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📚 Grimórios

O Petit Albert e o Grand Albert

O Petit Albert e o Grand Albert: livros de segredos franceses atribuídos a Alberto Magno, a lenda da mão de glória, a venda por colportores e onde ler.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Dois «Albertos» diferentes
  3. Quem foi Alberto Magno
  4. Datas e edições
  5. O que contém
  6. A «mão de glória»
  7. Popularidade: do colportor ao cordel
  8. Um paralelo português
  9. Onde ler
  10. Continue a ler
  11. Fontes

O Petit Albert («Pequeno Alberto») é um dos livros de magia mais lidos da história de França. Durante mais de dois séculos, circulou em edições baratas, levado de aldeia em aldeia por vendedores ambulantes.

Não é um grimório de invocação de demónios. É sobretudo um livro de «segredos»: receitas para o amor, para a lavoura, para a cozinha, para fazer sabão, talismãs astrológicos e remédios populares.

Anda quase sempre acompanhado do seu «irmão mais velho», o Grand Albert. Ambos usam o nome de Alberto Magno, o grande sábio medieval. Nenhum dos dois foi escrito por ele.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Petit Albert («Pequeno Alberto»)
Nome original Secrets merveilleux de la magie naturelle et cabalistique du Petit Albert
Período Fim do séc. XVII ou início do séc. XVIII; muitas reedições no séc. XVIII
Origem França (edições com a marca de Lyon)
Autoria Atribuída a «Alberto Parvo Lúcio» e, por associação, a Alberto Magno; autor real desconhecido
Idioma Francês (diz-se traduzido de um original latino)
Tipo Livro de segredos e magia natural

Dois «Albertos» diferentes

O Grand Albert

O Grand Albert é o mais antigo. O seu núcleo é o Liber secretorum Alberti Magni, «Livro dos segredos de Alberto Magno», sobre as virtudes das ervas, das pedras e dos animais.

Segundo a Wikipédia inglesa, o texto base remonta a meados do século XIII, teve edição latina impressa em 1493 e tradução francesa por volta de 1500. A versão francesa mais conhecida é de 1703. Junta, entre outras coisas, o tratado Dos segredos das mulheres (sobre a gravidez e o corpo feminino, segundo as ideias da época), fisionomia e medicina popular.

O Petit Albert

O Petit Albert não é um resumo do Grand Albert. O folclorista Claude Seignolle mostrou que se trata de um texto distinto.

A página de rosto diz que é traduzido de uma obra latina, Alberti Parvi Lucii Libellus de mirabilibus naturae arcanis. Esse «Alberto Parvo Lúcio» — «Alberto, o Pequeno» — é uma figura inventada, que joga com a fama de Alberto Magno.

Quem foi Alberto Magno

Alberto Magno (c. 1200–1280) foi um frade dominicano, filósofo e naturalista alemão, mestre de São Tomás de Aquino. Foi canonizado em 1931.

Escreveu muito sobre plantas, minerais e animais. Por isso, na Idade Média e depois, muitos livros de receitas e segredos foram postos sob o seu nome para parecerem mais sábios. Os historiadores chamam a estas obras «pseudo-Alberto».

➜ Magia medieval

Datas e edições

As datas da primeira edição do Petit Albert não são consensuais:

  • A Wikipédia francesa refere uma edição de 1668, em Lyon, «chez Beringos»;
  • A Wikipédia inglesa dá como edição mais antiga conhecida a de 1706;
  • Há edições conhecidas de 1752, 1765 e 1782, todas com a mesma marca lionesa dos «herdeiros de Beringos».

O nome do editor é, muito provavelmente, fictício. Era comum nestes livros pôr datas e editores falsos para escapar à censura.

A partir de meados do século XIX, os dois livros passaram a ser vendidos juntos, sob títulos como La grande et véritable science cabalistique.

O que contém

A edição de 1782, transcrita por Joseph H. Peterson, tem 125 secções. Os temas principais são:

  • Amor e sedução, segundo as crenças da época;
  • Agricultura, criação de animais e proteção contra pragas;
  • Receitas de cozinha, como vinhos aromatizados;
  • Sabões, cosméticos e preparados domésticos;
  • Talismãs planetários, inspirados em Paracelso;
  • Alquimia e trabalho de metais;
  • Remédios populares e amuletos de proteção.

O livro não contém invocações de demónios. Muitas receitas pedem ingredientes raros ou impossíveis de obter. Algumas envolvem animais ou substâncias perigosas: são registos históricos, não conselhos, e não os reproduzimos.

➜ Amuletos e talismãs

➜ Amuleto ou talismã: a diferença

A «mão de glória»

O segredo mais famoso do Petit Albert é a mão de glória. Segundo o folclore europeu, era a mão seca de um enforcado, usada como castiçal. Os ladrões acreditavam que a sua luz deixava imóveis as pessoas da casa.

É uma crença de ladrões e um tema de folclore, não uma prática. O museu de Whitby, em Inglaterra, conserva um objeto deste tipo.

Curiosamente, o nome francês main de gloire parece ser uma deformação de mandragore, a mandrágora — planta envolvida em muitas lendas. Esta explicação é do filólogo Walter Skeat.

Popularidade: do colportor ao cordel

O Petit Albert fez parte da enorme literatura popular vendida pelos colportores, vendedores ambulantes que percorriam o campo francês.

Esta literatura é muitas vezes associada à Bibliothèque bleue: livrinhos baratos de capa azulada, nascidos em Troyes no início do século XVII, com vidas de santos, romances de cavalaria, almanaques e manuais práticos. Os dois «Albertos» circulavam no mesmo mercado e ao lado dos almanaques.

Claude Seignolle estimou que se vendiam cerca de 400 mil exemplares por ano só nas Ardenas belgas. Os leitores eram sobretudo camponeses cristãos comuns, não «feiticeiros».

A Igreja, nos séculos XIX e XX, via os dois livros como magia negra. Há relatos de padres que procuravam e confiscavam exemplares. A venda ambulante foi proibida em França entre 1793 e 1815.

O livro chegou também às colónias francesas: foi lido nas Antilhas e em Nova Orleães, onde se misturou com práticas locais. Houve ainda uma edição no Quebeque em 1861.

➜ Grande Grimório

➜ Grimório do Papa Honório

Um paralelo português

Em Portugal e no Brasil, o livro de magia popular por excelência foi o Livro de São Cipriano, também vendido barato e também cheio de «segredos» práticos, tesouros e receitas de amor. As semelhanças de género são claras. Não encontrámos, porém, prova documental de que o Petit Albert tenha sido traduzido ou impresso em Portugal.

➜ História do Livro de São Cipriano

Onde ler

  • Edição de 1782 (Lyon), transcrita por Joseph H. Peterson no site Esoteric Archives, em francês.
  • Edição de 1765 (Lyon), digitalizada pela Wellcome Library e disponível no Internet Archive, em domínio público.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ Grimorium Verum

➜ Alquimia

Fontes

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