O Livro Jurado de Honório — em latim Liber Juratus Honorii — é um dos grimórios medievais mais antigos que chegaram até nós. É também um dos mais ambiciosos: o seu objetivo principal declarado é alcançar, ainda em vida, a visão de Deus.
Chama-se «jurado» porque, segundo o próprio livro, só podia passar a quem fizesse um juramento solene de segredo.
Não confundir com o Grimório do Papa Honório, um livro francês muito posterior que apenas lhe tomou o nome.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Livro Jurado de Honório |
| Nome original | Liber Juratus Honorii (também Liber Sacer, «Livro Sagrado») |
| Período | Séc. XIII (provável); primeiro registo seguro em 1347 |
| Origem | Europa ocidental, meio cristão latino |
| Autoria | Atribuída a «Honório, filho de Euclides, mestre de Tebas»; autor real desconhecido |
| Idiomas | Latim; versões inglesas do séc. XVI |
| Tipo | Magia teúrgica e angélica, com operações sobre espíritos |
A lenda do juramento
O prólogo conta uma história dramática. Espíritos malignos teriam espalhado a magia maligna pelo mundo, e o papa e os cardeais decidiram condenar e perseguir todos os mágicos.
Os mágicos reuniram então um concílio de 89 mestres, vindos de Nápoles, Atenas e Toledo. Escolheram Honório, filho de Euclides, mestre de Tebas, para salvar o essencial do seu saber num só livro. Segundo o texto, Honório trabalhou com a ajuda de um anjo, Hocroel.
O resultado foi um livro de 93 capítulos, protegido por regras rigorosas:
- Só se podiam fazer três cópias;
- Só passava a um homem de fé comprovada, depois de um ano de prova;
- O dono só o entregava quando estivesse perto da morte;
- Se não houvesse herdeiro digno, o livro devia ser enterrado com ele.
Tudo isto é lenda. Não há qualquer prova de que Honório de Tebas tenha existido, nem de que o concílio se tenha realizado. É uma moldura narrativa que dá ao livro mistério e autoridade.
Origem real
Os historiadores situam a composição no século XIII. Um Liber Sacer é talvez mencionado já nesse século, mas o primeiro registo seguro é de 1347: o processo de Étienne Pépin, em Mende, no sul de França.
A escolha de «Tebas» e de um «filho de Euclides» evoca o Egito antigo e a sabedoria grega — o mesmo recurso que outros grimórios usaram com Salomão ou Moisés.
Os manuscritos
O livro sobreviveu em vários manuscritos, a maioria na British Library, em Londres. Os principais, segundo a edição de Joseph H. Peterson:
| Manuscrito | Informação |
|---|---|
| Sloane 3854 | Séc. XIV; o mais antigo e considerado o mais completo |
| Sloane 313 | Fim do séc. XIV ou início do XV; tem notas de John Dee |
| Royal 17 A XLII | Meados do séc. XVI; versão em inglês |
| Sloane 3853 | Meados do séc. XVI |
| Sloane 3885 | Datado de 1588 |
Existe também uma versão ligada a Berengario Ganell, que usa orações de outro texto medieval, o Livro das Três Almas.
John Dee e o Selo de Deus
O matemático e astrólogo inglês John Dee (1527–1608/9) teve o manuscrito Sloane 313 e anotou-o. O livro contém o Sigillum Dei, o «Selo de Deus», um grande diagrama circular com nomes divinos e angélicos.
Dee comparou várias versões do selo e, segundo o seu próprio relato, consultou os anjos para resolver as diferenças. Daí nasceu uma versão nova do selo, ligada à sua magia enoquiana.
O que contém
O livro divide-se em partes que vão do mais elevado ao mais terreno. Os seus objetivos declarados são:
- A visão de Deus (a «visão beatífica»), fim principal da obra;
- O conhecimento dos anjos e dos seus poderes;
- O conhecimento do purgatório e do inferno;
- O domínio sobre os espíritos dos elementos e os demónios;
- Fins práticos: encontrar ladrões, descobrir tesouros, entre outros.
O texto insiste que só o cristão batizado pode chegar à verdadeira visão de Deus, e distingue-o dos praticantes judeus e pagãos. É, portanto, um livro profundamente cristão na linguagem — mas a Igreja via este tipo de magia como ilícita.
A obra é longa e cheia de orações, nomes divinos e preparações. Não reproduzimos as orações nem as conjurações.
A relação com a Ars Notoria
A Ars Notoria («Arte Notória») é outro texto medieval latino, do fim do séc. XII ou início do XIII, provavelmente do norte de Itália, atribuído a Salomão. Promete, através de orações e figuras, obter conhecimento e memória — aprender as artes liberais sem esforço, segundo a crença.
O Livro Jurado está muito ligado a ela: o prólogo diz que algumas das orações da versão «setentrional» vêm da Ars Notoria. As duas obras mostram uma corrente de magia de oração e de anjos, diferente da magia popular de receitas.
Livro Jurado e Grimório do Papa Honório: a diferença
| Obra | O que é |
|---|---|
| Livro Jurado de Honório | Séc. XIII, latim; atribuído a Honório de Tebas; busca da visão de Deus |
| Grimório do Papa Honório | Edição mais antiga conhecida de 1629, França; falsamente atribuído ao papa Honório III |
O Grimório do Papa Honório terá ido buscar o nome ao Livro Jurado, mas o seu conteúdo está mais próximo da Clavícula de Salomão e do Grimorium Verum.
Onde ler
O site Esoteric Archives, de Joseph H. Peterson, tem uma edição do Liber Juratus baseada nos manuscritos da British Library, com o texto latino e inglês.
Continue a ler
➜ Picatrix
➜ Os anjos no Livro de São Cipriano
Fontes
- «Sworn Book of Honorius», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Joseph H. Peterson (ed.), Liber Juratus Honorii — esotericarchives.com
- «Grimoire of Pope Honorius», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Gösta Hedegård (ed.), Liber Iuratus Honorii: A Critical Edition of the Latin Version of the Sworn Book of Honorius, Almqvist & Wiksell, 2002.
- Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009.