As cartas de tocar eram pequenos papéis (às vezes outros objetos) com palavras, nomes, cruzes ou sinais escritos. Segundo a crença, bastava fazê-los tocar na pessoa desejada para lhe despertar o amor ou o desejo.
Hoje conhecemo-las sobretudo por uma razão: aparecem nos processos da Inquisição, em Portugal e no Brasil colonial, ao lado das orações amatórias e das bolsas de mandinga.
Esta página é histórica. Explica o que eram, quem as usava e porque eram perseguidas. Não reproduz nenhuma fórmula para usar: uma prática que pretende dobrar a vontade de outra pessoa não tem lugar numa biblioteca que respeita os leitores.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Carta de tocar; papel de tocar |
| Tipo | Objeto de magia amorosa (popular) |
| Época documentada | Séculos XVI a XVIII |
| Onde | Portugal, ilhas e Brasil colonial |
| Conteúdo, segundo os processos | Nomes, palavras, cruzes, por vezes o signo-saimão |
| Fonte principal | Denúncias e processos da Inquisição |
O que eram
A historiadora Laura de Mello e Souza, em O Diabo e a Terra de Santa Cruz (1986), descreve-as como objetos onde se escrevia o nome da pessoa amada. A ideia central era o contacto: o que tocava a pessoa transmitia-lhe o «feitiço».
Os papéis descritos nas denúncias tinham, conforme o caso:
- nomes (o da pessoa desejada, por vezes o de quem encomendava);
- palavras de orações, muitas vezes deformadas ou fora do contexto;
- cruzes e sinais, entre eles o signo-saimão (a estrela de Salomão);
- em alguns casos, paródias de textos sagrados, como um «credo às avessas».
O princípio é antigo e muito espalhado: a chamada magia por contacto, em que um objeto age sobre quem o toca. Os historiadores relacionam as cartas de tocar com outras formas ibéricas de magia amorosa, em que se escrevia o nome do amado em favas ou noutros objetos.
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O que mostram os processos (facto documentado)
Os casos mais estudados vêm do Brasil colonial, onde a Inquisição de Lisboa recebeu muitas denúncias. Alguns exemplos citados pelos historiadores:
- em Salvador da Bahia, uma mulher (Isabel Roiz, isto é, Rodrigues) foi denunciada por vender cartas de tocar, e um homem (Francisco Roiz) por as usar para atrair mulheres;
- em Minas Gerais, no século XVIII, uma mulher chamada Águeda tinha «um papel com algumas palavras e cruzes» para seduzir;
- no Recife, um homem trazia um papel com o signo-saimão e o credo às avessas, para «fechar o corpo» e, dizia-se, sujeitar as mulheres que lhe tocassem;
- no Pará, Adrião Pereira foi processado por usar cartas de tocar invocando o nome do diabo.
Repare-se no pormenor do Recife: o mesmo papel servia para proteção e para sedução. Na prática popular, as fronteiras eram difusas.
Cartas de tocar e bolsas de mandinga
As cartas de tocar viviam ao lado das bolsas de mandinga: saquinhos levados ao pescoço ou no braço para proteger o corpo de facadas e feridas.
A historiadora Daniela Calainho estudou os casos de Lisboa. Encontrou bolsas com papéis escritos com orações e cruzes, pedaços de pedra d'ara (a pedra consagrada do altar) e outros materiais. Em 1731, por exemplo, Joseph Francisco Pereira foi acusado em Lisboa de fornecer mandingas com orações copiadas.
Ou seja: o papel escrito era um elemento comum a vários tipos de magia, de amor e de proteção.
Porque a Inquisição as perseguia
Para os inquisidores, estas práticas eram graves por duas razões:
- usavam palavras e objetos sagrados fora do culto (orações, cruzes, por vezes pedra d'ara), o que era visto como superstição e sacrilégio;
- pretendiam forçar a vontade de outra pessoa, o que implicava, aos olhos da Igreja, um pacto implícito com o demónio.
O historiador Francisco Bethencourt, em O Imaginário da Magia (1987), estudou as feiticeiras, adivinhos e curandeiros do Portugal do século XVI e os serviços que lhes eram pedidos, entre eles a magia amorosa. José Pedro Paiva estudou a perseguição destas práticas entre 1600 e 1774, num país onde, ao contrário de grande parte da Europa, não houve uma grande caça às bruxas.
➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa
Um olhar de hoje
As cartas de tocar dizem muito sobre o desejo, a solidão e a falta de poder de quem as encomendava, muitas vezes mulheres pobres ou escravizados. Mas a ideia que as move, a de conquistar alguém sem o seu consentimento, é precisamente a que hoje rejeitamos.
Não há qualquer prova de que um papel faça alguém amar. Uma relação que valha a pena começa com duas vontades livres.
Continue a ler
➜ Oração de São Marcos e o «amansar»
➜ Bruxas e feiticeiras famosas da história portuguesa
➜ O amor no Livro de São Cipriano
Fontes
- Laura de Mello e Souza, O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial, Companhia das Letras, 1986.
- Francisco Bethencourt, O Imaginário da Magia: feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal no século XVI, Lisboa, Universidade Aberta, 1987 (2.ª ed. Companhia das Letras, 2004).
- José Pedro Paiva, Bruxaria e Superstição num País sem «Caça às Bruxas» (1600–1774), Lisboa, Notícias, 1997.
- Daniela Buono Calainho, «Jambacousses e Gangazambes: feiticeiros negros em Portugal», Afro-Ásia, 25–26, 2001, pp. 141–176 — redalyc.org (PDF)
- Taissa Tavernard de Luca e Fábio Oliveira de Sena, «As magias de amor: das notícias históricas aos sortilégios realizados nos terreiros de Belém», Caminhos, 2021 — seer.pucgoias.edu.br