Belzebu é um dos nomes mais conhecidos da demonologia cristã. Nos Evangelhos é chamado «príncipe dos demónios» e, séculos depois, os grimórios puseram-no logo abaixo de Lúcifer.
Mas o nome começou por designar um deus filisteu, venerado na cidade de Ecrom. A sua tradução mais famosa — «senhor das moscas» — é provavelmente uma troça dos escritores hebreus.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome e variantes | Belzebu; hebraico Baʿal Zəvûv; grego Beelzeboul; francês Belzébuth |
| Tipo | Divindade filisteia; depois demónio da tradição cristã |
| Primeira fonte | 2 Reis 1 (Bíblia hebraica) |
| Tradições | Bíblia, Novo Testamento, Testamento de Salomão, demonologia, grimórios |
| Atributos | A mosca; o título de «príncipe» |
O deus de Ecrom (2 Reis 1)
O primeiro registo está no Segundo Livro dos Reis. O rei Acazias de Israel cai de uma janela, fica ferido e manda mensageiros consultar Baal-Zebub, deus de Ecrom (uma cidade filisteia), para saber se vai sarar.
O profeta Elias interceta os mensageiros e condena a consulta: por ter procurado um deus estrangeiro em vez do Deus de Israel, o rei não se levantará da cama. E assim acontece, segundo o relato.
É um dado importante: na origem, Belzebu não é um demónio, mas um deus consultado como oráculo, possivelmente ligado à cura.
«Senhor das moscas» ou «senhor da morada elevada»?
Baʿal significa «senhor»; zevuv significa «mosca». Daí a tradução «senhor das moscas».
Muitos estudiosos pensam, porém, que o nome verdadeiro seria Baal-Zebul, «senhor da morada elevada» ou «príncipe», um título digno atestado em textos de Ugarit. Os autores bíblicos tê-lo-iam deformado de propósito para ridicularizar o deus. A questão continua em debate.
Curiosamente, o Novo Testamento grego usa precisamente a forma Beelzeboul.
Nos Evangelhos
Nos Evangelhos, Belzebu já é o chefe dos demónios. Os adversários de Jesus acusam-no de expulsar demónios «pelo poder de Belzebu» (Mateus 12:24; Marcos 3:22; Lucas 11:15).
Jesus responde com a imagem do reino dividido: se Satanás expulsa Satanás, o seu reino não pode subsistir. Nesta passagem, Belzebu e Satanás parecem ser a mesma figura ou figuras muito próximas.
No Testamento de Salomão
O Testamento de Salomão — texto grego atribuído ao rei, de datação muito discutida (entre o séc. I e a Idade Média) — dá a Belzebu um papel central. Nele, o demónio diz ser «o príncipe dos demónios» e ter sido o primeiro anjo do primeiro céu.
Conta que destrói reis, se alia a tiranos e espalha discórdias. Como todos os demónios do livro, acaba submetido por Salomão através do anel.
➜ O rei Salomão na tradição mágica
Na demonologia e nos grimórios
Nos séculos XVI e XVII, os demonólogos arrumaram os demónios por pecados e hierarquias:
- Peter Binsfeld (1589) associou Belzebu à gula;
- Sébastien Michaëlis (1612) pô-lo entre os três principais anjos caídos e associou-o ao orgulho.
Nos grimórios franceses do séc. XVIII, Belzebu é o segundo grande poder:
- No Grimorium Verum, governa a África. O texto diz que costuma aparecer como uma mosca enorme — daí a imagem popular;
- No Grande Grimório, tem o título de «príncipe», entre Lúcifer (imperador) e Astaroth (grão-duque).
O Dicionário Infernal de Collin de Plancy (1818; edição ilustrada de 1863) fixou a imagem de Belzebu como mosca gigante.
Estas descrições pertencem à literatura dos grimórios. Descrevemos, não ensinamos a invocar.
Na cultura
- No Paraíso Perdido (1667), de Milton, Belzebu é o braço-direito de Satanás;
- No processo das bruxas de Salem, o pastor Cotton Mather escreveu sobre um suposto «plano de Belzebu» (1693);
- O romance O Senhor das Moscas (1954), de William Golding, tira o título da tradução do nome.
Em Portugal, «Belzebu» entrou na língua como um dos muitos nomes do diabo, ao lado de o Mafarrico, o Tinhoso ou o Porco.
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