O Petit Albert («Pequeno Alberto») é um dos livros de magia mais lidos da história de França. Durante mais de dois séculos, circulou em edições baratas, levado de aldeia em aldeia por vendedores ambulantes.
Não é um grimório de invocação de demónios. É sobretudo um livro de «segredos»: receitas para o amor, para a lavoura, para a cozinha, para fazer sabão, talismãs astrológicos e remédios populares.
Anda quase sempre acompanhado do seu «irmão mais velho», o Grand Albert. Ambos usam o nome de Alberto Magno, o grande sábio medieval. Nenhum dos dois foi escrito por ele.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Petit Albert («Pequeno Alberto») |
| Nome original | Secrets merveilleux de la magie naturelle et cabalistique du Petit Albert |
| Período | Fim do séc. XVII ou início do séc. XVIII; muitas reedições no séc. XVIII |
| Origem | França (edições com a marca de Lyon) |
| Autoria | Atribuída a «Alberto Parvo Lúcio» e, por associação, a Alberto Magno; autor real desconhecido |
| Idioma | Francês (diz-se traduzido de um original latino) |
| Tipo | Livro de segredos e magia natural |
Dois «Albertos» diferentes
O Grand Albert
O Grand Albert é o mais antigo. O seu núcleo é o Liber secretorum Alberti Magni, «Livro dos segredos de Alberto Magno», sobre as virtudes das ervas, das pedras e dos animais.
Segundo a Wikipédia inglesa, o texto base remonta a meados do século XIII, teve edição latina impressa em 1493 e tradução francesa por volta de 1500. A versão francesa mais conhecida é de 1703. Junta, entre outras coisas, o tratado Dos segredos das mulheres (sobre a gravidez e o corpo feminino, segundo as ideias da época), fisionomia e medicina popular.
O Petit Albert
O Petit Albert não é um resumo do Grand Albert. O folclorista Claude Seignolle mostrou que se trata de um texto distinto.
A página de rosto diz que é traduzido de uma obra latina, Alberti Parvi Lucii Libellus de mirabilibus naturae arcanis. Esse «Alberto Parvo Lúcio» — «Alberto, o Pequeno» — é uma figura inventada, que joga com a fama de Alberto Magno.
Quem foi Alberto Magno
Alberto Magno (c. 1200–1280) foi um frade dominicano, filósofo e naturalista alemão, mestre de São Tomás de Aquino. Foi canonizado em 1931.
Escreveu muito sobre plantas, minerais e animais. Por isso, na Idade Média e depois, muitos livros de receitas e segredos foram postos sob o seu nome para parecerem mais sábios. Os historiadores chamam a estas obras «pseudo-Alberto».
Datas e edições
As datas da primeira edição do Petit Albert não são consensuais:
- A Wikipédia francesa refere uma edição de 1668, em Lyon, «chez Beringos»;
- A Wikipédia inglesa dá como edição mais antiga conhecida a de 1706;
- Há edições conhecidas de 1752, 1765 e 1782, todas com a mesma marca lionesa dos «herdeiros de Beringos».
O nome do editor é, muito provavelmente, fictício. Era comum nestes livros pôr datas e editores falsos para escapar à censura.
A partir de meados do século XIX, os dois livros passaram a ser vendidos juntos, sob títulos como La grande et véritable science cabalistique.
O que contém
A edição de 1782, transcrita por Joseph H. Peterson, tem 125 secções. Os temas principais são:
- Amor e sedução, segundo as crenças da época;
- Agricultura, criação de animais e proteção contra pragas;
- Receitas de cozinha, como vinhos aromatizados;
- Sabões, cosméticos e preparados domésticos;
- Talismãs planetários, inspirados em Paracelso;
- Alquimia e trabalho de metais;
- Remédios populares e amuletos de proteção.
O livro não contém invocações de demónios. Muitas receitas pedem ingredientes raros ou impossíveis de obter. Algumas envolvem animais ou substâncias perigosas: são registos históricos, não conselhos, e não os reproduzimos.
➜ Amuleto ou talismã: a diferença
A «mão de glória»
O segredo mais famoso do Petit Albert é a mão de glória. Segundo o folclore europeu, era a mão seca de um enforcado, usada como castiçal. Os ladrões acreditavam que a sua luz deixava imóveis as pessoas da casa.
É uma crença de ladrões e um tema de folclore, não uma prática. O museu de Whitby, em Inglaterra, conserva um objeto deste tipo.
Curiosamente, o nome francês main de gloire parece ser uma deformação de mandragore, a mandrágora — planta envolvida em muitas lendas. Esta explicação é do filólogo Walter Skeat.
Popularidade: do colportor ao cordel
O Petit Albert fez parte da enorme literatura popular vendida pelos colportores, vendedores ambulantes que percorriam o campo francês.
Esta literatura é muitas vezes associada à Bibliothèque bleue: livrinhos baratos de capa azulada, nascidos em Troyes no início do século XVII, com vidas de santos, romances de cavalaria, almanaques e manuais práticos. Os dois «Albertos» circulavam no mesmo mercado e ao lado dos almanaques.
Claude Seignolle estimou que se vendiam cerca de 400 mil exemplares por ano só nas Ardenas belgas. Os leitores eram sobretudo camponeses cristãos comuns, não «feiticeiros».
A Igreja, nos séculos XIX e XX, via os dois livros como magia negra. Há relatos de padres que procuravam e confiscavam exemplares. A venda ambulante foi proibida em França entre 1793 e 1815.
O livro chegou também às colónias francesas: foi lido nas Antilhas e em Nova Orleães, onde se misturou com práticas locais. Houve ainda uma edição no Quebeque em 1861.
Um paralelo português
Em Portugal e no Brasil, o livro de magia popular por excelência foi o Livro de São Cipriano, também vendido barato e também cheio de «segredos» práticos, tesouros e receitas de amor. As semelhanças de género são claras. Não encontrámos, porém, prova documental de que o Petit Albert tenha sido traduzido ou impresso em Portugal.
➜ História do Livro de São Cipriano
Onde ler
- Edição de 1782 (Lyon), transcrita por Joseph H. Peterson no site Esoteric Archives, em francês.
- Edição de 1765 (Lyon), digitalizada pela Wellcome Library e disponível no Internet Archive, em domínio público.
Continue a ler
➜ Alquimia
Fontes
- «Petit Albert», Wikipédia francesa — fr.wikipedia.org
- «Grand Albert», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Hand of Glory», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Joseph H. Peterson (ed.), Le Petit Albert (1782) — esotericarchives.com
- «Bibliothèque bleue», Wikipédia francesa — fr.wikipedia.org