O martinismo é uma corrente do esoterismo cristão nascida em França no século XVIII. O nome vem de dois homens diferentes com nomes parecidos, o que causa muitas confusões: Martinès de Pasqually e Louis-Claude de Saint-Martin.
A ideia central é a reintegração: o ser humano teria caído de um estado espiritual original e pode, por um caminho interior, regressar à união com Deus.
No século XIX, o ocultista Papus transformou esta herança numa ordem iniciática que ainda hoje existe, em vários ramos.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Origem | França, século XVIII |
| Figuras fundadoras | Martinès de Pasqually; Louis-Claude de Saint-Martin |
| Primeira ordem | Élus Coëns (fundada c. 1761) |
| Texto de base | Tratado da Reintegração dos Seres (c. 1770–1772) |
| Ordem moderna | Ordem Martinista (Papus e Chaboseau, 1884–1891) |
| Tipo | Esoterismo cristão, iniciático |
Martinès de Pasqually e os Élus Coëns
De Martinès de Pasqually (c. 1727–1774) sabe-se pouco. A data, o lugar de nascimento e a nacionalidade são desconhecidos. Já se propôs Grenoble, Espanha, Portugal e uma origem judaica; nenhuma hipótese está provada.
O que é documentado é a sua atividade maçónica no sul de França. Por volta de 1761, em Bordéus, criou a Ordem dos Cavaleiros Maçons Élus Coëns do Universo (Élus Coëns quer dizer «sacerdotes eleitos»). Algumas fontes indicam 1765 para a organização formal.
Em 1772 partiu para São Domingos, nas Antilhas, para receber uma herança. Morreu lá em 1774.
A teurgia dos Élus Coëns
Os Élus Coëns praticavam operações teúrgicas: rituais para entrar em relação com entidades angélicas. Os sinais que surgiam durante as operações eram entendidos como provas de que o operador seguia o caminho da reintegração.
É uma herança distante da teurgia dos neoplatónicos da Antiguidade.
O Tratado da Reintegração
O Tratado sobre a Reintegração dos Seres foi redigido por volta de 1770–1772. Conta, numa leitura esotérica da Bíblia, a queda dos espíritos e do homem, e o caminho do regresso.
Louis-Claude de Saint-Martin, o «Filósofo Desconhecido»
Louis-Claude de Saint-Martin (Amboise, 1743 – Aulnay, 1803) foi oficial do exército em Bordéus. Aí conheceu Martinès, foi iniciado nos Élus Coëns em 1768 e tornou-se seu secretário.
Com o tempo, afastou-se dos rituais. Preferiu uma via interior de oração e contemplação, a que os martinistas chamam «a via do coração».
Publicou sob o pseudónimo «O Filósofo Desconhecido». O seu primeiro livro, Dos Erros e da Verdade (1775), foi posto no Índex pela Igreja Católica. Nos últimos anos foi o primeiro tradutor para francês do místico alemão Jakob Böhme.
Saint-Martin não fundou nenhuma ordem. Os seus admiradores formaram grupos de «amigos de Saint-Martin», mais tarde chamados martinistas.
Willermoz e o Regime Escocês Retificado
Outro discípulo de Martinès, Jean-Baptiste Willermoz, de Lyon (1730–1824), levou as ideias dos Élus Coëns para a maçonaria.
No Convento de Lyon (1778) e no de Wilhelmsbad (1782), deu forma ao Regime Escocês Retificado, que conserva a doutrina da reintegração sem as operações teúrgicas. Este rito maçónico continua a ser praticado.
Papus e a Ordem Martinista
No fim do século XIX, o médico e ocultista Gérard Encausse, conhecido como Papus, afirmou ter recebido uma transmissão iniciática através de Henri de Laage, cujo avô teria sido iniciado pelo próprio Saint-Martin. Esta cadeia não está documentada de forma independente.
Com Augustin Chaboseau, fundou a Ordem Martinista entre 1884 e 1887, com um Conselho Supremo criado em 1891. A nova ordem espalhou-se por França, Rússia, Itália, entre outros países.
Papus era também bispo da Igreja Gnóstica de Jules Doinel, o que liga o martinismo moderno ao renascimento gnóstico francês.
➜ Papus
Depois da morte de Papus (1916), a ordem dividiu-se em vários ramos. Hoje existem várias ordens martinistas independentes, sem uma autoridade central.
Martinismo e Portugal
A ligação documentada é modesta. O filósofo portuense Sampaio Bruno (1857–1915), no livro O Encoberto (1904), defendeu que Martinès seria provavelmente de origem portuguesa, pelas semelhanças com o pensamento hermético português. É uma hipótese, não um facto provado.
Não encontrámos fontes fiáveis sobre a história de ordens martinistas em Portugal, por isso não a contamos aqui.
Como distinguir as três correntes
| Corrente | Característica |
|---|---|
| Élus Coëns (Martinès) | Maçonaria com rituais teúrgicos |
| Via interior (Saint-Martin) | Oração e contemplação, sem ritual |
| Ordem Martinista (Papus) | Ordem iniciática moderna, com ligação ao ocultismo |