Uma criatura com chifres de carneiro e asas de morcego está de pé sobre um pedestal. Aos seus pés, um homem e uma mulher nus estão presos por correntes ao pescoço. Mas as correntes são largas: bastava levantar as mãos para as tirar.
Esse pormenor resume a leitura tradicional de O Diabo. Não é, no tarot, a imagem do mal absoluto. É a carta da prisão a que a pessoa se habitua: vícios, dependências, medos, apegos materiais, relações que prendem.

Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Arcano | Maior |
| Número | XV |
| Nome em Marselha / em inglês | Le Diable / The Devil |
| Golden Dawn | Letra hebraica Ayin; signo de Capricórnio |
| Palavras-chave (direita) | apego, dependência, tentação, materialismo, força instintiva |
| Palavras-chave (invertida) | libertação, quebrar correntes, ou o contrário: fraqueza e cegueira |
O desenho
Waite chama à figura o «Bode de Mendes», e a imagem responde, ponto por ponto, a outra carta do baralho: o Hierofante.
- A mão direita erguida, mas ao contrário do gesto de bênção do Hierofante.
- Uma tocha acesa virada para baixo, na mão esquerda.
- Um pentagrama invertido na testa.
- O símbolo de Mercúrio na zona do estômago.
- O pedestal quadrado, a que Waite chama altar. Tem à frente um anel de onde saem as correntes.
- O casal acorrentado tem pequenos chifres e caudas. Waite compara-os a Adão e Eva depois da Queda e liga-os à carta dos Enamorados, onde o mesmo par aparece livre, sob um anjo.
Waite escreve que a corrente é a da «fatalidade da vida material», mas acrescenta que aquele que está por cima deles «não há de ser seu senhor para sempre».
A Golden Dawn atribuiu-lhe a letra hebraica Ayin e o signo de Capricórnio, cujo símbolo tradicional é uma cabra (ou um animal meio cabra, meio peixe). A escolha liga o bode da carta ao zodíaco. Capricórnio é, na astrologia tradicional, regido por Saturno, o planeta dos limites e do peso da matéria: é esta a ponte que os autores modernos usam para ler a carta como apego ao mundo material.
Na história
O Diabo é uma carta mal documentada nos baralhos mais antigos. No conjunto mais completo do séc. XV, o Visconti-Sforza (dividido entre a Morgan Library, em Nova Iorque, e Bérgamo), faltam precisamente duas cartas: o Diabo e a Torre. Não sabemos se se perderam por acaso ou por outra razão.
O Tarot de Marselha mostra um diabo estranho e híbrido: asas de morcego, uma espécie de armação de veado, seios, um rosto na barriga, olhos nos joelhos, pés de animal. Segura uma espécie de bastão. Aos pés, duas pequenas criaturas com hastes estão presas a um pedestal redondo.
A versão de 1909 foi muito influenciada por uma imagem do séc. XIX: o Baphomet que Éliphas Lévi desenhou para o Dogma e Ritual da Alta Magia (publicado em 1854–1856). Lévi criou uma figura com cabeça de bode, asas, seios e uma tocha, que pretendia ser um símbolo de equilíbrio de opostos. O diabo do Rider-Waite herdou dela a cabeça, a tocha e o pentagrama.
➜ O Dogma e Ritual da Alta Magia
➜ O diabo na tradição portuguesa
O significado na tradição
Direita
«Devastação, violência, veemência, esforços extraordinários, força, fatalidade; aquilo que está predestinado mas que, por isso, não é mau.» — A. E. Waite, 1910
A última parte é importante: mesmo em 1910, Waite não lia a carta como pura maldade.
A leitura moderna vai mais longe e centra-se no apego: o que nos prende, muitas vezes com o nosso consentimento. Pode ser dinheiro, prazer, uma relação, um hábito, uma dependência. Também é lida como carta do instinto e do desejo, que não são maus em si, mas podem dominar.
Invertida
«Fatalidade maléfica, fraqueza, mesquinhez, cegueira.» — A. E. Waite, 1910
Muitos leitores modernos invertem este sentido e leem a carta invertida como libertação: perceber a corrente e tirá-la. Outros mantêm a leitura de Waite. É um bom exemplo de como a tradição de leitura mudou no séc. XX.
Na leitura: amor, trabalho e conselho
Amor. Na leitura tradicional, costuma indicar atração forte e paixão, mas também ciúme, controlo ou dependência. Pergunta-se: esta ligação liberta ou prende?
Trabalho. É associada a situações em que se fica por dinheiro ou por medo, a ambição sem limites e a acordos que amarram.
Conselho. O sentido mais comum é: olhar para as correntes e ver que são largas. Se estiver a lidar com uma dependência real (álcool, jogo, outras substâncias), procure ajuda de um médico ou de uma linha de apoio; nenhuma carta substitui isso.
O que se diz e o que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «Tirar o Diabo é sinal de mal ou de possessão» | Na tradição de leitura é uma carta de apego e tentação, não um sinal sobrenatural |
| «A figura é Satanás da Bíblia» | O desenho moderno segue sobretudo o Baphomet de Lévi (séc. XIX); o de Marselha é um diabo popular híbrido |
| «O Diabo está em todos os baralhos antigos» | Falta no Visconti-Sforza, o conjunto mais completo do séc. XV |
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➜ Carta anterior: A Temperança
Fontes
- A. E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot (1910), «XV. The Devil» — sacred-texts.com; significados divinatórios — rider-waite.com
- Wikipedia, «The Devil (tarot card)» — en.wikipedia.org
- The Morgan Library & Museum, «Visconti-Sforza Tarot Cards», MS M.630 — themorgan.org
- «Visconti-Sforza & other Milanese packs» (cartas em falta) — intomystery.substack.com
- Bill Heidrick, «Tarot Correspondence Tables» (atribuições da Golden Dawn) — billheidrick.com