O Calendário Mágico não é um livro, mas uma enorme gravura — três folhas unidas, com mais de um metro de comprimento. Nela, o mundo aparece organizado em tabelas: números, nomes de Deus, anjos, planetas, elementos, signos e sinais secretos.
O título completo é Calendarium Naturale Magicum Perpetuum, ou «Calendário natural, mágico e perpétuo». É um dos mais belos documentos gráficos da magia natural do Renascimento tardio.
A gravura diz ter sido «inventada» pelo astrónomo Tycho Brahe em 1582. Essa atribuição, porém, não está confirmada e merece cautela.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Calendário Mágico |
| Nome original | Calendarium Naturale Magicum Perpetuum |
| Período | Impresso c. 1618–1620; a gravura indica «1582» |
| Origem | Frankfurt, casa editora de Johann Theodor de Bry |
| Autoria | Johann Baptist Grossschedel von Aicha (compilador); gravura atribuída a Matthäus Merian; «inventor»: T. Brahe (atribuição duvidosa) |
| Idioma | Latim, com nomes hebraicos |
| Tipo | Tabela de correspondências mágicas |
Tycho Brahe foi mesmo o autor?
A gravura traz a inscrição «T. Brahe inventor 1582». Por isso é muitas vezes chamada «Calendário Mágico de Tycho Brahe».
Os catálogos das bibliotecas registam essa inscrição, mas datam a impressão de cerca de 1618–1620 e atribuem a compilação a Johann Baptist Grossschedel. Não conhecemos nenhum documento de Tycho Brahe que confirme a autoria.
O que se sabe com mais segurança:
- Existe um manuscrito aparentado, na British Library (Harley 3420), datado de 1614.
- A gravura foi publicada em Frankfurt pela casa de De Bry.
- A gravação é atribuída a Matthäus Merian, o Velho (1593–1650), que trabalhava com os De Bry.
Usar o nome de um sábio famoso para dar prestígio a uma obra era prática comum — como aconteceu com Salomão, Alberto Magno ou São Cipriano.
O que contém
A gravura organiza os conhecimentos mágicos por números, do 1 ao 12. Cada número tem a sua coluna, e cada coluna lista o que a tradição associava a esse número.
| Número | Exemplos do que aparece |
|---|---|
| 4 | Os quatro elementos, com os seus arcanjos, ventos, pontos cardeais e signos |
| 7 | Os sete planetas, com os seus anjos, inteligências, espíritos, selos e imagens |
| 8 | Oito «tábuas» atribuídas a figuras bíblicas (Adão, Moisés, Elias, Salomão…) |
| 10 | Nomes divinos e as dez esferas da Cabala |
| 12 | Os anjos dos doze signos do zodíaco, com os seus sinais |
Tem ainda quadrados mágicos, selos planetários, tabelas de adivinhação pelos nomes (onomancia) e um pentagrama com letras hebraicas.
Por exemplo, na tabela do quatro, o fogo aparece ligado a Seraph e ao arcanjo Rafael, e ao vento Euro; na do sete, Saturno surge com o anjo Cassiel.
A própria gravura tem erros: segundo Joseph H. Peterson, alguns nomes de anjos planetários estão trocados, e o manuscrito Harley ajuda a corrigi-los.
➜ Selos planetários e quadrados mágicos
➜ Os anjos e planetas dos dias da semana
De onde vêm estas correspondências
O Calendário não inventou o seu sistema. Baseia-se sobretudo em:
- Três Livros da Filosofia Oculta de Cornélio Agrippa (livro II, 1533), que já apresentava «escalas» dos números de 1 a 12;
- o Arbatel (1575), de onde vêm os espíritos olímpicos;
- manuscritos mágicos alemães do século XVI com os mesmos sinais.
➜ A Filosofia Oculta de Agrippa
Um «calendário»?
Apesar do nome, não é um calendário de datas. «Perpétuo» quer dizer que as correspondências valem para sempre, em qualquer ano.
A ideia de fundo é a da magia natural: tudo no universo estaria ligado por simpatias, e conhecer essas ligações permitiria agir sobre o mundo. É uma crença da época, não um facto demonstrado.
Influência
As tabelas de correspondências tornaram-se uma ferramenta central do ocultismo moderno. A Golden Dawn e, mais tarde, obras como o 777 de Aleister Crowley construíram tabelas do mesmo tipo, ainda que com outros sistemas.
Em 1979, Adam McLean publicou uma edição comentada, The Magical Calendar, que tornou a gravura conhecida entre os estudiosos do hermetismo.
Onde ler
A gravura é de domínio público. O Getty Research Institute disponibiliza uma digitalização no Internet Archive, e Joseph H. Peterson publica excertos transcritos no Esoteric Archives.
- Digitalização da gravura (Getty / Internet Archive)
- The Magical Calendar — excertos (Esoteric Archives)
Continue a ler
➜ Monas Hieroglyphica de John Dee
Fontes
- Joseph H. Peterson (ed.), The Magical Calendar (excertos e notas) — esotericarchives.com
- Wellcome Collection, Calendarium naturale magicum perpetuum… T. Brahe inventor 1582, ref. EPB/F/2945 — wellcomecollection.org
- Getty Research Institute, digitalização da gravura — archive.org
- Adam McLean, The Magical Calendar, Magnum Opus Hermetic Sourceworks, 1979.
- «Calendarium Naturale Magicum Perpetuum», Wikipedia — en.wikipedia.org