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📚 Grimórios

O Calendário Mágico: a grande tabela de correspondências do século XVII

O Calendário Mágico, gravura de Frankfurt (c. 1618–1620) com a inscrição «T. Brahe inventor 1582»: correspondências do 1 ao 12, anjos, planetas e selos.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Tycho Brahe foi mesmo o autor?
  3. O que contém
  4. De onde vêm estas correspondências
  5. Um «calendário»?
  6. Influência
  7. Onde ler
  8. Continue a ler
  9. Fontes

O Calendário Mágico não é um livro, mas uma enorme gravura — três folhas unidas, com mais de um metro de comprimento. Nela, o mundo aparece organizado em tabelas: números, nomes de Deus, anjos, planetas, elementos, signos e sinais secretos.

O título completo é Calendarium Naturale Magicum Perpetuum, ou «Calendário natural, mágico e perpétuo». É um dos mais belos documentos gráficos da magia natural do Renascimento tardio.

A gravura diz ter sido «inventada» pelo astrónomo Tycho Brahe em 1582. Essa atribuição, porém, não está confirmada e merece cautela.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Calendário Mágico
Nome original Calendarium Naturale Magicum Perpetuum
Período Impresso c. 1618–1620; a gravura indica «1582»
Origem Frankfurt, casa editora de Johann Theodor de Bry
Autoria Johann Baptist Grossschedel von Aicha (compilador); gravura atribuída a Matthäus Merian; «inventor»: T. Brahe (atribuição duvidosa)
Idioma Latim, com nomes hebraicos
Tipo Tabela de correspondências mágicas

Tycho Brahe foi mesmo o autor?

A gravura traz a inscrição «T. Brahe inventor 1582». Por isso é muitas vezes chamada «Calendário Mágico de Tycho Brahe».

Os catálogos das bibliotecas registam essa inscrição, mas datam a impressão de cerca de 1618–1620 e atribuem a compilação a Johann Baptist Grossschedel. Não conhecemos nenhum documento de Tycho Brahe que confirme a autoria.

O que se sabe com mais segurança:

  • Existe um manuscrito aparentado, na British Library (Harley 3420), datado de 1614.
  • A gravura foi publicada em Frankfurt pela casa de De Bry.
  • A gravação é atribuída a Matthäus Merian, o Velho (1593–1650), que trabalhava com os De Bry.

Usar o nome de um sábio famoso para dar prestígio a uma obra era prática comum — como aconteceu com Salomão, Alberto Magno ou São Cipriano.

O que contém

A gravura organiza os conhecimentos mágicos por números, do 1 ao 12. Cada número tem a sua coluna, e cada coluna lista o que a tradição associava a esse número.

Número Exemplos do que aparece
4 Os quatro elementos, com os seus arcanjos, ventos, pontos cardeais e signos
7 Os sete planetas, com os seus anjos, inteligências, espíritos, selos e imagens
8 Oito «tábuas» atribuídas a figuras bíblicas (Adão, Moisés, Elias, Salomão…)
10 Nomes divinos e as dez esferas da Cabala
12 Os anjos dos doze signos do zodíaco, com os seus sinais

Tem ainda quadrados mágicos, selos planetários, tabelas de adivinhação pelos nomes (onomancia) e um pentagrama com letras hebraicas.

Por exemplo, na tabela do quatro, o fogo aparece ligado a Seraph e ao arcanjo Rafael, e ao vento Euro; na do sete, Saturno surge com o anjo Cassiel.

A própria gravura tem erros: segundo Joseph H. Peterson, alguns nomes de anjos planetários estão trocados, e o manuscrito Harley ajuda a corrigi-los.

➜ Selos planetários e quadrados mágicos

➜ Os anjos e planetas dos dias da semana

De onde vêm estas correspondências

O Calendário não inventou o seu sistema. Baseia-se sobretudo em:

  • Três Livros da Filosofia Oculta de Cornélio Agrippa (livro II, 1533), que já apresentava «escalas» dos números de 1 a 12;
  • o Arbatel (1575), de onde vêm os espíritos olímpicos;
  • manuscritos mágicos alemães do século XVI com os mesmos sinais.

➜ A Filosofia Oculta de Agrippa

➜ Arbatel de magia veterum

Um «calendário»?

Apesar do nome, não é um calendário de datas. «Perpétuo» quer dizer que as correspondências valem para sempre, em qualquer ano.

A ideia de fundo é a da magia natural: tudo no universo estaria ligado por simpatias, e conhecer essas ligações permitiria agir sobre o mundo. É uma crença da época, não um facto demonstrado.

Influência

As tabelas de correspondências tornaram-se uma ferramenta central do ocultismo moderno. A Golden Dawn e, mais tarde, obras como o 777 de Aleister Crowley construíram tabelas do mesmo tipo, ainda que com outros sistemas.

Em 1979, Adam McLean publicou uma edição comentada, The Magical Calendar, que tornou a gravura conhecida entre os estudiosos do hermetismo.

Onde ler

A gravura é de domínio público. O Getty Research Institute disponibiliza uma digitalização no Internet Archive, e Joseph H. Peterson publica excertos transcritos no Esoteric Archives.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ Monas Hieroglyphica de John Dee

➜ Magia renascentista

➜ Símbolos dos planetas

Fontes

  • Joseph H. Peterson (ed.), The Magical Calendar (excertos e notas) — esotericarchives.com
  • Wellcome Collection, Calendarium naturale magicum perpetuum… T. Brahe inventor 1582, ref. EPB/F/2945 — wellcomecollection.org
  • Getty Research Institute, digitalização da gravura — archive.org
  • Adam McLean, The Magical Calendar, Magnum Opus Hermetic Sourceworks, 1979.
  • «Calendarium Naturale Magicum Perpetuum», Wikipedia — en.wikipedia.org

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