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📚 Grimórios

Picatrix, o grande livro de magia astral do al-Andalus

O Picatrix, «O Fim do Sábio»: tratado árabe de magia astral do al-Andalus, traduzido na corte de Afonso X no séc. XIII, e a sua influência em Ficino.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha do grimório
  2. Quem o escreveu?
  3. O nome «Picatrix»
  4. A ligação ibérica: Afonso X, o Sábio
  5. O que contém
  6. Facto astronómico e interpretação mágica
  7. Influência no Renascimento
  8. Curiosidades
  9. Edições modernas
  10. Continue a ler
  11. Fontes

O Picatrix é o mais importante tratado de magia astral e talismânica que a Idade Média europeia recebeu do mundo islâmico. Foi escrito em árabe, na Península Ibérica muçulmana — o al-Andalus.

No século XIII, o rei Afonso X de Castela, avô do nosso rei D. Dinis, mandou traduzi-lo. Por essa porta ibérica, o livro entrou na Europa cristã e chegou aos filósofos do Renascimento.

Não é um livro de demónios. É uma obra erudita sobre a ideia de que os astros influenciam o mundo e de que essa influência pode ser «captada» em imagens e objetos.

Ficha do grimório

Campo Informação
Título Picatrix
Nome original Ghāyat al-Ḥakīm (غاية الحكيم), «O Fim (ou Objetivo) do Sábio»
Período Séc. X–XI (datação discutida)
Origem Al-Andalus (Península Ibérica islâmica)
Autoria Atribuída a Maslama al-Majriti, atribuição hoje rejeitada; autor real incerto
Idiomas Árabe; traduções castelhana (perdida) e latina
Tipo Magia astral e talismânica, filosofia hermética

Quem o escreveu?

Durante muito tempo, o livro foi atribuído a Maslama al-Majriti, astrónomo de Córdoba (morto por volta de 1005–1008). Essa atribuição é considerada falsa: o próprio texto diz ter sido concluído em 348 da Hégira (cerca de 959), quando Maslama seria ainda criança.

Estudos recentes propõem outro autor: Maslama ibn Qāsim al-Qurṭubī (morto em 964), ligado ao sufismo andaluz. A maioria dos estudiosos situa a composição em meados do século XI, mas há argumentos para o século X.

A autoria continua em debate. O que é seguro é a origem andaluza.

O nome «Picatrix»

O título latino não é tradução do árabe. Parece ser a deformação de um nome de autor citado no texto, talvez «Buqratis». A antiga ideia de que viria de «Hipócrates» caiu em desuso.

A ligação ibérica: Afonso X, o Sábio

Afonso X de Castela (reinou 1252–1284) fez da sua corte um grande centro de tradução do árabe. Daí saíram obras de astronomia, astrologia e sobre as virtudes das pedras.

Segundo a Wikipédia, entre 1256 e 1258 o rei mandou traduzir o Ghāyat al-Ḥakīm para castelhano. A partir dessa versão fez-se uma tradução latina, com o título Picatrix.

A versão castelhana perdeu-se. Foi a latina que se espalhou pela Europa e teve grande sucesso entre os séculos XV e XVIII.

O original árabe só voltou a ser conhecido dos estudiosos ocidentais por volta de 1920.

➜ Magia medieval

➜ História da astrologia

O que contém

É uma obra longa — cerca de 400 páginas — dividida em quatro livros. Funciona como um manual de magia talismânica, mas também como uma enciclopédia filosófica.

  • Teoria: o universo como cadeia de influências, dos astros até à matéria; o sábio que conhece essa cadeia pode trabalhar com ela.
  • As 28 mansões lunares: posições da Lua usadas para escolher o momento de cada operação.
  • Talismãs: imagens gravadas em pedras ou metais em momentos astrológicos escolhidos.
  • Os planetas: as suas cores, pedras, plantas, perfumes e figuras.
  • Orações e rituais dirigidos aos planetas, ligados às tradições dos «sabeus».

Algumas preparações descritas envolvem animais e substâncias tóxicas. São testemunhos históricos, não práticas a seguir, e não as reproduzimos.

As fontes do livro

O autor junta materiais muito variados: textos atribuídos a Jābir ibn Ḥayyān, a enciclopédia dos Irmãos da Pureza, a Agricultura Nabateia, tradições herméticas, sabeias, alquímicas e autoridades indianas, que cita muitas vezes.

➜ Hermetismo

➜ Alquimia

Facto astronómico e interpretação mágica

As mansões lunares e as posições dos planetas são medições astronómicas reais, feitas pela ciência árabe da época.

A ideia de que essas posições dão poder a uma imagem gravada é uma crença mágica, não um facto demonstrado. O Picatrix é valioso como documento de história das ideias, não como prova de eficácia.

Influência no Renascimento

O Picatrix marcou a magia erudita europeia. Segundo a Wikipédia, influenciou Marsílio Ficino no século XV e Tommaso Campanella no século XVII.

Ficino publicou em 1489 os Três Livros sobre a Vida. O terceiro, De vita coelitus comparanda, trata das influências dos astros e inclui talismãs e remédios — ideias próximas das do Picatrix.

Por esta via, a magia astral árabe contribuiu para a chamada «magia natural» do Renascimento, que Agrippa e outros autores desenvolveram.

➜ Magia renascentista

➜ A Filosofia Oculta de Agrippa

Curiosidades

  • O Picatrix é um dos raros grimórios de origem ibérica documentada, ao contrário do Livro de São Cipriano, cuja fama ibérica é sobretudo de tradição popular.
  • Hoje é estudado em universidades como fonte para a história da ciência, da astrologia e das trocas culturais entre o Islão e a Europa.

Edições modernas

  • Hellmut Ritter — edição crítica do texto árabe (1933).
  • Ritter e Martin Plessner — tradução alemã (1962).
  • David Pingree — edição crítica da versão latina (1986).
  • Christopher Warnock e John Michael Greer — tradução inglesa da versão latina (2010–2011).
  • Dan Attrell e David Porreca — tradução inglesa da versão latina, com introdução académica (2019).

Estas edições estão protegidas por direitos de autor. Não indicamos cópias gratuitas porque não confirmámos nenhuma em domínio público.

Continue a ler

➜ Biblioteca de grimórios

➜ Livro Jurado de Honório

➜ Chave de Salomão

Fontes

  • «Picatrix», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Picatrix», Wikipedia em espanhol — es.wikipedia.org
  • Joseph H. Peterson, «Picatrix» (resumo e bibliografia) — esotericarchives.com
  • «De vita libri tres», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Dan Attrell e David Porreca (trad.), Picatrix: A Medieval Treatise on Astral Magic, Penn State University Press, 2019.

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