O Minho é terra de romarias, santuários de montanha e promessas. Ao lado da devoção católica, a tradição popular guardou benzeduras, amuletos, lendas de mouras e medo das bruxas.
Muitas destas crenças são partilhadas com a Galiza, do outro lado do rio Minho. A fronteira política é antiga, mas a cultura popular continua muito parecida.
Nesta página separamos o que é facto histórico, o que é tradição registada e o que é lenda.
As grandes romarias
São Bento da Porta Aberta
O santuário fica em Rio Caldo, Terras de Bouro, na serra do Gerês. Começou com uma pequena ermida em 1615. A igreja atual foi construída entre 1880 e 1895 e foi elevada a basílica menor em 2015.
O nome vem de a ermida ter as portas sempre abertas, servindo de abrigo a quem atravessava a serra. É hoje um dos santuários mais visitados do país. A grande romaria realiza-se de 10 a 15 de agosto.
A devoção popular tem costumes próprios, registados pela região de turismo do Alto Minho:
- promessas, sobretudo por motivos de saúde, que o povo considera obrigatório cumprir;
- ex-votos de cera com a forma da parte do corpo doente;
- ofertas simples, como ovos, sal, açúcar ou farinha, ligadas a males da pele;
- a medalha de São Bento, usada como proteção no dia a dia.
São costumes de fé popular. Não substituem o médico.
Senhora da Peneda
O santuário de Nossa Senhora da Peneda fica na Gavieira, Arcos de Valdevez, dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês. A igreja ficou concluída em 1875.
Segundo a lenda, Nossa Senhora das Neves apareceu a uma pastorinha a 5 de agosto de 1220. Outra lenda diz que cristãos em fuga dos muçulmanos esconderam ali uma imagem no século VIII. Nenhuma das duas está documentada: são tradições do santuário.
A romaria realiza-se na primeira semana de setembro e tem um dia dedicado aos peregrinos galegos, prova da ligação viva entre as duas margens.
Benzedeiras e males populares
Como no resto do Norte, as benzedeiras minhotas «tiravam» o mau-olhado, o quebranto, o cobrão e a espinhela caída. Rezavam fórmulas transmitidas oralmente, faziam cruzes e usavam azeite, água ou sal.
➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal
Os grandes recolhedores destas práticas foram:
| Autor | Obra de referência |
|---|---|
| José Leite de Vasconcelos (1858–1941) | Tradições Populares de Portugal (1882); Etnografia Portuguesa (10 vols., 1933–1988) |
| Fernando de Castro Pires de Lima e Joaquim Pires de Lima | Tradições Populares de Entre-Douro-e-Minho (Barcelos, 1938) |
Leite de Vasconcelos fundou também o Museu Etnológico (hoje Museu Nacional de Arqueologia), em 1893.
Mouras encantadas e tesouros
O Minho está cheio de lendas de mouras encantadas: mulheres guardiãs de tesouros, presas por um encanto junto a fontes, penedos e castros. Quem as desencantasse ficaria rico, segundo a lenda.
Estas histórias são folclore. Não falam de muçulmanos históricos: «mouro» era, para o povo, quem viveu antes, nos tempos antigos.
A busca de tesouros escondidos ligou-se mais tarde aos livros de São Cipriano e, na Galiza, ao Ciprianillo.
A Galiza ao lado: meigas e queimada
Na Galiza, a palavra popular para bruxa ou feiticeira é meiga. O ditado «Eu non creo nas meigas, mais habelas, hainas» («não acredito em bruxas, mas que as há, há») é conhecido dos dois lados da fronteira. A sua origem exata não está documentada.
Há costumes partilhados com o Minho: o azeviche contra o mau-olhado, as figas, as rezas de proteção e as romarias de promessa. Um exemplo galego muito conhecido é a romaria de Santa Marta de Ribarteme (As Neves, 29 de julho), onde promesseiros vivos são levados em caixões em agradecimento.
A queimada com o seu «conxuro» parece uma tradição antiquíssima, mas o texto do esconjuro é uma criação do século XX.
Uma origem muito antiga
No século VI, São Martinho de Dume, bispo em Braga, escreveu De correctione rusticorum, um sermão contra as superstições dos camponeses da região: culto de pedras, árvores e fontes, e observância de dias de sorte e azar.
É um dos documentos mais antigos sobre as crenças populares do Noroeste peninsular, e mostra que a Igreja combatia estas práticas há quinze séculos.
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➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas
➜ Beiras: tradições ocultas e populares
Fontes
- Santuário de São Bento da Porta Aberta — Wikipédia; Romaria de S. Bento da Porta Aberta — AltoMinho
- Santuário de Nossa Senhora da Peneda — Wikipédia
- José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, 1882; Etnografia Portuguesa, Lisboa, 1933–1988.
- Fernando de Castro Pires de Lima e Joaquim Pires de Lima, Tradições Populares de Entre-Douro-e-Minho, Barcelos, Companhia Editora do Minho, 1938.
- Martinho de Dume, De correctione rusticorum (c. 572).