A Bíblia hebraica condena a feitiçaria e a adivinhação. Mesmo assim, ao longo de mais de dois mil anos, muitos judeus comuns usaram amuletos, fórmulas protetoras e nomes divinos para se defenderem de doenças, demónios e do mau-olhado.
Os historiadores chamam a isto magia judaica popular. Não é o mesmo que a Cabala mística, embora as duas se toquem.
Nesta página percorremos os seus testemunhos mais conhecidos: as taças de encantamento, os amuletos (kamea), a chamada Cabala prática e a lenda do golem.
Ficha
| Tema | Resumo |
|---|---|
| Período | Da Antiguidade tardia até ao séc. XX |
| Línguas | Hebraico e aramaico |
| Objetos | Taças de encantamento, amuletos escritos (kamea), textos de nomes divinos |
| Textos | Sefer ha-Razim, Sefer Raziel, manuais de nomes e amuletos |
| Figura lendária | O golem |
| Atitude rabínica | Desconfiança; muitos cabalistas proibiram o uso prático |
As taças de encantamento
Entre os séculos V e VIII d.C., na Mesopotâmia (atual Iraque, sob o Império Sassânida), muitas famílias encomendavam taças de barro com inscrições a tinta.
- O texto era escrito em espiral, do bordo para o centro.
- A maioria está em aramaico judaico babilónico; outras em mandeu ou siríaco.
- As taças eram enterradas de boca para baixo, debaixo do chão, à soleira da porta ou nos cantos da casa.
A ideia, segundo os estudiosos, era aprisionar os demónios: estes seguiriam as palavras em espiral até ficarem presos no centro. As taças protegiam contra o mau-olhado, doenças e demónios como Lilith.
Estão registadas cerca de 2000 taças, muitas encontradas em escavações em Nippur. Não eram só judaicas: cristãos, mandeus e outros também as usavam. São hoje uma fonte preciosa para conhecer a religião do dia a dia na época em que se escreveu o Talmude da Babilónia.
➜ Lilith
Os amuletos: a kamea
Em hebraico, kamea significa amuleto. Normalmente era um papel, pergaminho ou placa de metal com:
- nomes de Deus e combinações das suas letras;
- nomes de anjos;
- versículos bíblicos;
- por vezes, quadrados de letras ou desenhos.
Um tipo muito comum protegia mulheres grávidas, parturientes e recém-nascidos, que a crença considerava vulneráveis a Lilith. Outros protegiam contra doenças, mau-olhado ou perigos de viagem.
No ocultismo europeu moderno, a palavra kamea passou também a designar os quadrados mágicos planetários — um uso diferente do original hebraico.
A Cabala prática
A tradição judaica distingue:
| Ramo | O que é |
|---|---|
| Cabala teórica (iyunit) | Estudo místico de Deus, da criação e da Torá |
| Cabala prática (ma'asit) | Uso de nomes divinos e angélicos para agir no mundo: amuletos, proteção, exorcismo |
O estudioso Gershom Scholem notou que as práticas mágicas judaicas são mais antigas do que a Cabala especulativa medieval.
A maioria dos cabalistas tradicionais olhou para a Cabala prática com desconfiança. Isaac Luria (séc. XVI), um dos maiores cabalistas, proibiu os seus discípulos de usar amuletos e técnicas práticas: sem o Templo e a pureza ritual, dizia, faziam mais mal do que bem.
Nos séculos XVII e XVIII surgiram os ba'alei shem («mestres do Nome»), curandeiros que escreviam amuletos e faziam exorcismos em comunidades da Europa Central e de Leste.
Alguns livros desta tradição têm páginas próprias no Grimório.pt:
➜ Sefer ha-Razim, o Livro dos Mistérios
O golem
A ideia antiga
Em hebraico, golem significa algo como matéria informe ou embrião. O Talmude (Sanhedrin 38b) descreve Adão, antes de receber a alma, como um golem: pó amassado sem forma.
A ideia de criar um ser artificial com combinações de letras aparece na Idade Média. Eleazar de Worms (finais do séc. XII – inícios do XIII), num comentário ao Sefer Yetzirah, descreve um procedimento com letras e nomes divinos.
Em muitas versões da lenda, o golem tinha na testa a palavra emet («verdade»). Apagando a primeira letra ficava met («morto»), e o golem voltava ao pó.
O golem de Praga: lenda
A versão mais famosa conta que o rabino Judá Loew (o Maharal, séc. XVI) de Praga criou um golem de barro para defender o bairro judeu. Segundo a lenda, o corpo estaria no sótão da Sinagoga Velha-Nova.
É uma lenda tardia. O Maharal existiu, mas a história só foi ligada a ele muito depois da sua morte, e ganhou forma sobretudo na literatura alemã do século XIX. Um livro de 1909 que dizia apresentar um relato de testemunha é considerado uma falsificação literária.
A lenda inspirou o romance Der Golem de Gustav Meyrink (1915) e o filme mudo de Paul Wegener (1920), e influenciou toda a ficção sobre seres artificiais.
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➜ O rei Salomão na tradição mágica
Fontes
- Wikipedia, «Incantation bowl» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Practical Kabbalah» — en.wikipedia.org
- Wikipedia, «Golem» — en.wikipedia.org e de.wikipedia.org
- Bohak, Gideon, Ancient Jewish Magic: A History, Cambridge University Press, 2008
- Trachtenberg, Joshua, Jewish Magic and Superstition: A Study in Folk Religion, 1939