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🏺 Tradição Portuguesa

Minho: bruxaria e superstições

São Bento da Porta Aberta, Senhora da Peneda, benzedeiras, mouras encantadas e a Galiza ao lado: o que a etnografia registou no Minho e o que é lenda.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. As grandes romarias
  2. Benzedeiras e males populares
  3. Mouras encantadas e tesouros
  4. A Galiza ao lado: meigas e queimada
  5. Uma origem muito antiga
  6. Continue a ler
  7. Fontes

O Minho é terra de romarias, santuários de montanha e promessas. Ao lado da devoção católica, a tradição popular guardou benzeduras, amuletos, lendas de mouras e medo das bruxas.

Muitas destas crenças são partilhadas com a Galiza, do outro lado do rio Minho. A fronteira política é antiga, mas a cultura popular continua muito parecida.

Nesta página separamos o que é facto histórico, o que é tradição registada e o que é lenda.

As grandes romarias

São Bento da Porta Aberta

O santuário fica em Rio Caldo, Terras de Bouro, na serra do Gerês. Começou com uma pequena ermida em 1615. A igreja atual foi construída entre 1880 e 1895 e foi elevada a basílica menor em 2015.

O nome vem de a ermida ter as portas sempre abertas, servindo de abrigo a quem atravessava a serra. É hoje um dos santuários mais visitados do país. A grande romaria realiza-se de 10 a 15 de agosto.

A devoção popular tem costumes próprios, registados pela região de turismo do Alto Minho:

  • promessas, sobretudo por motivos de saúde, que o povo considera obrigatório cumprir;
  • ex-votos de cera com a forma da parte do corpo doente;
  • ofertas simples, como ovos, sal, açúcar ou farinha, ligadas a males da pele;
  • a medalha de São Bento, usada como proteção no dia a dia.

São costumes de fé popular. Não substituem o médico.

➜ A medalha de São Bento

Senhora da Peneda

O santuário de Nossa Senhora da Peneda fica na Gavieira, Arcos de Valdevez, dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês. A igreja ficou concluída em 1875.

Segundo a lenda, Nossa Senhora das Neves apareceu a uma pastorinha a 5 de agosto de 1220. Outra lenda diz que cristãos em fuga dos muçulmanos esconderam ali uma imagem no século VIII. Nenhuma das duas está documentada: são tradições do santuário.

A romaria realiza-se na primeira semana de setembro e tem um dia dedicado aos peregrinos galegos, prova da ligação viva entre as duas margens.

Benzedeiras e males populares

Como no resto do Norte, as benzedeiras minhotas «tiravam» o mau-olhado, o quebranto, o cobrão e a espinhela caída. Rezavam fórmulas transmitidas oralmente, faziam cruzes e usavam azeite, água ou sal.

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

Os grandes recolhedores destas práticas foram:

Autor Obra de referência
José Leite de Vasconcelos (1858–1941) Tradições Populares de Portugal (1882); Etnografia Portuguesa (10 vols., 1933–1988)
Fernando de Castro Pires de Lima e Joaquim Pires de Lima Tradições Populares de Entre-Douro-e-Minho (Barcelos, 1938)

Leite de Vasconcelos fundou também o Museu Etnológico (hoje Museu Nacional de Arqueologia), em 1893.

Mouras encantadas e tesouros

O Minho está cheio de lendas de mouras encantadas: mulheres guardiãs de tesouros, presas por um encanto junto a fontes, penedos e castros. Quem as desencantasse ficaria rico, segundo a lenda.

Estas histórias são folclore. Não falam de muçulmanos históricos: «mouro» era, para o povo, quem viveu antes, nos tempos antigos.

A busca de tesouros escondidos ligou-se mais tarde aos livros de São Cipriano e, na Galiza, ao Ciprianillo.

➜ As mouras encantadas

➜ O Ciprianillo galego

A Galiza ao lado: meigas e queimada

Na Galiza, a palavra popular para bruxa ou feiticeira é meiga. O ditado «Eu non creo nas meigas, mais habelas, hainas» («não acredito em bruxas, mas que as há, há») é conhecido dos dois lados da fronteira. A sua origem exata não está documentada.

Há costumes partilhados com o Minho: o azeviche contra o mau-olhado, as figas, as rezas de proteção e as romarias de promessa. Um exemplo galego muito conhecido é a romaria de Santa Marta de Ribarteme (As Neves, 29 de julho), onde promesseiros vivos são levados em caixões em agradecimento.

A queimada com o seu «conxuro» parece uma tradição antiquíssima, mas o texto do esconjuro é uma criação do século XX.

➜ A queimada galega

Uma origem muito antiga

No século VI, São Martinho de Dume, bispo em Braga, escreveu De correctione rusticorum, um sermão contra as superstições dos camponeses da região: culto de pedras, árvores e fontes, e observância de dias de sorte e azar.

É um dos documentos mais antigos sobre as crenças populares do Noroeste peninsular, e mostra que a Igreja combatia estas práticas há quinze séculos.

Continue a ler

➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas

➜ Beiras: tradições ocultas e populares

➜ O signo-saimão

Fontes

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