A Monas Hieroglyphica («A Mónada Hieroglífica») é um pequeno livro em latim publicado por John Dee em 1564. Gira à volta de um único desenho: um símbolo inventado por Dee, que ele acreditava resumir o universo.
Não é um livro de feitiços nem de invocações. É um tratado simbólico, cheio de geometria, astrologia, alquimia e Cabala cristã — e um dos textos mais enigmáticos do Renascimento.
Também não deve ser confundido com os livros enoquianos, que Dee registou mais tarde, a partir de 1582.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | A Mónada Hieroglífica |
| Nome original | Monas Hieroglyphica (latim) |
| Período | Escrita em janeiro de 1564; impressa no mesmo ano |
| Origem | Antuérpia, impressor Willem Silvius |
| Autoria | John Dee (1527–1608/1609) |
| Idioma | Latim |
| Tipo | Tratado simbólico, hermético e alquímico |
Como foi escrito
Dee tinha 37 anos e estava em Antuérpia. Segundo o próprio, escreveu o livro em doze dias, de 13 a 25 de janeiro de 1564, num estado de inspiração: dizia ser apenas a pena através da qual Deus escrevia.
Dedicou-o ao imperador Maximiliano II, à procura de um protetor. A obra abre com uma carta ao imperador e instruções ao impressor sobre como reproduzir os desenhos com exatidão.
O símbolo da mónada
«Mónada» significa unidade. O símbolo junta, num só desenho, sinais já conhecidos na astrologia e na alquimia:
| Elemento | Leitura de Dee |
|---|---|
| Círculo com ponto | O Sol |
| Meia-lua | A Lua |
| Cruz | Os quatro elementos |
| Sinal de Carneiro (em baixo) | O fogo |
Juntando as partes, o desenho lembra também o glifo de Mercúrio, o metal e o deus que na alquimia une os contrários.
Para Dee, este sinal era uma espécie de escrita universal: quem o compreendesse poderia ligar matemática, astronomia, alquimia e teologia.
O que contém
O livro está organizado em 24 teoremas, à maneira de um livro de geometria. O primeiro afirma que tudo pode ser representado a partir da reta e do círculo.
Os teoremas seguintes decompõem o símbolo, jogam com letras latinas, números e proporções, e ligam cada parte a planetas, elementos e operações alquímicas.
O texto é deliberadamente obscuro. Até hoje, os estudiosos não concordam sobre o que Dee queria exatamente dizer.
A mónada e os livros enoquianos
São duas fases diferentes da vida de Dee.
- 1564 — Monas Hieroglyphica: obra de um erudito, impressa e assinada, sobre um símbolo.
- Desde 1582 — diários angélicos: sessões com o vidente Edward Kelley, em que Dee registou mensagens que atribuía a anjos, incluindo uma língua própria, o enoquiano.
Os diários ficaram em manuscrito. Parte foi publicada em 1659 por Méric Casaubon, com uma introdução hostil, no livro A True & Faithful Relation.
Influência
- O símbolo da mónada aparece nas Núpcias Químicas de Christian Rosenkreutz (1616), um dos textos fundadores do movimento rosa-cruz.
- Na América colonial, John Winthrop, o Jovem, usou a mónada como marca pessoal.
- No renascimento ocultista dos séculos XIX e XX, o sinal voltou a ser usado como emblema hermético.
Curiosidades
- Dee considerou este livro uma das suas obras mais importantes até ao fim da vida.
- Seis anos depois, em 1570, escreveu o famoso Prefácio Matemático à tradução inglesa de Euclides — sinal de que o mesmo homem era matemático, astrólogo e místico.
Edições e traduções
- C. H. Josten, 1964 — tradução inglesa anotada, publicada na revista Ambix; é a edição académica de referência.
- J. W. Hamilton-Jones, 1947 — primeira tradução inglesa divulgada.
- Teresa Burns e Nancy Turner, 2021 — nova tradução académica.
Onde ler
O texto latino de 1564 está em domínio público. O site Esoteric Archives, de Joseph H. Peterson, reúne o texto com uma tradução inglesa e notas.
Continue a ler
➜ Livro de Soyga, o livro de John Dee
Fontes
- John Dee, Monas Hieroglyphica (1564), ed. Joseph H. Peterson — esotericarchives.com
- C. H. Josten, «A Translation of John Dee's Monas Hieroglyphica (Antwerp, 1564)», Ambix, 12, 1964.
- «Monas Hieroglyphica», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «John Dee», Wikipedia — en.wikipedia.org