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📚 Grimórios

Hygromanteia: o Tratado Mágico de Salomão

A Hygromanteia ou Tratado Mágico de Salomão: grimório bizantino em grego, manuscritos dos séc. XV–XVI, horas planetárias e a origem da Chave de Salomão.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. O nome: «adivinhação pela água»
  3. Lenda e origem real
  4. O que contém
  5. A ponte para a Chave de Salomão
  6. Os manuscritos
  7. A edição de Marathakis (2011)
  8. Curiosidades
  9. Onde ler
  10. Continue a ler
  11. Fontes

A Hygromanteia é um livro de magia escrito em grego, na tradição do Império Bizantino. Os especialistas chamam-lhe também Tratado Mágico de Salomão.

Durante muito tempo quase ninguém fora do mundo académico a conhecia. Hoje é vista como o antepassado direto da Chave de Salomão, o grimório mais influente da Europa.

Tal como a Chave, apresenta-se como uma obra do rei Salomão. Essa autoria é lendária. O texto foi formado por copistas e praticantes bizantinos, ao longo de séculos.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Hygromanteia / Tratado Mágico de Salomão
Nome original Hygromanteia (Ὑγρομαντεία); também Solomonikê, Apotelesmatikê Pragmateia
Período Manuscritos sobretudo dos séc. XV–XVI; origem mais antiga discutida
Origem Mundo bizantino de língua grega
Autoria Atribuída a Salomão; autores reais desconhecidos
Idioma Grego
Tipo Magia astrológica, angélica e talismânica; adivinhação

O nome: «adivinhação pela água»

Hygromanteia quer dizer, à letra, «adivinhação por meio de líquidos»: olhar para a água de uma bacia ou de um recipiente para obter visões. É uma prática antiga, conhecida no mundo grego.

O nome vem de uma das secções do livro, mas a obra é muito mais vasta do que isso.

➜ Adivinhação popular portuguesa

Lenda e origem real

Alguns manuscritos abrem com uma carta de Salomão ao filho, Roboão. Daí o nome alternativo Epístola a Roboão. É a mesma moldura lendária que reaparece na Chave de Salomão.

Os factos são outros:

  • Os manuscritos conservados são, na maioria, dos séculos XV e XVI;
  • O investigador Pablo Torijano propôs uma origem mais antiga, na época bizantina, mas a data de composição continua em debate;
  • O livro herda ideias da magia da Antiguidade tardia, como a dos Papiros Mágicos Gregos e do Testamento de Salomão.

➜ Testamento de Salomão

➜ Papiros Mágicos Gregos

O que contém

Descrevemos o conteúdo; não ensinamos rituais nem invocações.

Não existe um texto único. Cada manuscrito tem a sua seleção e ordem. No conjunto, encontram-se:

  • Os dias e as horas planetárias: cada hora do dia ligada a um dos sete planetas da astrologia antiga, e a indicação do que seria próprio fazer em cada uma;
  • Anjos e demónios de cada dia e das horas: nomes de anjos como Miguel, Gabriel, Rafael, Uriel e Anael, e de demónios como Asmodeu, Lúcifer, Astaroth e Belzebu;
  • Plantas dos planetas: correspondências entre ervas e planetas;
  • Talismãs planetários, diários e horários, com caracteres e selos;
  • Orações a Deus e conjurações;
  • A preparação de instrumentos: uma espada, recipientes, tinta, figuras de cera;
  • Métodos de adivinhação, incluindo a da bacia de água.

Algumas receitas pedem ingredientes animais, como sangue de morcego para a tinta. São registos de outra época e não os reproduzimos.

➜ As horas planetárias

➜ Os anjos dos dias da semana

A ponte para a Chave de Salomão

A grande importância da Hygromanteia está na sua descendência.

Depois da queda de Constantinopla (1453), muitos manuscritos gregos chegaram a Itália. Segundo Marathakis e Skinner, o tratado terá sido traduzido para latim e italiano em Itália no século XV. Dessas traduções nasceu a Clavicula Salomonis, a Chave de Salomão.

A comparação mostra a herança: as horas planetárias, a carta a Roboão, a preparação do mago e dos instrumentos. Isto também desfaz uma ideia antiga: a de que a Chave vinha de um original hebraico.

Obra Língua e época
Hygromanteia Grego; manuscritos dos séc. XV–XVI
Chave de Salomão Latim e italiano; séc. XV; muitas cópias dos séc. XVII–XVIII

➜ Chave de Salomão

Os manuscritos

Conhecem-se vários manuscritos gregos, espalhados por bibliotecas europeias. Entre os usados na edição moderna estão:

  • Harley 5596, na British Library (Londres);
  • Bononiensis 3632 (Bolonha);
  • Monacensis Gr. 70 (Munique);
  • Parisinus 2419 (Paris);
  • Atheniensis 1265 e Atheniensis 115 (Atenas);
  • Gennadianus 45 (Atenas).

Em 1927, o helenista Armand Delatte publicou a transcrição de um destes manuscritos nas suas Anecdota Atheniensia.

➜ Manuscritos mágicos da British Library

A edição de Marathakis (2011)

A primeira tradução inglesa completa saiu em 2011: The Magical Treatise of Solomon, or Hygromanteia, tradução de Ioannis Marathakis, com prefácio de Stephen Skinner, na Golden Hoard Press.

Marathakis traduziu e comparou vários manuscritos, com tabelas e ilustrações. A obra tornou-se a referência para quem estuda a origem dos grimórios salomónicos.

Curiosidades

  • A Hygromanteia não é um livro «perdido e reencontrado». Os manuscritos estiveram sempre nas bibliotecas; só faltava quem os estudasse e traduzisse.
  • O tratado mistura medicina astrológica e magia: alguns manuscritos trazem tabelas para escolher o momento das sangrias.
  • Mostra que a magia «ocidental» deve muito ao mundo grego bizantino, e não apenas ao latino.

Onde ler

Os manuscritos são antigos e de domínio público, mas não há tradução portuguesa. A edição de Marathakis (2011) é recente e protegida por direitos de autor. A transcrição grega de Delatte (1927) é a via clássica para os leitores de grego.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ O rei Salomão na tradição mágica

➜ Magia medieval

➜ Magia cerimonial

Fontes

  • Ioannis Marathakis (trad.), Stephen Skinner (pref.), The Magical Treatise of Solomon, or Hygromanteia, Golden Hoard Press, 2011 — descrição da edição
  • «Magical Treatise of Solomon», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Armand Delatte, Anecdota Atheniensia, vol. I, Liège/Paris, 1927.
  • Pablo A. Torijano, Solomon the Esoteric King, Brill, 2002.

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