Saltar para o conteúdo

📚 Grimórios

O Livro Jurado de Honório (Liber Juratus Honorii)

O Livro Jurado de Honório, grimório medieval latino atribuído a «Honório de Tebas»: a lenda do juramento, a visão de Deus, os manuscritos e John Dee.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. A lenda do juramento
  3. Origem real
  4. Os manuscritos
  5. O que contém
  6. A relação com a Ars Notoria
  7. Livro Jurado e Grimório do Papa Honório: a diferença
  8. Onde ler
  9. Continue a ler
  10. Fontes

O Livro Jurado de Honório — em latim Liber Juratus Honorii — é um dos grimórios medievais mais antigos que chegaram até nós. É também um dos mais ambiciosos: o seu objetivo principal declarado é alcançar, ainda em vida, a visão de Deus.

Chama-se «jurado» porque, segundo o próprio livro, só podia passar a quem fizesse um juramento solene de segredo.

Não confundir com o Grimório do Papa Honório, um livro francês muito posterior que apenas lhe tomou o nome.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Livro Jurado de Honório
Nome original Liber Juratus Honorii (também Liber Sacer, «Livro Sagrado»)
Período Séc. XIII (provável); primeiro registo seguro em 1347
Origem Europa ocidental, meio cristão latino
Autoria Atribuída a «Honório, filho de Euclides, mestre de Tebas»; autor real desconhecido
Idiomas Latim; versões inglesas do séc. XVI
Tipo Magia teúrgica e angélica, com operações sobre espíritos

A lenda do juramento

O prólogo conta uma história dramática. Espíritos malignos teriam espalhado a magia maligna pelo mundo, e o papa e os cardeais decidiram condenar e perseguir todos os mágicos.

Os mágicos reuniram então um concílio de 89 mestres, vindos de Nápoles, Atenas e Toledo. Escolheram Honório, filho de Euclides, mestre de Tebas, para salvar o essencial do seu saber num só livro. Segundo o texto, Honório trabalhou com a ajuda de um anjo, Hocroel.

O resultado foi um livro de 93 capítulos, protegido por regras rigorosas:

  • Só se podiam fazer três cópias;
  • Só passava a um homem de fé comprovada, depois de um ano de prova;
  • O dono só o entregava quando estivesse perto da morte;
  • Se não houvesse herdeiro digno, o livro devia ser enterrado com ele.

Tudo isto é lenda. Não há qualquer prova de que Honório de Tebas tenha existido, nem de que o concílio se tenha realizado. É uma moldura narrativa que dá ao livro mistério e autoridade.

Origem real

Os historiadores situam a composição no século XIII. Um Liber Sacer é talvez mencionado já nesse século, mas o primeiro registo seguro é de 1347: o processo de Étienne Pépin, em Mende, no sul de França.

A escolha de «Tebas» e de um «filho de Euclides» evoca o Egito antigo e a sabedoria grega — o mesmo recurso que outros grimórios usaram com Salomão ou Moisés.

➜ Magia medieval

Os manuscritos

O livro sobreviveu em vários manuscritos, a maioria na British Library, em Londres. Os principais, segundo a edição de Joseph H. Peterson:

Manuscrito Informação
Sloane 3854 Séc. XIV; o mais antigo e considerado o mais completo
Sloane 313 Fim do séc. XIV ou início do XV; tem notas de John Dee
Royal 17 A XLII Meados do séc. XVI; versão em inglês
Sloane 3853 Meados do séc. XVI
Sloane 3885 Datado de 1588

Existe também uma versão ligada a Berengario Ganell, que usa orações de outro texto medieval, o Livro das Três Almas.

John Dee e o Selo de Deus

O matemático e astrólogo inglês John Dee (1527–1608/9) teve o manuscrito Sloane 313 e anotou-o. O livro contém o Sigillum Dei, o «Selo de Deus», um grande diagrama circular com nomes divinos e angélicos.

Dee comparou várias versões do selo e, segundo o seu próprio relato, consultou os anjos para resolver as diferenças. Daí nasceu uma versão nova do selo, ligada à sua magia enoquiana.

➜ Angelologia

➜ Hexagrama e Selo de Salomão

O que contém

O livro divide-se em partes que vão do mais elevado ao mais terreno. Os seus objetivos declarados são:

  • A visão de Deus (a «visão beatífica»), fim principal da obra;
  • O conhecimento dos anjos e dos seus poderes;
  • O conhecimento do purgatório e do inferno;
  • O domínio sobre os espíritos dos elementos e os demónios;
  • Fins práticos: encontrar ladrões, descobrir tesouros, entre outros.

O texto insiste que só o cristão batizado pode chegar à verdadeira visão de Deus, e distingue-o dos praticantes judeus e pagãos. É, portanto, um livro profundamente cristão na linguagem — mas a Igreja via este tipo de magia como ilícita.

A obra é longa e cheia de orações, nomes divinos e preparações. Não reproduzimos as orações nem as conjurações.

A relação com a Ars Notoria

A Ars Notoria («Arte Notória») é outro texto medieval latino, do fim do séc. XII ou início do XIII, provavelmente do norte de Itália, atribuído a Salomão. Promete, através de orações e figuras, obter conhecimento e memória — aprender as artes liberais sem esforço, segundo a crença.

O Livro Jurado está muito ligado a ela: o prólogo diz que algumas das orações da versão «setentrional» vêm da Ars Notoria. As duas obras mostram uma corrente de magia de oração e de anjos, diferente da magia popular de receitas.

➜ Magia cerimonial

Livro Jurado e Grimório do Papa Honório: a diferença

Obra O que é
Livro Jurado de Honório Séc. XIII, latim; atribuído a Honório de Tebas; busca da visão de Deus
Grimório do Papa Honório Edição mais antiga conhecida de 1629, França; falsamente atribuído ao papa Honório III

O Grimório do Papa Honório terá ido buscar o nome ao Livro Jurado, mas o seu conteúdo está mais próximo da Clavícula de Salomão e do Grimorium Verum.

➜ Grimório do Papa Honório

Onde ler

O site Esoteric Archives, de Joseph H. Peterson, tem uma edição do Liber Juratus baseada nos manuscritos da British Library, com o texto latino e inglês.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ Heptameron

➜ Picatrix

➜ Os anjos no Livro de São Cipriano

Fontes

  • «Sworn Book of Honorius», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Joseph H. Peterson (ed.), Liber Juratus Honorii — esotericarchives.com
  • «Grimoire of Pope Honorius», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Gösta Hedegård (ed.), Liber Iuratus Honorii: A Critical Edition of the Latin Version of the Sworn Book of Honorius, Almqvist & Wiksell, 2002.
  • Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009.

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Grimórios ›