As Beiras, entre a serra da Estrela, a raia espanhola e o Tejo, guardaram durante séculos um mundo de crenças, rezas e superstições. Muito dele chegou até nós graças a etnógrafos que o registaram antes de desaparecer.
Aqui reunimos as tradições mais bem documentadas da região, separando o que é registo etnográfico, o que é lenda e o que é crença.
Jaime Lopes Dias e a Etnografia da Beira
A obra de referência é a Etnografia da Beira, de Jaime Lopes Dias (1890–1977). Formado em Direito em Coimbra, foi notário em Idanha-a-Nova a partir de 1914 e mais tarde dirigiu serviços culturais da Câmara de Lisboa.
A Etnografia da Beira saiu em onze volumes, o primeiro em 1926. O subtítulo do primeiro volume resume o conteúdo: «lendas, costumes, crenças e superstições». Concentra-se sobretudo na Beira Baixa e o primeiro volume teve edição da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova.
É a fonte principal para quem quer conhecer as rezas, as lendas e as crenças populares da região.
Idanha-a-Nova e as orações cantadas
O concelho de Idanha-a-Nova mantém viva uma tradição de orações cantadas na Quaresma. A mais impressionante é a Encomendação das Almas: as mulheres «encomendadoras» cantam orações pelas almas do Purgatório.
A Câmara publica todos os anos a agenda «Mistérios da Páscoa em Idanha», com cantares, procissões e rituais quaresmais em várias freguesias, de fevereiro a maio.
Estas orações são devoção católica popular, não magia. Mas mostram como a relação com os mortos, as «almas penadas», ocupava um lugar central na vida das aldeias.
Monsanto, a Festa das Cruzes e as marafonas
Monsanto, no concelho de Idanha-a-Nova, celebra a Festa da Divina Santa Cruz no dia 3 de maio (ou no domingo seguinte). Os rapazes e raparigas dançam com as marafonas.
A marafona é uma boneca de trapos sobre uma cruz de madeira, sem olhos, boca, nariz nem ouvidos. Segundo a crença popular:
- deixada em cima da cama, protegia a casa das trovoadas e do mau-olhado;
- posta debaixo da cama dos noivos, trazia fertilidade ao casal;
- não tem sentidos porque «não vê, não ouve e não conta».
A lenda da festa conta que, num cerco ao castelo, os habitantes puseram bonecas a dançar nas ameias para fingir que tinham forças e mantimentos. Os sitiantes teriam desistido. É uma lenda local, sem confirmação histórica.
Benzeduras e males populares
Nas Beiras, como em todo o país, as benzedeiras rezavam o mau-olhado, o cobrão e a espinhela caída, com orações cristãs e fórmulas antigas. A Inquisição chamava a estas fórmulas ensalmos e perseguia quem as usava fora do controlo da Igreja.
➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal
Estas práticas são tradição. Doenças como a zona (cobrão) precisam de médico, e quanto mais cedo melhor.
Lobisomens e «correr o fado»
O lobisomem é uma das figuras mais conhecidas do folclore beirão. Segundo a crença, se uma mulher tivesse sete filhos rapazes seguidos, o sétimo seria lobisomem. De noite, teria de «correr o fado», passando por sete adros (os largos das igrejas).
Em Tabuaço (distrito de Viseu) conta-se a lenda de um rapaz assim, que só foi libertado quando alguém o picou com uma aguilhada numa encruzilhada. Ainda hoje se diz aí de quem anda numa correria: «estás como os lobisomens, a correr sete adros».
É folclore: não há qualquer caso documentado. A mesma crença do sétimo filho deu também origem, noutras terras, aos saludadores, que teriam o dom de curar.
Os cristãos-novos de Belmonte
A Beira tem também uma história única: em Belmonte, uma comunidade de criptojudeus manteve em segredo orações e costumes judaicos durante cerca de quatro séculos, desde a conversão forçada de 1497.
O engenheiro Samuel Schwarz encontrou os primeiros sinais desta comunidade em 1917. Publicou o estudo Os Cristãos-Novos em Portugal no Século XX (1925), que deu a conhecer as suas orações ao mundo.
Como em Trás-os-Montes, estas orações eram religião escondida da Inquisição, não feitiçaria.
➜ Trás-os-Montes: cristãos-novos e orações secretas
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➜ Minho: bruxaria e superstições
➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas e populares
Fontes
- Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira: lendas, costumes, crenças e superstições, vol. 1 — Internet Archive; biografia em O Albicastrense
- Marafona — Wikipédia
- SNPC — Cantares quaresmais em Idanha
- Biblioteca Samuel Schwarz (NOVA FCSH) — vida e obra
- Notícias de Tabuaço — A lenda do lobisomem que corria 7 adros