O Heptameron é um pequeno manual de magia cerimonial organizado pelos sete dias da semana — daí o nome, que em grego quer dizer «sete dias». Para cada dia, indica os anjos, os espíritos e as orações associados.
A tradição atribui-o ao médico e filósofo italiano Pedro de Abano, morto por volta de 1316. Essa autoria é quase certamente falsa. O texto só aparece impresso no século XVI, mais de duzentos anos depois.
É um livro curto, mas teve uma enorme descendência. Muitos grimórios posteriores copiaram as suas listas de anjos e o seu desenho do círculo.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Heptameron ou Elementos Mágicos |
| Nome original | Heptameron, seu Elementa Magica Petri de Abano Philosophi |
| Período | Primeira edição confirmada: Marburgo, 1559 |
| Origem | Europa (texto latino); origem exata desconhecida |
| Autoria | Atribuída a Pedro de Abano; autor real desconhecido |
| Idiomas | Latim; tradução inglesa de Robert Turner (1655) |
| Tipo | Magia cerimonial angélica |
Quem foi Pedro de Abano
Pedro de Abano (c. 1250–c. 1316) foi um médico e filósofo de Pádua, conhecido pelos seus trabalhos de medicina e astrologia. Foi investigado por heresia e morreu antes de o processo terminar.
A fama de astrólogo e as suspeitas da Inquisição transformaram-no, depois da morte, numa figura de mago. Foi essa fama que levou alguém a pôr o seu nome num manual de conjurações.
O historiador Lynn Thorndike considerou a atribuição do Heptameron a Pedro de Abano «quase de certeza espúria». É também a posição de Joseph H. Peterson, editor moderno do texto.
Origem real e primeiras edições
Facto documentado: a edição mais antiga confirmada é a de Marburgo, 1559, onde o Heptameron surge ao lado do chamado Quarto Livro de Filosofia Oculta, falsamente atribuído a Agrippa.
Alguns autores do século XIX referiram edições de Paris (1474) e de Veneza (1496). Segundo Peterson, não há prova de que tenham existido.
O texto foi depois reimpresso com as obras de Agrippa e circulou em manuscrito. Um manuscrito do Vaticano, datado de 1569, contém uma versão aparentada.
Em 1655, o inglês Robert Turner traduziu-o para inglês, no mesmo volume que o Quarto Livro. Foi essa tradução que o tornou conhecido no mundo anglófono.
➜ Três Livros de Filosofia Oculta, de Agrippa
O que contém
O próprio texto apresenta-se como uma introdução prática para quem não domina a magia. O Quarto Livro teria sido escrito «para os eruditos»; o Heptameron seria o manual para principiantes.
O círculo mágico
A primeira parte descreve o círculo: três círculos concêntricos, com cerca de nove pés de diâmetro. Entre eles escrevem-se nomes divinos, o nome da hora, o nome do anjo da hora, o nome da estação e os seus anjos.
Nos quatro pontos cardeais desenham-se sinais e nomes. O círculo muda conforme o dia, a hora e a época do ano. A instrução começa assim, na tradução de Turner:
«Escreve o nome da hora em que fazes a obra.»
As horas e as estações
O livro dá um nome próprio a cada uma das 24 horas (12 do dia e 12 da noite) e indica os anjos que as regem. Divide também o ano em quatro estações, cada uma com os seus anjos e «sinais».
Este sistema assenta nas horas planetárias, uma ideia astrológica antiga: cada hora do dia seria governada por um dos sete planetas clássicos.
Os anjos dos dias da semana
O núcleo da obra é uma secção para cada dia, com o seu planeta, os seus anjos, os espíritos do ar e uma breve conjuração. Os anjos principais são:
| Dia (planeta) | Anjo principal |
|---|---|
| Domingo (Sol) | Miguel |
| Segunda (Lua) | Gabriel |
| Terça (Marte) | Samael |
| Quarta (Mercúrio) | Rafael |
| Quinta (Júpiter) | Sachiel |
| Sexta (Vénus) | Anael |
| Sábado (Saturno) | Cassiel |
Nenhuma destas correspondências vem da Bíblia. Resultam da tradição astrológica e angélica medieval.
Preparações
Há ainda consagrações, bênçãos, perfumes (as «suffumigações»), exorcismos do fogo e indicações sobre as vestes do operador. São fórmulas cristãs, muito próximas das da Chave de Salomão.
Não reproduzimos as conjurações. Interessam-nos como documento histórico.
Influência
O Heptameron tornou-se uma das fontes mais copiadas da magia cerimonial:
- as listas de anjos dos dias passaram para inúmeros manuais e calendários mágicos;
- o seu círculo e as suas conjurações foram reaproveitados em grimórios posteriores, incluindo partes do Lemegeton;
- através da tradução de Turner, chegou aos ocultistas ingleses dos séculos XIX e XX.
Ainda hoje, quando um livro associa Miguel ao domingo ou Anael à sexta-feira, está a repetir, direta ou indiretamente, o Heptameron.
➜ Lemegeton, a Chave Menor de Salomão
Curiosidades
- O livro é tão curto que caberia num caderno; a sua força está nas tabelas, fáceis de copiar.
- Os nomes das horas (como Yayn ou Janor) não têm origem conhecida em nenhuma língua.
- O verdadeiro Pedro de Abano defendia explicações naturais para os fenómenos, o que torna a atribuição ainda mais irónica.
Onde ler
O texto latino da edição de 1559, com a tradução inglesa de Robert Turner (1655), está disponível gratuitamente no site Esoteric Archives, de Joseph H. Peterson.
Continue a ler
➜ Três Livros de Filosofia Oculta, de Agrippa
➜ Os anjos no Livro de São Cipriano
Fontes
- Joseph H. Peterson (ed.), Heptameron, or Magical Elements, com a tradução de Robert Turner (1655) — esotericarchives.com
- Pseudo-Agrippa, Fourth Book of Occult Philosophy, ed. Joseph H. Peterson — esotericarchives.com
- «Pietro d'Abano» (entrada «Heptameron»), Wikipedia — en.wikipedia.org
- Lynn Thorndike, A History of Magic and Experimental Science, vol. II, Columbia University Press, 1923.