Um sigilo é um sinal gráfico que representa um nome ou uma intenção. A palavra vem do latim sigillum, «selo».
Hoje, quando se fala em «desenhar sigilos», pensa-se quase sempre no método criado pelo artista inglês Austin Osman Spare, no início do século XX. Mas a história é mais longa: começa nos grimórios medievais e renascentistas.
Os sigilos nos grimórios
Na magia medieval e moderna, cada anjo, planeta ou espírito tinha o seu selo, um desenho próprio que funcionava como uma espécie de assinatura ou «nome verdadeiro».
- A Goécia, primeira parte da Lemegeton ou Chave Menor de Salomão (séc. XVII), apresenta os selos de 72 espíritos.
- Em De occulta philosophia (1533), Heinrich Cornelius Agrippa publica os quadrados mágicos (kameas) dos sete planetas. Transformando as letras de um nome em números e unindo esses números no quadrado com uma linha, obtém-se um sigilo.
Nestes textos, o sigilo serve para chamar ou identificar entidades. Não publicamos instruções de invocação.
Austin Osman Spare (1886–1956)
Spare era desenhador e ilustrador londrino. No livro The Book of Pleasure (Self-Love): The Psychology of Ecstasy (1913), propôs uma ideia nova:
- o sigilo não serve para chamar espíritos;
- serve para condensar um desejo num desenho;
- depois de feito, o desenho deve ser esquecido pela mente consciente, para atuar, segundo Spare, no inconsciente.
Spare interpretava a magia em termos psicológicos. As suas ideias foram retomadas nos anos 1970 pela magia do caos (Peter Carroll, Liber Null, 1978).
O método básico de Spare
Descrevemos o método como curiosidade histórica e como exercício criativo.
- Escreva a intenção numa frase curta e positiva, sobre si próprio. Por exemplo: «Eu durmo tranquilo».
- Risque as letras repetidas. De «EU DURMO TRANQUILO» ficam: E, U, D, R, M, O, T, A, N, Q, I, L.
- Combine as letras num só desenho: sobreponha-as, rode-as, simplifique até já não se reconhecerem.
- Simplifique até obter um sinal simples e equilibrado.
- Na tradição de Spare, segue-se a «carga», um momento de concentração intensa, e depois o esquecimento: guarda-se ou destrói-se o desenho.
O que se pode esperar
Os sigilos não têm efeitos demonstrados. Quem os usa costuma descrevê-los como uma forma de clarificar objetivos e de os lembrar sem pensar muito neles, próxima de um exercício de escrita ou de arte.
Algumas regras de bom senso:
- faça sigilos só sobre si e as suas ações, nunca para influenciar ou controlar outra pessoa;
- se queimar o papel, faça-o num recipiente à prova de fogo, longe de tecidos, nunca sem vigilância e com a janela aberta;
- para ansiedade, insónia ou problemas de saúde, o sigilo não substitui um médico ou psicólogo.
➜ Como usar velas com segurança
Sigilos e Portugal
Os grimórios populares que circularam em Portugal, como o Livro de São Cipriano, pertencem à tradição dos grimórios europeus. O método de Spare é muito posterior e parte de uma ideia diferente: o sigilo como ferramenta psicológica, não como selo de um espírito.
➜ História do Livro de São Cipriano
Continue a ler
➜ Sigilos mágicos: o que são e a sua história
➜ Como fazer o seu grimório pessoal
Fontes
- «Sigil (magic)», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Austin Osman Spare», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Austin Osman Spare, The Book of Pleasure (Self-Love): The Psychology of Ecstasy, Londres, 1913
- Heinrich Cornelius Agrippa, De occulta philosophia libri tres, 1533, livro II