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🏺 Tradição Portuguesa

Beiras: tradições ocultas e populares

Jaime Lopes Dias e a Etnografia da Beira, Monsanto e as marafonas, a encomendação das almas, lobisomens, benzeduras e os cristãos-novos de Belmonte, com fontes.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Jaime Lopes Dias e a Etnografia da Beira
  2. Idanha-a-Nova e as orações cantadas
  3. Monsanto, a Festa das Cruzes e as marafonas
  4. Benzeduras e males populares
  5. Lobisomens e «correr o fado»
  6. Os cristãos-novos de Belmonte
  7. Continue a ler
  8. Fontes

As Beiras, entre a serra da Estrela, a raia espanhola e o Tejo, guardaram durante séculos um mundo de crenças, rezas e superstições. Muito dele chegou até nós graças a etnógrafos que o registaram antes de desaparecer.

Aqui reunimos as tradições mais bem documentadas da região, separando o que é registo etnográfico, o que é lenda e o que é crença.

Jaime Lopes Dias e a Etnografia da Beira

A obra de referência é a Etnografia da Beira, de Jaime Lopes Dias (1890–1977). Formado em Direito em Coimbra, foi notário em Idanha-a-Nova a partir de 1914 e mais tarde dirigiu serviços culturais da Câmara de Lisboa.

A Etnografia da Beira saiu em onze volumes, o primeiro em 1926. O subtítulo do primeiro volume resume o conteúdo: «lendas, costumes, crenças e superstições». Concentra-se sobretudo na Beira Baixa e o primeiro volume teve edição da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova.

É a fonte principal para quem quer conhecer as rezas, as lendas e as crenças populares da região.

Idanha-a-Nova e as orações cantadas

O concelho de Idanha-a-Nova mantém viva uma tradição de orações cantadas na Quaresma. A mais impressionante é a Encomendação das Almas: as mulheres «encomendadoras» cantam orações pelas almas do Purgatório.

A Câmara publica todos os anos a agenda «Mistérios da Páscoa em Idanha», com cantares, procissões e rituais quaresmais em várias freguesias, de fevereiro a maio.

Estas orações são devoção católica popular, não magia. Mas mostram como a relação com os mortos, as «almas penadas», ocupava um lugar central na vida das aldeias.

➜ As alminhas

➜ Oração às almas

Monsanto, a Festa das Cruzes e as marafonas

Monsanto, no concelho de Idanha-a-Nova, celebra a Festa da Divina Santa Cruz no dia 3 de maio (ou no domingo seguinte). Os rapazes e raparigas dançam com as marafonas.

A marafona é uma boneca de trapos sobre uma cruz de madeira, sem olhos, boca, nariz nem ouvidos. Segundo a crença popular:

  • deixada em cima da cama, protegia a casa das trovoadas e do mau-olhado;
  • posta debaixo da cama dos noivos, trazia fertilidade ao casal;
  • não tem sentidos porque «não vê, não ouve e não conta».

A lenda da festa conta que, num cerco ao castelo, os habitantes puseram bonecas a dançar nas ameias para fingir que tinham forças e mantimentos. Os sitiantes teriam desistido. É uma lenda local, sem confirmação histórica.

➜ Amuletos portugueses

Benzeduras e males populares

Nas Beiras, como em todo o país, as benzedeiras rezavam o mau-olhado, o cobrão e a espinhela caída, com orações cristãs e fórmulas antigas. A Inquisição chamava a estas fórmulas ensalmos e perseguia quem as usava fora do controlo da Igreja.

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

Estas práticas são tradição. Doenças como a zona (cobrão) precisam de médico, e quanto mais cedo melhor.

Lobisomens e «correr o fado»

O lobisomem é uma das figuras mais conhecidas do folclore beirão. Segundo a crença, se uma mulher tivesse sete filhos rapazes seguidos, o sétimo seria lobisomem. De noite, teria de «correr o fado», passando por sete adros (os largos das igrejas).

Em Tabuaço (distrito de Viseu) conta-se a lenda de um rapaz assim, que só foi libertado quando alguém o picou com uma aguilhada numa encruzilhada. Ainda hoje se diz aí de quem anda numa correria: «estás como os lobisomens, a correr sete adros».

É folclore: não há qualquer caso documentado. A mesma crença do sétimo filho deu também origem, noutras terras, aos saludadores, que teriam o dom de curar.

➜ Os saludadores

Os cristãos-novos de Belmonte

A Beira tem também uma história única: em Belmonte, uma comunidade de criptojudeus manteve em segredo orações e costumes judaicos durante cerca de quatro séculos, desde a conversão forçada de 1497.

O engenheiro Samuel Schwarz encontrou os primeiros sinais desta comunidade em 1917. Publicou o estudo Os Cristãos-Novos em Portugal no Século XX (1925), que deu a conhecer as suas orações ao mundo.

Como em Trás-os-Montes, estas orações eram religião escondida da Inquisição, não feitiçaria.

➜ Trás-os-Montes: cristãos-novos e orações secretas

➜ A Inquisição em Portugal

Continue a ler

➜ Minho: bruxaria e superstições

➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas e populares

Fontes

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