica, usado para escrever a palavra egípcia ꜥnḫ, que significa «vida». Daí os nomes populares de «chave da vida» ou «cruz da vida».
Ficha
| Símbolo | Ankh ☥ |
|---|---|
| Significado da palavra | «Vida» (egípcio ꜥnḫ) |
| Exemplos mais antigos | I Dinastia (c. 3000–2900 a.C.) |
| Classificação de Gardiner | Sinal S34 (peças de vestuário) |
| Quem o segura na arte | Sobretudo os deuses |
| Forma cristã | Cruz ansata copta |
| Unicode | ☥ (símbolo) e 𓋹 (hieróglifo) |
A forma e a escrita
O ankh tem uma barra vertical, uma barra horizontal e uma argola ovalada no topo.
Na escrita egípcia, era um sinal trilítero: representava as três consoantes ꜥ-n-ḫ. Por isso servia para escrever outras palavras com os mesmos sons, como «espelho» e «ramo de flores», e não apenas «vida».
Aparecia em fórmulas de cortesia, como votos de saúde e vida. Depois do nome do faraó escrevia-se muitas vezes ꜥnḫ wḏꜣ snb, algo como «vivo, são e saudável».
Na fase final da língua egípcia, o copta, a palavra tornou-se onh.
Origem: o que representa?
Os egiptólogos não estão de acordo sobre o objeto que deu origem ao sinal.
- Alan Gardiner propôs que fosse a correia de uma sandália. Na sua lista de hieróglifos, o ankh (S34) está logo a seguir ao sinal da sandália.
- Heinrich Schäfer e Henry Fischer viram nele um nó usado como amuleto. Nos exemplos antigos, a barra de baixo parece formada pelas duas pontas de um nó.
- Andrew Gordon e Calvin Schwabe propuseram uma vértebra de touro. É uma teoria pouco seguida.
- No século XIX, Thomas Inman, um mitólogo amador, disse que unia os órgãos sexuais masculino e feminino. Esta ideia não tem apoio entre os especialistas, mas continua muito repetida.
O ankh no Egito antigo
Na arte egípcia, o ankh aparece sobretudo nas mãos dos deuses, como sinal do seu poder de dar vida.
As cenas mais típicas mostram:
- um deus a segurar o ankh junto ao nariz do faraó, oferecendo-lhe o «sopro de vida»;
- os raios do disco solar Aton, na época de Akhenaton, que terminam em mãos, algumas com ankh;
- cenas de purificação em que a água derramada sobre o rei é desenhada como uma cadeia de pequenos ankh.
Nos frisos dos templos, o ankh aparece muitas vezes com o cetro was (poder) e o pilar djed (estabilidade), sobre o sinal que significa «tudo»: «toda a vida, poder e estabilidade».
Amuletos e objetos
Os amuletos em forma de ankh surgem no fim do Império Antigo e usaram-se até ao I milénio a.C. Os primeiros eram de ouro ou electro; mais tarde, de faiança azul ou verde.
Curiosamente, eram raros, apesar da importância do símbolo. Mais comuns eram espelhos, estojos de espelho e ramos de flores feitos em forma de ankh — por causa do trocadilho das palavras.
No nome dos faraós
O ankh aparece em nomes reais. Tutankhaten significava «imagem viva de Aton»; o rei mudou depois o nome para Tutankhamon, «imagem viva de Amon».
Fora do Egito
- Na Síria e em Canaã, durante a Idade do Bronze Média (c. 1950–1500 a.C.), o ankh foi o hieróglifo egípcio mais copiado.
- No reino de Méroe, na Núbia, muito influenciado pela religião egípcia, aparece com destaque.
- Um selo de barro do rei Ezequias de Judá (c. 700 a.C.), encontrado em Jerusalém, mostra ankh dos dois lados de um sol alado.
Do Egito ao cristianismo
Os cristãos coptas do Egito adaptaram o ankh como uma forma da cruz: a cruz ansata (crux ansata, «cruz com asa»), com a argola redonda em vez de gota. Usaram-na sobretudo na decoração de tecidos.
O historiador Sócrates de Constantinopla conta que, quando o templo de Serápis em Alexandria foi destruído (391 d.C.), apareceram sinais em forma de cruz. Os pagãos disseram que significavam «vida futura»; os cristãos reclamaram-nos como seus.
No Ocidente romano, porém, há poucas provas do uso da cruz ansata.
➜ A cruz: significados e tipos
Onde ver antiguidades egípcias em Portugal
A maior coleção egípcia do país está no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa: 584 peças, das quais cerca de 300 em exposição, da pré-história ao período copta.
Parte veio de uma viagem da rainha D. Amélia ao Egito (1903) e parte foi trazida por José Leite de Vasconcelos (1909), fundador do museu.
Afirmação comum | O que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «O ankh era um amuleto mágico muito usado» | Era sobretudo um sinal de escrita; os amuletos em ankh eram raros. |
| «Representa a união sexual» | Ideia do séc. XIX, sem apoio entre egiptólogos. |
| «Era a chave para a vida eterna» | Significava «vida»; «chave» é um nome moderno. |
| «Só os faraós o podiam usar» | Na arte, quem o segura são sobretudo os deuses. |
| «Os cristãos roubaram o símbolo» | Os coptas adaptaram-no como forma da cruz. |
| «Dá saúde e longevidade a quem o usa» | Não há prova; é uma crença pessoal. |
Usos atuais
Hoje, o ankh é o símbolo de origem egípcia mais reconhecido no Ocidente:
- espalhou-se nos anos 1960, como símbolo de identidade cultural africana e em movimentos neopagãos;
- foi adotado pela cultura gótica, sobretudo depois do filme The Hunger (1983);
- é o símbolo central do kemetismo, conjunto de movimentos religiosos modernos inspirados na religião egípcia;
- é muito usado em joias e tatuagens.
Interpretações esotéricas modernas
No esoterismo contemporâneo, o ankh é lido como união do masculino (a cruz) e do feminino (a argola), ou como «chave» para os mistérios. Estas leituras são modernas. Os textos egípcios não o explicam assim.
Quem o usa como amuleto fá-lo por crença pessoal. O ankh não tem propriedades de cura nem garante longevidade.
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➜ Amuleto e talismã: a diferença
Fontes
- «Ankh», Wikipedia (com bibliografia egiptológica) — en.wikipedia.org
- «Tutankhamun», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Museu Nacional de Arqueologia, «Antiguidades Egípcias» — museunacionalarqueologia.gov.pt
- Alan H. Gardiner, Egyptian Grammar, 3.ª ed., Griffith Institute, 1957 (sinal S34)
- Richard H. Wilkinson, Reading Egyptian Art, Thames & Hudson, 1992