O Alentejo tem uma relação especial com a história da feitiçaria em Portugal. Foi em Évora que funcionou um dos tribunais da Inquisição, e é de Évora a «bruxa» mais famosa da literatura popular portuguesa.
Mas a região tem também um tesouro menos conhecido: as lendas da tradição oral das aldeias, com mouras que são cobras, tesouros enterrados e lobisomens.
Nesta página separamos o que é história documentada, o que é lenda e o que é crença popular.
O tribunal da Inquisição de Évora (facto histórico)
A Inquisição portuguesa foi autorizada por D. João III em 1536, e Évora foi uma das suas primeiras sedes. O tribunal ganhou funcionamento autónomo em 1541 e só foi extinto em 1821, por decreto das Cortes Constituintes.
| Campo | Informação |
|---|---|
| Funcionamento | 1541–1821 (autorizado em 1536) |
| Território | Sul do país, abaixo do Tejo (Alentejo e Algarve) |
| Cidades mais atingidas | Évora, Beja, Elvas, Faro |
| Principais acusados | Cristãos-novos (acusados de judaísmo) |
| Arquivo | Arquivo Nacional Torre do Tombo, Lisboa |
A grande maioria dos processos dizia respeito a cristãos-novos, não a feiticeiras. Ainda assim, houve processos por magia, adivinhação e curas proibidas.
O caso mais conhecido é o de Luís de la Penha, curandeiro e adivinho de Évora, executado em 1626 depois de ser preso duas vezes. Contamos a sua história noutra página.
➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa
O que ainda se pode ver em Évora
- O antigo Palácio da Inquisição, junto à Sé, sede do tribunal. Foi remodelado em 1636 pelo arquiteto Mateus do Couto.
- Na Praça do Giraldo, um memorial às vítimas da Inquisição, do escultor João Sotero, inaugurado a 22 de outubro de 2016.
A Lagarrona, a «Feiticeira de Évora» (lenda)
A personagem mais famosa ligada a Évora é lendária. A Lagarrona aparece num livro de 1739, a História das Antiguidades de Évora, como uma moura com poderes mágicos que protege o filho, apaixonado por uma cristã.
No fim do século XIX, os editores do Livro de São Cipriano incluíram a história com o título «A Feiticeira de Évora». Foi assim que a personagem chegou ao Brasil. Não há nenhum documento que prove que existiu.
➜ As bruxas de Évora: a lenda da Lagarrona e a história real
Reguengos de Monsaraz: seres encantados em noites de luar
Em 2019, a investigadora Lina Santos Mendonça publicou uma recolha de lendas da tradição oral do concelho de Reguengos de Monsaraz. São histórias contadas por pessoas da terra, em aldeias como Campinho, São Marcos do Campo, Monsaraz e Perolivas.
Três temas dominam a recolha.
A moura que é cobra
Na tradição alentejana, a moura encantada aparece muitas vezes em forma de cobra. Nas histórias recolhidas:
- uma mulher-cobra penteia os cabelos pretos sentada no gargalo de um poço, «em certos dias do ano»;
- uma cobra senta-se numa cadeirinha de pedra para se pentear;
- uma cobra é uma princesa encantada, que só voltaria a ser mulher com um beijo;
- uma cobra guarda uma mina de ouro, e quem a tentasse abrir não saía de lá.
São motivos clássicos das lendas portuguesas de mouras encantadas: o pentear dos cabelos, a guarda de tesouros e o encanto que espera ser quebrado.
As «minas» de ouro
Várias histórias falam de tesouros enterrados em panelas, procurados à noite. Num caso, alguém sonha repetidamente com uma mina de ouro, conta o segredo a um amigo, e o amigo chega primeiro. Noutro, dois cunhados cavam durante muito tempo e não encontram nada.
A busca de tesouros escondidos é um tema que liga estas lendas ao Livro de São Cipriano, famoso pelas listas de tesouros encantados.
➜ São Cipriano e a magia portuguesa
O lobisomem e o «fadário»
Na versão recolhida em Reguengos, o lobisomem é o sétimo filho, condenado a «correr o fadário». À meia-noite, numa encruzilhada, transforma-se em burro ou cão, corre sem controlo e depois volta à forma humana. Segundo a crença, queimar-lhe a roupa quebrava o encanto.
A ideia de que o sétimo filho nasce marcado aparece também noutras crenças portuguesas, como a dos saludadores.
Benzedeiras e mezinhas
Como no resto do país, o Alentejo rural tinha as suas benzedeiras: mulheres (e alguns homens) que rezavam sobre o mau-olhado, o quebranto ou o cobrão, e conheciam mezinhas feitas com plantas da região.
Estas práticas são tradição e crença. São património cultural, mas não substituem o médico.
➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal
E o cante alentejano?
O cante alentejano foi inscrito pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade a 27 de novembro de 2014. É canto coral, de trabalho, de convívio e também religioso.
Não é, porém, uma prática mágica. Ligá-lo à feitiçaria seria inventar uma tradição que não existe.
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➜ Lugares de bruxaria e lendas em Portugal
Fontes
- Lina Santos Mendonça, «Reguengos de Monsaraz, terra de seres encantados que se revelam em noites de luar», Estudis de Literatura Oral Popular, 8, 2019, pp. 77–97 — revistes.urv.cat
- «A Inquisição de Évora», resistir.info, 2006 — resistir.info
- «Évora inaugura memorial aos milhares de vítimas da Inquisição», Diário de Notícias, 2016 — dn.pt
- «UNESCO elege cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade», Observador, 27/11/2014 — observador.pt