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Magia judaica popular: taças, amuletos e o golem

A magia judaica popular: taças de encantamento aramaicas da Mesopotâmia, amuletos (kamea), a «Cabala prática», os nomes divinos e a lenda do golem de Praga.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. As taças de encantamento
  3. Os amuletos: a kamea
  4. A Cabala prática
  5. O golem
  6. Continue a ler
  7. Fontes

A Bíblia hebraica condena a feitiçaria e a adivinhação. Mesmo assim, ao longo de mais de dois mil anos, muitos judeus comuns usaram amuletos, fórmulas protetoras e nomes divinos para se defenderem de doenças, demónios e do mau-olhado.

Os historiadores chamam a isto magia judaica popular. Não é o mesmo que a Cabala mística, embora as duas se toquem.

Nesta página percorremos os seus testemunhos mais conhecidos: as taças de encantamento, os amuletos (kamea), a chamada Cabala prática e a lenda do golem.

➜ Cabala: a mística judaica

Ficha

Tema Resumo
Período Da Antiguidade tardia até ao séc. XX
Línguas Hebraico e aramaico
Objetos Taças de encantamento, amuletos escritos (kamea), textos de nomes divinos
Textos Sefer ha-Razim, Sefer Raziel, manuais de nomes e amuletos
Figura lendária O golem
Atitude rabínica Desconfiança; muitos cabalistas proibiram o uso prático

As taças de encantamento

Entre os séculos V e VIII d.C., na Mesopotâmia (atual Iraque, sob o Império Sassânida), muitas famílias encomendavam taças de barro com inscrições a tinta.

  • O texto era escrito em espiral, do bordo para o centro.
  • A maioria está em aramaico judaico babilónico; outras em mandeu ou siríaco.
  • As taças eram enterradas de boca para baixo, debaixo do chão, à soleira da porta ou nos cantos da casa.

A ideia, segundo os estudiosos, era aprisionar os demónios: estes seguiriam as palavras em espiral até ficarem presos no centro. As taças protegiam contra o mau-olhado, doenças e demónios como Lilith.

Estão registadas cerca de 2000 taças, muitas encontradas em escavações em Nippur. Não eram só judaicas: cristãos, mandeus e outros também as usavam. São hoje uma fonte preciosa para conhecer a religião do dia a dia na época em que se escreveu o Talmude da Babilónia.

➜ Lilith

Os amuletos: a kamea

Em hebraico, kamea significa amuleto. Normalmente era um papel, pergaminho ou placa de metal com:

  • nomes de Deus e combinações das suas letras;
  • nomes de anjos;
  • versículos bíblicos;
  • por vezes, quadrados de letras ou desenhos.

Um tipo muito comum protegia mulheres grávidas, parturientes e recém-nascidos, que a crença considerava vulneráveis a Lilith. Outros protegiam contra doenças, mau-olhado ou perigos de viagem.

No ocultismo europeu moderno, a palavra kamea passou também a designar os quadrados mágicos planetários — um uso diferente do original hebraico.

➜ Selos planetários e kameas

➜ Tetragrama: o nome divino

➜ Hamsá, a Mão de Miriam

A Cabala prática

A tradição judaica distingue:

Ramo O que é
Cabala teórica (iyunit) Estudo místico de Deus, da criação e da Torá
Cabala prática (ma'asit) Uso de nomes divinos e angélicos para agir no mundo: amuletos, proteção, exorcismo

O estudioso Gershom Scholem notou que as práticas mágicas judaicas são mais antigas do que a Cabala especulativa medieval.

A maioria dos cabalistas tradicionais olhou para a Cabala prática com desconfiança. Isaac Luria (séc. XVI), um dos maiores cabalistas, proibiu os seus discípulos de usar amuletos e técnicas práticas: sem o Templo e a pureza ritual, dizia, faziam mais mal do que bem.

Nos séculos XVII e XVIII surgiram os ba'alei shem («mestres do Nome»), curandeiros que escreviam amuletos e faziam exorcismos em comunidades da Europa Central e de Leste.

Alguns livros desta tradição têm páginas próprias no Grimório.pt:

➜ Sefer ha-Razim, o Livro dos Mistérios

➜ Sepher Raziel

O golem

A ideia antiga

Em hebraico, golem significa algo como matéria informe ou embrião. O Talmude (Sanhedrin 38b) descreve Adão, antes de receber a alma, como um golem: pó amassado sem forma.

A ideia de criar um ser artificial com combinações de letras aparece na Idade Média. Eleazar de Worms (finais do séc. XII – inícios do XIII), num comentário ao Sefer Yetzirah, descreve um procedimento com letras e nomes divinos.

Em muitas versões da lenda, o golem tinha na testa a palavra emet («verdade»). Apagando a primeira letra ficava met («morto»), e o golem voltava ao pó.

O golem de Praga: lenda

A versão mais famosa conta que o rabino Judá Loew (o Maharal, séc. XVI) de Praga criou um golem de barro para defender o bairro judeu. Segundo a lenda, o corpo estaria no sótão da Sinagoga Velha-Nova.

É uma lenda tardia. O Maharal existiu, mas a história só foi ligada a ele muito depois da sua morte, e ganhou forma sobretudo na literatura alemã do século XIX. Um livro de 1909 que dizia apresentar um relato de testemunha é considerado uma falsificação literária.

A lenda inspirou o romance Der Golem de Gustav Meyrink (1915) e o filme mudo de Paul Wegener (1920), e influenciou toda a ficção sobre seres artificiais.

Continue a ler

➜ O Testamento de Salomão

➜ O rei Salomão na tradição mágica

➜ A Árvore da Vida da Cabala

➜ Hoodoo e rootwork

Fontes

  • Wikipedia, «Incantation bowl» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Practical Kabbalah» — en.wikipedia.org
  • Wikipedia, «Golem» — en.wikipedia.org e de.wikipedia.org
  • Bohak, Gideon, Ancient Jewish Magic: A History, Cambridge University Press, 2008
  • Trachtenberg, Joshua, Jewish Magic and Superstition: A Study in Folk Religion, 1939

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