Saltar para o conteúdo

📚 Grimórios

Livre des Esperitz, o «Livro dos Espíritos» francês

O Livre des Esperitz, tratado francês de demonologia (Trinity College, Cambridge, MS O.8.29): hierarquia, 46 espíritos e ligação a Weyer e à Goécia.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Origem real e lenda
  3. O que contém
  4. Livre des Esperitz, Pseudomonarchia e Goécia
  5. Porque é importante
  6. Curiosidades
  7. Onde ler
  8. Continue a ler
  9. Fontes

O Livre des Esperitz («Livro dos Espíritos», em francês antigo) é um pequeno manuscrito que enumera os espíritos do inferno, a sua hierarquia e as suas funções. É considerado o mais antigo tratado de demonologia conservado em língua francesa.

Não é um livro famoso, mas é importante: os historiadores veem nele um antepassado direto dos catálogos de demónios que, um século depois, aparecem em Johann Weyer e na Goécia.

Não confundir com O Livro dos Espíritos de Allan Kardec (1857), obra fundadora do espiritismo, que não tem qualquer relação com este manuscrito.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Livro dos Espíritos
Nome original Le Livre des esperitz (francês)
Período Fim do séc. XV ou séc. XVI (datação discutida)
Origem França
Manuscrito Cambridge, Trinity College, MS O.8.29
Autoria Anónima; a tradição liga estes catálogos a Salomão
Idioma Francês
Tipo Catálogo de espíritos (demonologia)

Origem real e lenda

Como tantos textos de magia, este catálogo vive à sombra do rei Salomão, a quem a lenda atribui o poder de comandar demónios. Essa atribuição é lendária: o autor é desconhecido.

O manuscrito sobrevivente está na biblioteca do Trinity College, em Cambridge. As datações propostas oscilam entre o fim do século XV e o século XVI. O conteúdo, porém, reúne ideias e elementos que circulavam em textos de magia pelo menos desde o século XIII.

O texto ficou praticamente desconhecido até ao estudo do historiador francês Jean-Patrice Boudet, publicado em 2003 na revista Médiévales (n.º 44), com o título «Les who's who démonologiques de la Renaissance et leurs ancêtres médiévaux». Esse artigo inclui a edição do texto.

➜ Demonologia

O que contém

O Livre des Esperitz é, acima de tudo, uma lista organizada como uma corte. Para cada espírito indica o título, a aparência atribuída, os «ofícios» que lhe eram imputados e o número de legiões que comandaria.

A hierarquia, segundo a descrição do texto:

Nível Quem
Três espíritos superiores Lúcifer, Belzebu e Satanás
Quatro reis dos pontos cardeais Oriens, Paymon, Amaymon e Egyn
Restantes Reis, príncipes, duques, marqueses, condes e um «grande senhor»

O texto anuncia 47 espíritos, mas só descreve 46: um dos parágrafos parece ter-se perdido na cópia.

Ao catálogo segue-se, no mesmo manuscrito, um Livre des conjuracions com orações e conjurações. Não as reproduzimos: o interesse do Grimório.pt é histórico, não prático.

➜ Lúcifer

➜ Belzebu

Livre des Esperitz, Pseudomonarchia e Goécia

Este manuscrito é uma peça de uma cadeia de cópias e reescritas. Os três textos mais citados comparam-se assim:

Obra O que é
Livre des Esperitz Séc. XV–XVI, francês; 46 espíritos descritos, com Lúcifer, Belzebu e Satanás no topo
Pseudomonarchia Daemonum Johann Weyer, 1577; 69 demónios, copiados de um Liber officiorum spirituum
Goécia Séc. XVII, inglesa; 72 espíritos, cada um com o seu selo

Segundo a análise citada pelos estudiosos, cerca de 30 dos 47 espíritos do Livre des Esperitz são quase idênticos a espíritos da Goécia. Muitas descrições passaram de texto para texto quase sem alterações.

As diferenças também contam: a ordem dos espíritos muda, os números de legiões variam e os nomes deformam-se de cópia para cópia. É o retrato típico de uma tradição manuscrita, sem «texto original» fixo.

➜ Liber Officiorum Spirituum

➜ Lemegeton, a Chave Menor de Salomão

Porque é importante

O Livre des Esperitz mostra que os catálogos de demónios do Renascimento não foram inventados por Weyer nem pelos compiladores ingleses do século XVII. Já circulavam em França, em língua vulgar, antes deles.

Para quem estuda a demonologia, é também um bom exemplo de como a Igreja, os teólogos e os autores de grimórios partilhavam o mesmo vocabulário: hierarquias, títulos de nobreza e legiões, à imagem das cortes reais da época.

Curiosidades

  • Os quatro reis dos pontos cardeais (Oriens, Paymon, Amaymon, Egyn) reaparecem, com grafias variadas, em muitos grimórios posteriores.
  • Paymon e outros nomes do Livre des Esperitz sobrevivem na Goécia e, através dela, na cultura popular moderna.

Onde ler

O texto francês foi publicado por Jean-Patrice Boudet no artigo de 2003 da revista Médiévales, revista que se encontra no portal OpenEdition Journals. Não existe, que saibamos, tradução portuguesa.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ Anjos, demónios e entidades

➜ Johann Weyer e o De Praestigiis Daemonum

➜ Manual de Necromancia de Munique

Fontes

  • Jean-Patrice Boudet, «Les who's who démonologiques de la Renaissance et leurs ancêtres médiévaux», Médiévales, n.º 44, 2003.
  • «Livre des Esperitz», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Livre des esperitz», Wikipédia — fr.wikipedia.org
  • Joseph H. Peterson, introdução a Johann Weyer, Pseudomonarchia Daemonum — esotericarchives.com

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Grimórios ›