A Hygromanteia é um livro de magia escrito em grego, na tradição do Império Bizantino. Os especialistas chamam-lhe também Tratado Mágico de Salomão.
Durante muito tempo quase ninguém fora do mundo académico a conhecia. Hoje é vista como o antepassado direto da Chave de Salomão, o grimório mais influente da Europa.
Tal como a Chave, apresenta-se como uma obra do rei Salomão. Essa autoria é lendária. O texto foi formado por copistas e praticantes bizantinos, ao longo de séculos.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Hygromanteia / Tratado Mágico de Salomão |
| Nome original | Hygromanteia (Ὑγρομαντεία); também Solomonikê, Apotelesmatikê Pragmateia |
| Período | Manuscritos sobretudo dos séc. XV–XVI; origem mais antiga discutida |
| Origem | Mundo bizantino de língua grega |
| Autoria | Atribuída a Salomão; autores reais desconhecidos |
| Idioma | Grego |
| Tipo | Magia astrológica, angélica e talismânica; adivinhação |
O nome: «adivinhação pela água»
Hygromanteia quer dizer, à letra, «adivinhação por meio de líquidos»: olhar para a água de uma bacia ou de um recipiente para obter visões. É uma prática antiga, conhecida no mundo grego.
O nome vem de uma das secções do livro, mas a obra é muito mais vasta do que isso.
➜ Adivinhação popular portuguesa
Lenda e origem real
Alguns manuscritos abrem com uma carta de Salomão ao filho, Roboão. Daí o nome alternativo Epístola a Roboão. É a mesma moldura lendária que reaparece na Chave de Salomão.
Os factos são outros:
- Os manuscritos conservados são, na maioria, dos séculos XV e XVI;
- O investigador Pablo Torijano propôs uma origem mais antiga, na época bizantina, mas a data de composição continua em debate;
- O livro herda ideias da magia da Antiguidade tardia, como a dos Papiros Mágicos Gregos e do Testamento de Salomão.
O que contém
Descrevemos o conteúdo; não ensinamos rituais nem invocações.
Não existe um texto único. Cada manuscrito tem a sua seleção e ordem. No conjunto, encontram-se:
- Os dias e as horas planetárias: cada hora do dia ligada a um dos sete planetas da astrologia antiga, e a indicação do que seria próprio fazer em cada uma;
- Anjos e demónios de cada dia e das horas: nomes de anjos como Miguel, Gabriel, Rafael, Uriel e Anael, e de demónios como Asmodeu, Lúcifer, Astaroth e Belzebu;
- Plantas dos planetas: correspondências entre ervas e planetas;
- Talismãs planetários, diários e horários, com caracteres e selos;
- Orações a Deus e conjurações;
- A preparação de instrumentos: uma espada, recipientes, tinta, figuras de cera;
- Métodos de adivinhação, incluindo a da bacia de água.
Algumas receitas pedem ingredientes animais, como sangue de morcego para a tinta. São registos de outra época e não os reproduzimos.
A ponte para a Chave de Salomão
A grande importância da Hygromanteia está na sua descendência.
Depois da queda de Constantinopla (1453), muitos manuscritos gregos chegaram a Itália. Segundo Marathakis e Skinner, o tratado terá sido traduzido para latim e italiano em Itália no século XV. Dessas traduções nasceu a Clavicula Salomonis, a Chave de Salomão.
A comparação mostra a herança: as horas planetárias, a carta a Roboão, a preparação do mago e dos instrumentos. Isto também desfaz uma ideia antiga: a de que a Chave vinha de um original hebraico.
| Obra | Língua e época |
|---|---|
| Hygromanteia | Grego; manuscritos dos séc. XV–XVI |
| Chave de Salomão | Latim e italiano; séc. XV; muitas cópias dos séc. XVII–XVIII |
Os manuscritos
Conhecem-se vários manuscritos gregos, espalhados por bibliotecas europeias. Entre os usados na edição moderna estão:
- Harley 5596, na British Library (Londres);
- Bononiensis 3632 (Bolonha);
- Monacensis Gr. 70 (Munique);
- Parisinus 2419 (Paris);
- Atheniensis 1265 e Atheniensis 115 (Atenas);
- Gennadianus 45 (Atenas).
Em 1927, o helenista Armand Delatte publicou a transcrição de um destes manuscritos nas suas Anecdota Atheniensia.
➜ Manuscritos mágicos da British Library
A edição de Marathakis (2011)
A primeira tradução inglesa completa saiu em 2011: The Magical Treatise of Solomon, or Hygromanteia, tradução de Ioannis Marathakis, com prefácio de Stephen Skinner, na Golden Hoard Press.
Marathakis traduziu e comparou vários manuscritos, com tabelas e ilustrações. A obra tornou-se a referência para quem estuda a origem dos grimórios salomónicos.
Curiosidades
- A Hygromanteia não é um livro «perdido e reencontrado». Os manuscritos estiveram sempre nas bibliotecas; só faltava quem os estudasse e traduzisse.
- O tratado mistura medicina astrológica e magia: alguns manuscritos trazem tabelas para escolher o momento das sangrias.
- Mostra que a magia «ocidental» deve muito ao mundo grego bizantino, e não apenas ao latino.
Onde ler
Os manuscritos são antigos e de domínio público, mas não há tradução portuguesa. A edição de Marathakis (2011) é recente e protegida por direitos de autor. A transcrição grega de Delatte (1927) é a via clássica para os leitores de grego.
Continue a ler
➜ O rei Salomão na tradição mágica
Fontes
- Ioannis Marathakis (trad.), Stephen Skinner (pref.), The Magical Treatise of Solomon, or Hygromanteia, Golden Hoard Press, 2011 — descrição da edição
- «Magical Treatise of Solomon», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Armand Delatte, Anecdota Atheniensia, vol. I, Liège/Paris, 1927.
- Pablo A. Torijano, Solomon the Esoteric King, Brill, 2002.