O hermetismo é a tradição filosófica e espiritual dos textos atribuídos a Hermes Trismegisto — o «três vezes grande». É uma das raízes mais importantes da magia, da alquimia e do ocultismo ocidentais.
Durante séculos, acreditou-se que estes livros eram da época de Moisés, ou mesmo anteriores. A investigação mostrou que são muito mais recentes: foram escritos no Egito romano, nos primeiros séculos da nossa era.
Quem foi Hermes Trismegisto
Não foi uma pessoa histórica. É uma figura que junta o deus grego Hermes e o deus egípcio Thot, ambos ligados à escrita, à sabedoria e à magia.
Os textos herméticos apresentam-no como um sábio antigo que ensina os discípulos — Tat, Asclépio, Ámon — sobre Deus, o cosmos e a alma.
Os livros herméticos: ficha rápida
| Texto | Data e língua |
|---|---|
| Corpus Hermeticum | Séc. II–III d.C. (datação provável); grego |
| Asclépio | Mesma época; conservado em latim |
| Textos de Nag Hammadi | Cópias coptas do séc. IV, encontradas no Egito em 1945 |
| Tábua de Esmeralda | Primeiras versões conhecidas em árabe, fim do séc. VIII – início do séc. IX |
| Caibalion (The Kybalion) | 1908, Estados Unidos; obra moderna |
O Corpus Hermeticum
É um conjunto de 17 tratados em grego. O primeiro, o Poimandres, conta uma visão sobre a criação do mundo e a origem do ser humano.
Os temas principais são filosóficos e religiosos: Deus como o Todo, a mente divina, a queda da alma na matéria e o seu regresso pelo conhecimento (a gnose).
Os historiadores distinguem estes textos «filosóficos» dos herméticos técnicos: tratados de astrologia, alquimia e magia também atribuídos a Hermes.
«O que está em cima é como o que está em baixo»
A frase mais citada do hermetismo não vem do Corpus Hermeticum. Vem da Tábua de Esmeralda, um texto curto conhecido primeiro em árabe e depois traduzido para latim na Idade Média.
A Tábua tornou-se o texto de referência dos alquimistas. A ideia de correspondência entre o céu e a terra, o grande e o pequeno, está na base da astrologia e da magia natural.
➜ Alquimia
O regresso no Renascimento
Por volta de 1460, um manuscrito do Corpus Hermeticum chegou a Florença, a Cosme de Médici. Cosme pediu a Marsílio Ficino que o traduzisse para latim antes de terminar Platão.
A tradução de Ficino, impressa em 1471, teve enorme sucesso. Hermes passou a ser visto como um sábio antiquíssimo que teria anunciado verdades cristãs. Isto deu prestígio à magia natural e à astrologia dos pensadores do Renascimento.
A datação de Casaubon (1614)
Em 1614, o erudito Isaac Casaubon analisou a língua dos textos e mostrou que não podiam ser anteriores à era cristã. A maioria dos investigadores aceita hoje uma data entre os séculos II e III.
Isto não lhes tira interesse. Mostra apenas que o «Egito antiquíssimo» de Hermes é, em grande parte, uma construção lendária.
O Caibalion: moderno, não antigo
Muita gente conhece o hermetismo através dos «sete princípios herméticos» do Caibalion. Este livro foi publicado em 1908 por «Três Iniciados», nos Estados Unidos.
Não é um texto antigo. Pertence ao movimento do «Novo Pensamento» norte-americano e tem pouco a ver com o Corpus Hermeticum.
Influência no ocultismo
O hermetismo influenciou a alquimia, os Rosa-Cruzes, a Franco-Maçonaria esotérica e, no século XIX, a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), de onde vem boa parte da magia cerimonial moderna.
Onde ler
- A tradução inglesa de G. R. S. Mead, Thrice-Greatest Hermes (1906), está em domínio público no Sacred Texts Archive.
- A tradução académica de referência é a de Brian P. Copenhaver, Hermetica (Cambridge University Press, 1992).
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➜ Ler a Tábua de Esmeralda em português
➜ Cabala
Fontes
- «Hermeticism», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Brian P. Copenhaver, Hermetica, Cambridge University Press, 1992.
- G. R. S. Mead, Thrice-Greatest Hermes, 1906, Sacred Texts Archive — sacred-texts.com
- Frances A. Yates, Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, University of Chicago Press, 1964.