O Livro de Abramelin conta a história de um judeu de Worms, Abraão, que teria aprendido com um mago egípcio chamado Abramelin um caminho para conhecer o seu Santo Anjo Guardião.
É um grimório diferente dos outros. Em vez de receitas rápidas, descreve um longo retiro de oração e pureza, que dura meses. Só no fim entram os espíritos e os famosos quadrados de letras.
Ficou célebre no século XX graças ao ocultista Aleister Crowley e à Golden Dawn. Mas a sua história real é mais recente do que o livro afirma.
Ficha do grimório
| Campo | Informação |
|---|---|
| Título | O Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago |
| Nome original | Títulos variam; conhecido como Buch Abramelin (alemão) |
| Período | Manuscritos mais antigos: c. 1608; data interna «1458» |
| Origem | Mundo germânico |
| Autoria | Atribuída a Abraão de Worms; autor real desconhecido |
| Idiomas | Alemão; cópias em francês, hebraico e italiano |
| Tipo | Magia cerimonial angélica e operativa |
A lenda de Abraão de Worms
Segundo o próprio livro, Abraão nasceu em 1362, viajou pela Europa e pelo Egito à procura de sabedoria e encontrou Abramelin perto do Nilo. Em 1458, com 96 anos, teria escrito tudo para o filho, Lamech.
Isto é a narrativa do livro, não um facto histórico. Não há documentos independentes que provem a existência de Abraão de Worms nem de Abramelin.
O editor Georg Dehn propôs que o autor fosse o rabino Yaakov Moelin (c. 1365–1427), de Mainz. Esta identificação foi contestada por outros investigadores.
Origem real: os manuscritos
Facto documentado: as cópias mais antigas conhecidas são dois manuscritos alemães de cerca de 1608, guardados em Wolfenbüttel. Há outros dois em Dresden, de cerca de 1700 e 1750. Os estudiosos consideram os manuscritos alemães os textos de referência.
Uma edição impressa em alemão saiu em 1725, com a indicação «Colónia, Peter Hammer».
Existem ainda:
- uma cópia hebraica parcial (Oxford, c. 1740), só com o primeiro livro;
- um manuscrito francês do século XVIII na Biblioteca do Arsenal, em Paris;
- um manuscrito italiano do século XVII, encontrado em Bréscia em 2009.
Estudos recentes situam a redação do texto por volta de 1600, e não no século XV.
O que contém
A versão alemã tem quatro livros; a francesa, usada por Mathers, só três.
Livros I e II — a vida e o caminho
A autobiografia de Abraão, as suas viagens, os falsos mestres que diz ter encontrado e conselhos ao filho. Segue-se a descrição geral da grande operação.
A operação
É um período de recolhimento que, na versão francesa, dura seis meses e, nas alemãs, dezoito meses. Pede isolamento progressivo, oração diária, abstinência, um oratório reservado e uma vida cada vez mais retirada.
O objetivo é alcançar o «conhecimento e conversação» com o Santo Anjo Guardião. Só depois, segundo o livro, o praticante estaria preparado para dominar espíritos inferiores.
Descrevemos a operação em traços gerais, como objeto de estudo. Não a ensinamos. O isolamento e a privação prolongados podem ser prejudiciais para a saúde física e mental.
Os quadrados de letras
A última parte traz centenas de quadrados de letras: grelhas em que palavras se leem na horizontal e na vertical, à maneira do célebre quadrado latino SATOR. Cada quadrado estaria associado a um efeito — encontrar tesouros, curar, voar, tornar-se invisível.
Não são quadrados numéricos, como os dos planetas em Agrippa. Muitas das palavras parecem derivar do hebraico, mas o seu sentido é muitas vezes obscuro, e as versões divergem bastante entre si.
➜ Cabala
Edições
- S. L. MacGregor Mathers, The Book of the Sacred Magic of Abra-Melin the Mage, Londres, 1898, traduzido do manuscrito francês do Arsenal (c. 1750). Mathers julgava que era a única cópia existente.
- Georg Dehn (ed.), The Book of Abramelin, trad. inglesa de Steven Guth, 2006: a primeira edição inglesa completa a partir das fontes alemãs, com os quatro livros.
Em português circulam sobretudo traduções feitas a partir de Mathers.
Influência
Mathers foi um dos fundadores da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), e a sua tradução tornou o livro central no ocultismo inglês.
Aleister Crowley fez do «conhecimento e conversação com o Santo Anjo Guardião» uma ideia-chave do seu sistema. A expressão continua a ser usada na magia cerimonial moderna.
A lenda de Boleskine
Em 1899, Crowley comprou Boleskine House, à beira do Loch Ness, na Escócia, para realizar a operação de Abramelin. Isto está documentado.
O resto é lenda. Conta-se que Crowley interrompeu a operação para ir a Paris e que deixou os espíritos «soltos» na casa. Moradores posteriores relataram fenómenos estranhos. Não há qualquer prova disso.
A casa sofreu grandes incêndios em 2015 e 2019 e foi depois restaurada por uma fundação.
Curiosidades
- Mathers trabalhou apenas com a cópia francesa e não conhecia os manuscritos alemães, mais completos.
- A figura de Abramelin nunca aparece fora deste livro.
Onde ler
A tradução de Mathers (1898), em domínio público, está disponível gratuitamente no site Esoteric Archives, numa edição digital de Joseph H. Peterson. A edição de Dehn continua protegida por direitos de autor.
Continue a ler
➜ Três Livros de Filosofia Oculta, de Agrippa
➜ Heptameron ou Elementos Mágicos
Fontes
- S. L. MacGregor Mathers (trad.), The Book of the Sacred Magic of Abramelin the Mage, 1898, ed. digital de Joseph H. Peterson — esotericarchives.com
- «The Book of Abramelin», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Boleskine House», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Georg Dehn (ed.), The Book of Abramelin: A New Translation, trad. Steven Guth, 2006.