No fim do século XIX, um punhado de estudiosos portugueses começou a fazer uma coisa nova: perguntar ao povo em que acreditava, e escrever exatamente o que ouvia, com o nome da terra ao lado.
Esta página reúne excertos literais dessas recolhas, organizados por temas. Mantemos a ortografia original («Bruxas», «lobishomem», «noute»). Cada excerto tem a obra, o ano e a página.
São documentos: mostram o que se dizia em certas aldeias há quase 150 anos. Não são conselhos nem regras, e nada aqui foi «confirmado» por quem o recolheu.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Obra 1 | J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, Porto, Livraria Portuense de Clavel & C.ª, 1882 |
| Obra 2 | Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II, Lisboa, Livraria Ferreira, 1885 |
| Autores | Leite de Vasconcelos (1858–1941); Teófilo Braga (1843–1924) |
| Estado | Domínio público |
| Texto seguido | Digitalizações do Internet Archive (ver «Onde ler») |
| Seleção e notas | Grimório.pt, 2026 |
Como lemos estes excertos
- Entre parênteses está a terra onde a crença foi ouvida, tal como o autor a indicou («Minho», «Maia», «Villa-Real»).
- O que está entre parênteses retos dentro das citações é do próprio autor, não nosso.
- Corrigimos apenas erros evidentes da leitura ótica da digitalização (letras trocadas). Nada foi modernizado.
- Leite de Vasconcellos numera os parágrafos (§). Indicamos o § e a página impressa.
O céu, o Sol e a Lua
Leite de Vasconcellos abre o livro pelos astros. Recolheu sobretudo no Minho, no Douro e na Beira Alta, muitas vezes junto da própria família e de vizinhos.
- Quando chove e ao mesmo tempo faz Sol, diz o povo que o Diabo está a bater na mulher (Povoa de Lanhoso, etc.) ou na mãe (Porto, etc.); ou que as Bruxas se penteiam (Porto, Barcellos, etc., etc.).
— Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, 1882, § 24, p. 15.
- Se o luar nos dá na cama, ficamos com a boca torta (Minho).
— Idem, § 31, p. 19.
- No anno ha treze Luas. A primeira vez no mez que se vê a Lua, mostra-se-lhe dinheiro de cruzes (um pinto, doze-vintens etc.), faz-se-lhe uma cortezia, e diz-se-lhe:
Lua-nova
Tu bem me vês.
Dá-me dinheiro
Pr'a todo o mez.
— Idem, § 33, p. 19. O «dinheiro de cruzes» eram moedas com a cruz gravada. O autor acrescenta que versos e vénia se fazem três vezes.
Depois do sol-posto não se deve varrer a casa, porque se varre a fortuna.
— Idem, p. 12. Uma crença que ainda hoje se ouve em muitas casas portuguesas.
A trovoada
O ruido do trovão é produzido pelo barulho que Deus faz no ceu a ralhar (Alijó, etc., etc.) [ou a arrastar as cadeiras (passim) depois de jantar (Sinfães).]
Quando troveja, não é bom fechar as portas ou janellas, porque seria dar com ellas na cara do Senhor.
— Leite de Vasconcellos, 1882, p. 65. Na mesma página o autor regista que os santos invocados contra o raio são S. Jerónimo e Santa Bárbara, e transcreve as orações respetivas.
As Bruxas
É o capítulo mais rico das duas obras. Note-se que, para os informadores de Leite, a Bruxa nasce com um destino («fado»); não escolhe sê-lo.
b) Para as Bruxas não sugarem o sangue dos recemnascidos, deve pôr-se debaixo do travesseiro uma tesoura de aço aberta em cruz [aqui á virtude do aço está reunida a da cruz] (Vimieiro, Sinfães).
— Leite de Vasconcellos, 1882, p. 100. Logo a seguir regista o costume, no Porto e na Beira, de pregar na porta uma ferradura de pé esquerdo «por causa das Bruxas».
d) Da meia-noute para a uma hora, as Bruxas untam-se em casa com azeite zimbre, e vão para as encruzilhadas, onde fazem um sino saimão, dentro do qual se mettem. D'ahi é que partem para as differentes partes a fazer desacatos. Passadas as duas horas da noute, as Bruxas não tem mais poder (Villa-Real).
— Idem, p. 307. O «sino saimão» é o signo-saimão, a estrela que noutras crenças protege contra as bruxas.
Um conto ouvido a uma mulher «de ao pé de Guimarães» mostra a fórmula das Bruxas em viagem, e o castigo de quem a troca:
«Has de dizer comnosco:
Nós por baixo de carvalhaes
E por riba de sirvadaes. (silvadaes)
E elle dixe por riba de carvalhaes, e por baixo de sirvadaes»; e depois andava sempre por baixo das sirvas […]
— Idem, p. 308. O rapaz acaba por dizer «Santo nome de Jesus!» e as Bruxas abandonam-no nu numa adega.
Numa nota, Leite distingue as duas palavras que o povo misturava:
As Feiticeiras não passam de simples adivinhadeiras com o poder de fazer feitiços (em questões de amor, etc.); as Bruxas são mais alguma cousa do que isso, porque podem soffrer metamorphoses, tornar-se invisiveis, chupar creanças, etc.
— Idem, p. 311, nota 298.
➜ Feitiçaria ou bruxaria: qual a diferença?
O lobisomem
- Em todo o paiz se falla de lobishomens; mas, como todas as versões são fragmentadas, acho que o melhor meio é apresentá-las assim mesmo, sem tentar dar-lhes ordem. a) Quem tiver sete filhos a eito, rapazes ou raparigas, não sendo uns padrinhos dos outros, um qualquer d'elles tem de ser Corredor, i. é, tem de correr fado […]. Só se lhe quebra o fado, fazendo-lhe sangue no rabo (que é o dedo mendinho), ou queimando-lhe a roupa no forno […].
— Leite de Vasconcellos, 1882, § 348, p. 262.
c) Em Guimarães disse-me uma velha que o lobishomem passa ás Terças e Sextas-feiras, fazendo tanto barulho como um comboio.
— Idem, p. 263. O pormenor do comboio mostra uma crença antiga contada com imagens do século XIX.
Animais e plantas
h) O sapo é ajudante e companheiro das Bruxas (Maia).
— Leite de Vasconcellos, 1882, p. 196.
Até é costume, quando vão vender os porcos á feira, untar-lhes o corpo com um, ou tres, ou cinco (numero impar) dentes de alho (Rio-Tinto).
— Idem, p. 122. Na página anterior, o autor escreve que o alho é tido por «preservativo excellente contra as Bruxas».
As crianças e o quebranto
Teófilo Braga junta num só parágrafo as crenças sobre o recém-nascido. Recolhe de várias fontes, nem sempre identificadas.
Os talismans que livram a criança de quebranto são um cordão de seda preta tendo enfiado um sino-saimão, trez vinténs em prata furados, uma argola, uma meia-lua, uma figa e um dente de lobo.
— Teófilo Braga, O povo portuguez, vol. II, 1885, p. 105.
Se a criança tem quebranto passa-se trez vezes por uma meada de linha.
— Idem, p. 103.
O que a lei proibia
Braga transcreve um texto das Ordenações do início do século XVI. Duas páginas antes, refere a mesma proibição na «Ordenação manuelina». É a prova de que muitas destas práticas já existiam há quatrocentos anos:
«E por quanto nos he dito, que em nossos regnos e senhorios, antre a gente rústica se usam muitas abusões, assim como passarem doentes por silvão ou machieiro ou lameiro virgem, e assim usam benzer com espada que matou homem, ou que passasse o Doyro e Minho trez vezes. Outros cortam solas em figueira baforeira. Outros cortam cobro em lumiar de porta. […] Outros revolvem penedos e os lançam na agua para aver chuva.»
— Teófilo Braga, O povo portuguez, vol. II, 1885, p. 116.
«Abusões» quer dizer superstições. «Cortar cobro» é o antigo nome de talhar o cobrão.
Notas
Quem eram os recolectores. Este foi um dos primeiros livros de Leite de Vasconcelos, que viria a ser o fundador da Revista Lusitana e do Museu Etnológico. Teófilo Braga, professor e político, reuniu em O povo portuguez materiais próprios e alheios. Os dois interpretam as crenças segundo as teorias do seu tempo (mitologia comparada, «sobrevivências» pagãs). Essas interpretações envelheceram; os registos continuam valiosos.
O que falta aqui. Consiglieri Pedroso e Adolfo Coelho publicaram recolhas importantes no mesmo período. Leite cita-as várias vezes. Só incluiremos excertos deles quando pudermos ler e conferir o texto original.
Onde ler
- Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal (1882) — Internet Archive
- Teófilo Braga, O povo portuguez, vol. II (1885) — Internet Archive
Continue a ler
➜ Ensalmos e orações populares documentados
➜ Tradição Portuguesa — índice
Fontes
- J. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, Porto, Clavel & C.ª, 1882 — archive.org
- Teófilo Braga, O povo portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II, Lisboa, Livraria Ferreira, 1885 — archive.org