Um sigilo é um sinal desenhado que, na tradição mágica, representa um nome, um ser ou uma intenção. A palavra vem do latim sigillum, «selo», diminutivo de signum, «sinal».
Hoje, «sigilo» faz pensar sobretudo no método do artista Austin Osman Spare (1913): juntar as letras de um desejo num desenho. Mas essa é só a última etapa de uma história com quase dois mil anos, que passa pelo anel de Salomão, pelos grimórios e, em Portugal, pelo signo-saimão das portas e chaminés.
Esta página conta essa história e organiza os vários tipos de sigilos. O passo a passo do método de Spare está noutra página.
➜ Como desenhar sigilos: o método de Spare
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Sigilo; selo; em latim sigillum |
| Outros nomes | Selo mágico, caractere, assinatura (de um espírito) |
| Origem mais antiga conhecida | Sinais e «caracteres» dos papiros mágicos greco-egípcios |
| Culturas | Magia greco-egípcia, judaica, islâmica, europeia medieval e moderna |
| Significados | Assinatura de um anjo ou espírito; marca de um planeta; símbolo de um desejo (Spare) |
Os grandes tipos de sigilos
| Tipo | Exemplo e época |
|---|---|
| Selo de um rei sábio | O anel de Salomão (lenda antiga) |
| Caracteres mágicos | Sinais dos papiros e dos grimórios medievais |
| Selo de Deus | Sigillum Dei do Livro Jurado e de John Dee |
| Selos planetários | Quadrados mágicos de Agrippa (1533) |
| Selos de espíritos | Os 72 selos da Goetia (séc. XVII) |
| Sigilos de desejo | Austin Osman Spare (1913) e a magia do caos |
O selo de Salomão
A raiz da ideia é um anel. No Testamento de Salomão, texto grego antigo, o arcanjo Miguel entrega ao rei um anel com um sinal gravado, com o qual Salomão prende os demónios.
Um selo, na Antiguidade, era a assinatura de quem tinha autoridade. Na lenda, o selo de Salomão tornou-se a assinatura de Deus contra os demónios.
Em Portugal, a mesma ideia ficou no signo-saimão, o «signo de Salomão»: a estrela gravada em soleiras, chaminés e pendentes para guardar a casa.
➜ O signo-saimão na tradição portuguesa
Os caracteres: letras que ninguém lê
Os Papiros Mágicos Gregos já estão cheios de caracteres: sinais parecidos com letras, com pequenos círculos nas pontas, que não pertencem a nenhum alfabeto.
Os grimórios medievais herdaram-nos. Eram uma escrita «para os espíritos», não para pessoas. A Igreja via-os com especial desconfiança, como sinais de pacto.
O selo de Deus
O Livro Jurado de Honório (séc. XIII) contém o Sigillum Dei, um grande diagrama circular com nomes divinos e angélicos.
No século XVI, o sábio inglês John Dee fez uma versão nova, o Sigillum Dei Aemeth. O British Museum guarda um grande disco de cera com este selo, que Dee usava nas suas sessões com a pedra de cristal.
Os selos planetários de Agrippa
Em De occulta philosophia (1533), Cornélio Agrippa publicou os quadrados mágicos dos sete planetas e os selos dos seus «espíritos» e «inteligências».
Agrippa diz que os selos se tiram destas tábuas. A leitura moderna é que cada selo é o traço de um nome, convertido em números e ligado sobre o quadrado.
➜ Selos planetários e quadrados mágicos
Os 72 selos da Goetia
A Goetia, primeiro livro do Lemegeton (séc. XVII), dá um selo a cada um dos 72 espíritos. O texto manda gravá-los em metais conforme a «nobreza»: ouro para os reis, prata para os marqueses, cobre para os duques, mercúrio para os presidentes, chumbo para o cavaleiro.
Aqui o sigilo funciona como a identidade do espírito. Os desenhos variam muito entre manuscritos; os que circulam na internet vêm quase todos da edição de 1904.
Não ensinamos o uso destes selos. Ficam como documento histórico.
A viragem de Austin Osman Spare
No livro The Book of Pleasure (1913), o desenhador londrino Austin Osman Spare mudou tudo:
- o sigilo deixa de ser a assinatura de um espírito;
- passa a ser um desejo condensado num desenho;
- depois de feito, deve ser esquecido, para atuar, segundo Spare, no inconsciente.
É uma interpretação psicológica da magia, sem demonstração científica.
Magia do caos e cultura pop
Nos anos 1970, a magia do caos retomou o método de Spare. Peter J. Carroll sistematizou-o em Liber Null (1978).
O argumentista escocês Grant Morrison chamou «hipersigilo» a uma obra longa feita com intenção mágica, como a sua banda desenhada The Invisibles. Também defendeu que os logótipos das grandes marcas funcionam como sigilos. É uma provocação de autor, não um facto.
Mitos a desfazer
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «Os sigilos de Spare são medievais» | Não: o método é de 1913 |
| «Os selos da internet são os originais» | Vêm quase todos da edição de 1904 |
| «Um sigilo tem poder por si» | É crença, sem prova |
| «Selo de Salomão é sempre a estrela de seis pontas» | No Testamento o anel traz um pentalfa |
Se quiser experimentar o método de Spare como exercício criativo, faça-o só sobre si próprio e as suas ações, nunca para influenciar outra pessoa. Se queimar o papel, use um recipiente à prova de fogo, longe de tecidos e nunca sem vigilância.
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Fontes
- «Sigil», Wikipedia — en.wikipedia.org
- H. C. Agrippa, Three Books of Occult Philosophy, livro II, cap. 22 (trad. 1651) — esotericarchives.com
- Mathers e Crowley (ed.), The Book of the Goetia of Solomon the King, 1904 — sacred-texts.com
- Austin Osman Spare, The Book of Pleasure (Self-Love): The Psychology of Ecstasy, Londres, 1913.
- J. Leite de Vasconcelos, Signum Salomonis, Lisboa, 1918.