O funcho cresce por todo o lado em Portugal: em bermas, muros, terrenos abandonados e encostas. Reconhece-se pelas folhas finas como cabelos, pelas umbelas amarelas e pelo cheiro doce a anis.
É uma planta de cozinha e de chá, mas tem também uma história antiga e cheia de mitos. O seu nome grego deu origem a um dos lugares mais famosos da história, e o seu nome português batizou a capital da Madeira.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome comum | Funcho |
| Nome científico | Foeniculum vulgare |
| Família | Apiáceas (a da cenoura, da salsa e do aipo) |
| Outros nomes em Portugal | Erva-doce, funcho-doce, fiolho |
| Origem | Bacia do Mediterrâneo |
| Partes usadas na tradição | Sementes (frutos), folhas, bolbo, caules |
| Toxicidade | Seguro como alimento; preparações concentradas com limites para crianças e grávidas |
A planta e os nomes
O nome latino faeniculum é um diminutivo de faenum, «feno». Daí vêm o português «funcho» e o inglês fennel.
Os Gregos chamavam-lhe márathon. A planície onde, em 490 a.C., os Atenienses venceram os Persas chamava-se Maratona, que quer dizer literalmente «lugar do funcho». A corrida moderna da maratona recebeu o nome dessa batalha.
Em Portugal, o funcho também deu nome a um lugar: o Funchal, capital da Madeira, chama-se assim por causa da abundância de funcho que havia no local.
Mitos e fontes antigas
Prometeu e o fogo
Segundo a Teogonia de Hesíodo, o titã Prometeu roubou o fogo aos deuses e levou-o aos homens escondido num caule oco de nártex. Muitas vezes traduz-se por «funcho». Os botânicos, porém, identificam geralmente o nártex com a férula (Ferula communis), uma planta aparentada, muito maior, de caule grosso e oco.
É um mito, não um facto histórico. Mas mostra que as plantas desta família faziam parte do imaginário grego. Com caules de férula faziam-se também os tirsos, os bastões dos seguidores de Dioniso.
Plínio e as serpentes
No século I, Plínio, o Velho, conta na História Natural que as serpentes, ao sair do inverno, mudam de pele com a ajuda do sumo do funcho e esfregam os olhos na planta para recuperar a vista. Daí nasceu uma longa fama do funcho como planta «boa para os olhos».
É uma crença antiga, não uma observação confirmada pela zoologia moderna.
O funcho no São João
Em Portugal, o funcho é uma das plantas das festas de São João. Há descrições de fogueiras acesas com rosmaninho, funcho, sabugueiro e alecrim, que os jovens saltam na noite de 23 para 24 de junho.
Noutros pontos da Europa acontece o mesmo. Na Galiza, o funcho está entre as ervas colhidas na véspera de São João e deixadas em água ao relento; de manhã, lava-se a cara com essa água. Na Toscana, as flores de funcho-bravo entram na «água de São João».
Estas práticas são tradição popular, ligada às antigas festas do solstício de verão.
➜ As ervas de São João em Portugal
Na cozinha e na tradição
As sementes perfumam pão, bolos, enchidos e licores. O bolbo do funcho cultivado come-se cru em saladas ou assado. Nos Açores, as folhas tenras entram numa sopa tradicional com feijão e inhame.
Na medicina popular, o chá de sementes de funcho usa-se para gases e má digestão.
Na tradição esotérica moderna, o funcho aparece sobretudo ligado à proteção e à purificação. É crença e simbolismo, sem efeito espiritual demonstrado.
Precauções
- Bebés e crianças: o funcho contém estragol, uma substância que, em doses elevadas, levanta preocupações de segurança. A Agência Europeia do Medicamento (EMA) não recomenda preparações medicinais com estragol em crianças até aos 11 anos quando ultrapassam um limite diário muito baixo. Não dê chá de funcho a bebés sem conselho do pediatra.
- Gravidez e amamentação: a EMA também não recomenda estas preparações acima do limite de segurança. Fale com o médico antes de tomar chá de funcho com regularidade.
- Óleo essencial: nunca o ingira, e não o use em crianças.
- Confusões perigosas: o funcho pertence à mesma família da cicuta, que é mortalmente venenosa e pode parecer-se com ele à primeira vista. Não colha funcho-bravo se não tiver a certeza absoluta da identificação. O cheiro a anis ajuda, mas não basta.
- Alergias: quem é alérgico ao aipo, à cenoura ou a outras Apiáceas pode reagir também ao funcho.
- Fogueiras: só em local autorizado, longe de mato seco, com água por perto e sempre com vigilância. Respeite os períodos de proibição de queimadas.
➜ Como usar velas com segurança
O uso tradicional do funcho não substitui tratamento médico. Se os problemas digestivos persistem, consulte um médico.
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➜ Tomilho
Fontes
- «Funcho», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Fennel» e «Ferula communis», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Plínio, o Velho, Naturalis Historia, livro 8, §99, texto latino — LacusCurtius, Univ. de Chicago
- «Public statement on the use of herbal medicinal products containing estragole», EMA (HMPC) — ema.europa.eu
- «Midsummer» (Galiza e Toscana), Wikipedia — en.wikipedia.org