O Picatrix é o mais importante tratado de magia astral e talismânica que a Idade Média europeia recebeu do mundo islâmico. Foi escrito em árabe, na Península Ibérica muçulmana — o al-Andalus.
No século XIII, o rei Afonso X de Castela, avô do nosso rei D. Dinis, mandou traduzi-lo. Por essa porta ibérica, o livro entrou na Europa cristã e chegou aos filósofos do Renascimento.
Não é um livro de demónios. É uma obra erudita sobre a ideia de que os astros influenciam o mundo e de que essa influência pode ser «captada» em imagens e objetos.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | Picatrix |
| Nome original | Ghāyat al-Ḥakīm (غاية الحكيم), «O Fim (ou Objetivo) do Sábio» |
| Período | Séc. X–XI (datação discutida) |
| Origem | Al-Andalus (Península Ibérica islâmica) |
| Autoria | Atribuída a Maslama al-Majriti, atribuição hoje rejeitada; autor real incerto |
| Idiomas | Árabe; traduções castelhana (perdida) e latina |
| Tipo | Magia astral e talismânica, filosofia hermética |
Quem o escreveu?
Durante muito tempo, o livro foi atribuído a Maslama al-Majriti, astrónomo de Córdoba (morto por volta de 1005–1008). Essa atribuição é considerada falsa: o próprio texto diz ter sido concluído em 348 da Hégira (cerca de 959), quando Maslama seria ainda criança.
Estudos recentes propõem outro autor: Maslama ibn Qāsim al-Qurṭubī (morto em 964), ligado ao sufismo andaluz. A maioria dos estudiosos situa a composição em meados do século XI, mas há argumentos para o século X.
A autoria continua em debate. O que é seguro é a origem andaluza.
O nome «Picatrix»
O título latino não é tradução do árabe. Parece ser a deformação de um nome de autor citado no texto, talvez «Buqratis». A antiga ideia de que viria de «Hipócrates» caiu em desuso.
A ligação ibérica: Afonso X, o Sábio
Afonso X de Castela (reinou 1252–1284) fez da sua corte um grande centro de tradução do árabe. Daí saíram obras de astronomia, astrologia e sobre as virtudes das pedras.
Segundo a Wikipédia, entre 1256 e 1258 o rei mandou traduzir o Ghāyat al-Ḥakīm para castelhano. A partir dessa versão fez-se uma tradução latina, com o título Picatrix.
A versão castelhana perdeu-se. Foi a latina que se espalhou pela Europa e teve grande sucesso entre os séculos XV e XVIII.
O original árabe só voltou a ser conhecido dos estudiosos ocidentais por volta de 1920.
O que contém
É uma obra longa — cerca de 400 páginas — dividida em quatro livros. Funciona como um manual de magia talismânica, mas também como uma enciclopédia filosófica.
- Teoria: o universo como cadeia de influências, dos astros até à matéria; o sábio que conhece essa cadeia pode trabalhar com ela.
- As 28 mansões lunares: posições da Lua usadas para escolher o momento de cada operação.
- Talismãs: imagens gravadas em pedras ou metais em momentos astrológicos escolhidos.
- Os planetas: as suas cores, pedras, plantas, perfumes e figuras.
- Orações e rituais dirigidos aos planetas, ligados às tradições dos «sabeus».
Algumas preparações descritas envolvem animais e substâncias tóxicas. São testemunhos históricos, não práticas a seguir, e não as reproduzimos.
As fontes do livro
O autor junta materiais muito variados: textos atribuídos a Jābir ibn Ḥayyān, a enciclopédia dos Irmãos da Pureza, a Agricultura Nabateia, tradições herméticas, sabeias, alquímicas e autoridades indianas, que cita muitas vezes.
➜ Alquimia
Facto astronómico e interpretação mágica
As mansões lunares e as posições dos planetas são medições astronómicas reais, feitas pela ciência árabe da época.
A ideia de que essas posições dão poder a uma imagem gravada é uma crença mágica, não um facto demonstrado. O Picatrix é valioso como documento de história das ideias, não como prova de eficácia.
Influência no Renascimento
O Picatrix marcou a magia erudita europeia. Segundo a Wikipédia, influenciou Marsílio Ficino no século XV e Tommaso Campanella no século XVII.
Ficino publicou em 1489 os Três Livros sobre a Vida. O terceiro, De vita coelitus comparanda, trata das influências dos astros e inclui talismãs e remédios — ideias próximas das do Picatrix.
Por esta via, a magia astral árabe contribuiu para a chamada «magia natural» do Renascimento, que Agrippa e outros autores desenvolveram.
➜ A Filosofia Oculta de Agrippa
Curiosidades
- O Picatrix é um dos raros grimórios de origem ibérica documentada, ao contrário do Livro de São Cipriano, cuja fama ibérica é sobretudo de tradição popular.
- Hoje é estudado em universidades como fonte para a história da ciência, da astrologia e das trocas culturais entre o Islão e a Europa.
Edições modernas
- Hellmut Ritter — edição crítica do texto árabe (1933).
- Ritter e Martin Plessner — tradução alemã (1962).
- David Pingree — edição crítica da versão latina (1986).
- Christopher Warnock e John Michael Greer — tradução inglesa da versão latina (2010–2011).
- Dan Attrell e David Porreca — tradução inglesa da versão latina, com introdução académica (2019).
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Fontes
- «Picatrix», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Picatrix», Wikipedia em espanhol — es.wikipedia.org
- Joseph H. Peterson, «Picatrix» (resumo e bibliografia) — esotericarchives.com
- «De vita libri tres», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Dan Attrell e David Porreca (trad.), Picatrix: A Medieval Treatise on Astral Magic, Penn State University Press, 2019.