O chamado Selo de Lúcifer é hoje um dos símbolos «ocultos» mais vistos: em tatuagens, t-shirts, capas de discos e redes sociais. Muita gente usa-o sem saber de onde vem.
A resposta é concreta: o desenho vem de um grimório francês do século XVIII, o Grimorium Verum, onde surge entre os «caracteres» dos espíritos. Não é um símbolo antigo, nem bíblico.
Esta página trata do símbolo gráfico. Para a figura de Lúcifer em si — de Isaías à literatura — veja a página própria.
➜ Lúcifer: da estrela da manhã ao diabo cristão
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Selo de Lúcifer (em inglês, Sigil of Lucifer) |
| Outros nomes | Caracteres de Lúcifer; «selo de Satanás» (em meios satanistas) |
| Origem mais antiga conhecida | Grimorium Verum, grimório francês do séc. XVIII |
| Culturas | Magia dos grimórios; satanismo e luciferianismo modernos; cultura pop |
| Significados | No grimório: sinal do espírito. Hoje: emblema de rebeldia, «luz» ou identidade |
O desenho
A versão mais divulgada tem uma forma que lembra uma taça ou cálice estilizado:
- um triângulo grande com a ponta para baixo;
- linhas cruzadas em X na parte de cima, que formam um triângulo mais pequeno;
- uma letra V na base, sob o triângulo;
- pequenos traços e ganchos nas extremidades, típicos dos «caracteres» dos grimórios.
Não há nos textos antigos nenhuma explicação para cada traço. As leituras que atribuem sentidos a cada linha (o V como «Vénus», o cálice como «receptáculo da luz») são interpretações modernas.
De onde vem: o Grimorium Verum
O Grimorium Verum («Verdadeiro Grimório») diz ter sido publicado em «Memphis, 1517» por um tal Alibeck, o Egípcio. A data é falsa: os estudiosos situam a obra no século XVIII. Há manuscritos como o Wellcome MS 983, datado de cerca de 1709.
O livro apresenta três espíritos superiores — Lúcifer, Belzebu e Astaroth — e dá a cada um os seus «caracteres». Segundo o texto, estes sinais deviam ser levados consigo pelo operador. O grimório descreve isto; não é tradição antiga, é uma construção do próprio livro.
A edição italiana de 1880
O desenho que hoje circula está ligado sobretudo à tradução italiana La Clavicola del Re Salomone, publicada em Florença em 1880 (Amato Muzzi Editore). Ali aparece uma prancha com o título «Caratteri di Lucifero» (Caracteres de Lúcifer).
É frequente ler-se que a fonte é uma edição de 1868. Não conseguimos confirmar essa data: a edição documentada e transcrita pelo investigador Joseph H. Peterson é a de 1880.
As edições francesas impressas também variam. Peterson nota que numa delas (a de Blocquel) uma das figuras desta secção aparece confundida com a de outro espírito, Claunech. Ou seja: o próprio desenho mudou de edição para edição.
Como se tornou um símbolo moderno
Durante mais de um século, o selo ficou quase esquecido nas páginas de um grimório. A sua popularidade é recente:
- no satanismo teísta e em correntes luciferianas passou a ser usado como emblema, às vezes com o nome de «selo de Satanás»;
- a internet e a cultura da tatuagem espalharam-no a partir dos anos 2000;
- bandas de metal e outros músicos usam-no em capas e cenários (a banda suíça Zeal & Ardor, por exemplo).
Para quem o usa hoje, o sentido é quase sempre simbólico: rebeldia, procura de conhecimento, a ideia de Lúcifer como «portador da luz». É uma leitura do luciferianismo moderno, não do grimório original.
Mitos a desfazer
- «É um símbolo antiquíssimo.» Não. A fonte mais antiga conhecida é um grimório do século XVIII.
- «É o mesmo que o sigilo de Baphomet.» Não. O sigilo de Baphomet (pentagrama invertido com cabeça de bode) foi adotado pela Igreja de Satanás em 1966. São desenhos e histórias diferentes.
- «Usar o selo atrai Lúcifer.» Essa é uma crença, não um facto. Na maior parte dos casos, o selo é usado como emblema estético ou de identidade.
➜ Baphomet
➜ Pentagrama e pentagrama invertido
Selos e sigilos nos grimórios
O Selo de Lúcifer pertence a uma família maior: os sigilos ou «caracteres» dos espíritos. A Goetia, por exemplo, dá um selo a cada um dos seus 72 espíritos. Estes sinais funcionavam, dentro da lógica dos grimórios, como uma espécie de assinatura do espírito.
➜ Goetia
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➜ Lúcifer
Fontes
- Joseph H. Peterson (ed.), Grimorium Verum, edição digital do texto francês, com notas sobre manuscritos e edições — esotericarchives.com
- Joseph H. Peterson (ed.), La Clavicola del Re Salomone, Florença, Amato Muzzi, 1880 («Caratteri di Lucifero», Tavola 1) — esotericarchives.com
- Joseph H. Peterson, Grimorium Verum: A Handbook of Black Magic, CreateSpace, 2007
- «Grimorium Verum» e «List of occult symbols», Wikipedia — en.wikipedia.org