O Necronomicon é o grimório mais famoso que nunca existiu. Tem fama de livro proibido, escrito por um «árabe louco», guardado a sete chaves em bibliotecas antigas.
Foi inventado pelo escritor norte-americano H. P. Lovecraft para os seus contos de terror, nos anos 1920. O próprio autor o disse, várias vezes, nas suas cartas.
Mesmo assim, o nome ganhou vida própria. Desde os anos 1970 venderam-se vários «Necronomicons» apresentados como verdadeiros. Nesta página separamos a ficção, a brincadeira e a fraude.
Ficha do livro
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Necronomicon |
| Nome «original» | Al Azif (fictício) |
| Período | Inventado por Lovecraft; primeira menção num conto escrito em 1922 e publicado em 1924 |
| Origem | Ficção de terror norte-americana |
| Autoria | Fictícia: «Abdul Alhazred»; real: H. P. Lovecraft |
| Idioma | Nenhum: não existe texto original |
| Tipo | Grimório fictício; mais tarde, falsificações |
A invenção de Lovecraft
Howard Phillips Lovecraft (1890–1937) nasceu e morreu em Providence, nos Estados Unidos. É um dos mestres do conto de terror.
O Necronomicon aparece pela primeira vez no conto The Hound («O Cão»), escrito em 1922 e publicado em 1924. O autor fictício, Abdul Alhazred, já tinha surgido noutro conto, The Nameless City.
Lovecraft foi claro numa carta: não houve nunca um Abdul Alhazred nem um Necronomicon, porque foi ele quem inventou esses nomes. «Abdul Alhazred» era, aliás, um pseudónimo que ele próprio usara em criança, por volta dos cinco anos. Não é sequer um nome árabe correto.
O que quer dizer o nome
«Necronomicon» é formado a partir do grego. Lovecraft traduzia-o como «imagem da lei dos mortos». O título árabe fictício, Al Azif, referia-se, segundo ele, ao ruído noturno dos insetos que se dizia ser o uivar dos demónios.
A falsa história do livro
Em 1927, Lovecraft escreveu uma pequena History of the Necronomicon, publicada só em 1938, depois da sua morte. É uma cronologia inventada, com ar erudito:
| Data fictícia | «Acontecimento» |
|---|---|
| Até 738 d.C. | Alhazred escreve o Al Azif em Damasco, nos últimos anos de vida |
| 950 | Tradução grega de Teodoro Fileta |
| 1228 | Tradução latina de «Olaus Wormius» |
| Séculos seguintes | Proibições e queimas; raros exemplares em bibliotecas |
É aqui que se vê a piada: o verdadeiro Olaus Wormius foi um erudito dinamarquês que viveu de 1588 a 1654. Não podia ter traduzido nada em 1228.
Lovecraft chegou a pôr o livro em estantes reais — o Museu Britânico, a Biblioteca Nacional de França, a Biblioteca Widener de Harvard, a Universidade de Buenos Aires — para tornar a ficção mais credível. Outros escritores do seu círculo passaram a citá-lo também.
Os falsos Necronomicons
Como tantos leitores procuravam o livro, alguém acabou por o «encontrar». Os mais conhecidos:
- Edição da Owlswick Press (anos 1970) — organizada com L. Sprague de Camp. Oito páginas de escrita siríaca sem sentido, repetidas. De Camp assumiu que era uma brincadeira.
- Edição de George Hay (fim dos anos 1970), com Colin Wilson, Robert Turner e David Langford. Apresentada como descoberta séria, ligada a John Dee. Colin Wilson admitiu depois que era uma invenção.
- Simon Necronomicon (1977) — o mais vendido. Saiu primeiro em edição limitada pela Schlangekraft e depois em livro de bolso pela Avon, a partir de 1980.
O «Simon Necronomicon»
É assinado apenas por «Simon». Vários autores atribuem-no ao escritor Peter Levenda.
Em vez dos deuses de Lovecraft, o livro usa sobretudo mitologia suméria e babilónica, com nomes lovecraftianos misturados. Dan Harms e John Wisdom Gonce, no livro The Necronomicon Files (2003), mostraram paralelos com traduções académicas de textos mesopotâmicos.
O historiador Owen Davies chama-lhe «uma fraude bem construída». Acrescenta um ponto justo: compilar fontes de várias origens foi sempre a forma normal de fazer grimórios.
É um livro moderno, não um texto antigo. Quem o estuda deve lê-lo como curiosidade do ocultismo do século XX.
Porque é que o mito pega
O Necronomicon funciona porque imita bem os grimórios reais. Estes também diziam ter autores lendários — Salomão, Moisés, São Cipriano — e uma história de manuscritos perdidos e traduções secretas.
A diferença é que, nos grimórios históricos, existem manuscritos reais que os historiadores podem datar. No Necronomicon, não existe nenhum.
➜ História do Livro de São Cipriano
Curiosidades
- Houve quem pusesse fichas falsas do Necronomicon nos catálogos de bibliotecas universitárias.
- O nome passou para filmes, jogos, banda desenhada e música.
- O Simon Necronomicon apareceu num processo criminal nos EUA, nos anos 1990, o que reforçou a sua má fama.
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Fontes
- «Necronomicon», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Simon Necronomicon», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Dan Clore, «Fake Necronomicons» — oocities.org
- Daniel Harms e John Wisdom Gonce III, The Necronomicon Files, Weiser, 2003.
- Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009.