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O círculo mágico: o que dizem os grimórios

Como os grimórios descrevem o círculo mágico: dos papiros gregos ao Heptameron (1559), à Goetia, ao relato de Cellini no Coliseu e à Wicca. Medidas, nomes e função.

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Neste artigo
  1. Ficha
  2. Antes dos grimórios: o círculo no papel
  3. O Heptameron: o círculo como fortaleza
  4. A Goetia: círculo, serpente e triângulo
  5. Um relato real: Cellini no Coliseu
  6. Na lenda: Fausto
  7. Na Wicca: um espaço sagrado
  8. O que nunca foi
  9. Continue a ler
  10. Fontes

O círculo mágico é talvez a imagem mais conhecida da magia ocidental: o mago dentro de um anel traçado no chão, rodeado de nomes estranhos, e o perigo do lado de fora.

Esta página olha para o círculo como os próprios textos o descrevem: as medidas, o que se escrevia nele, para que servia e como mudou da Idade Média à Wicca. É uma página de história. Não ensina a traçar círculos para chamar espíritos.

O círculo como forma geométrica e símbolo (eternidade, Sol, totalidade) e as suas origens mais remotas, como o zisurrû mesopotâmico, estão noutra página.

➜ O círculo: símbolo e origens

Ficha

Campo Informação
Nome Círculo mágico; em latim circulus
Função nos grimórios Proteger o operador durante a conjuração
Fontes principais Heptameron (impresso em 1559), Chave de Salomão, Goetia (séc. XVII)
Elementos típicos Nomes divinos, cruzes, pentagramas, nomes de anjos e das horas
Medida mais citada Nove pés de diâmetro
Uso moderno Magia cerimonial, Wicca e neopaganismo

Antes dos grimórios: o círculo no papel

Nos Papiros Mágicos Gregos (Egito romano, séc. II a.C.–V d.C.), há círculos desenhados nos próprios amuletos e folhas: palavras mágicas escritas entre anéis, ou rodeadas por uma serpente que morde a própria cauda (o ouroboros).

É nos manuais medievais de necromancia que o grande círculo traçado no chão, com o operador lá dentro, se torna central. O historiador Richard Kieckhefer mostrou que esta necromancia era praticada sobretudo por clérigos, que conheciam o latim e os ritos da Igreja.

Um manual do século XV, o Manual de Necromancia de Munique, tem mais de 40 desenhos de círculos e sinais.

➜ Manual de Necromancia de Munique

O Heptameron: o círculo como fortaleza

O Heptameron, atribuído a Pedro de Abano e impresso em latim em 1559, dá a descrição mais citada. Chama aos círculos «fortalezas» que defendem o operador dos maus espíritos.

Segundo o texto:

  • fazem-se três círculos com nove pés de largura, separados por um palmo;
  • no círculo de dentro escrevem-se o nome da hora, o anjo da hora e o seu selo, o anjo do dia, o nome da estação do ano e os nomes do Sol, da Lua e da Terra nessa estação;
  • no de fora, os nomes dos anjos do ar que governam esse dia;
  • ao centro, nomes divinos com cruzes, Alfa a oriente e Ómega a ocidente;
  • fora do círculo, nos quatro cantos, figuras de cinco pontas (a tradução inglesa chama-lhes Pentagones).

Depois, o círculo era aspergido com água benta, rezando o versículo do salmo Asperges me («Aspergir-me-ás com o hissope»).

Ou seja: o círculo mudava com o dia, a hora e a estação. Não havia um desenho fixo.

➜ O Heptameron

A Goetia: círculo, serpente e triângulo

Na Goetia (séc. XVII), na edição de Mathers e Crowley (1904), o círculo tem nove pés e um desenho fixo:

  • uma serpente enrolada entre os anéis, com nomes hebraicos escritos ao longo do corpo;
  • os nomes divinos e angélicos das sefirot da Cabala, de Ehyeh a Levanah (a Lua);
  • hexagramas com as letras de Adonai e pentagramas com as sílabas de Tetragrammaton.

Fora do círculo, a dois pés de distância, fica o triângulo de três pés, com os nomes Anaphaxeton, Tetragrammaton, Primeumaton e o arcanjo Miguel. Era aí, e não no círculo, que o espírito deveria aparecer.

O texto diz que Salomão fez o círculo para se preservar da malícia dos espíritos.

➜ Os 72 espíritos da Goetia

➜ Invocação e evocação: a diferença

Um relato real: Cellini no Coliseu

Um dos testemunhos mais vivos vem do escultor florentino Benvenuto Cellini. Na sua autobiografia (escrita c. 1558–1563 e só impressa em 1728), conta que, nos anos 1530, acompanhou um padre siciliano a uma conjuração noturna no Coliseu de Roma.

O padre traçou círculos no chão com muitas cerimónias, queimou perfumes e substâncias de mau cheiro, e Cellini segurou um pentáculo. Cellini garante ter visto legiões de demónios.

É um testemunho pessoal, contado décadas depois por um autor famoso pelo exagero. Mostra, ainda assim, que estas práticas existiam no Renascimento, e que um padre podia conduzi-las.

Na lenda: Fausto

No livro popular alemão sobre o Doutor Fausto (1587), o protagonista traça círculos mágicos numa encruzilhada, à noite, para chamar o diabo.

A literatura fixou assim a imagem: o círculo é a fronteira entre o mago e o demónio.

Na Wicca: um espaço sagrado

Na Wicca, criada em Inglaterra nos anos 1950, «lançar o círculo» abre quase todos os rituais. Mudou o sentido:

  • o círculo já não é uma barreira contra demónios, mas um espaço sagrado partilhado pelo grupo;
  • costuma ter nove pés, a mesma medida dos grimórios;
  • os quatro pontos cardeais são associados aos quatro elementos;
  • traça-se muitas vezes com o athame (faca ritual) e desfaz-se no fim.

É uma convenção ritual moderna, que varia de grupo para grupo.

➜ Wicca

O que nunca foi

O círculo não é uma barreira física, nem há prova de que proteja de alguma coisa. Para quem o usa hoje, vale como marca de concentração e de respeito pelo momento.

Se usar velas ou incenso num ritual, faça-o com segurança: nunca sem vigilância, castiçal estável, longe de tecidos, janela aberta.

➜ Como usar velas com segurança

Continue a ler

➜ Magia cerimonial

➜ O triângulo

Fontes

  • Heptameron, trad. inglesa de Robert Turner (1655), ed. J. H. Peterson — esotericarchives.com
  • Mathers e Crowley (ed.), The Book of the Goetia of Solomon the King, 1904: o círculo e o triângulo — sacred-texts.com
  • «Magic circle», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Benvenuto Cellini, Vida, livro I (escrita c. 1558–1563).
  • Richard Kieckhefer, Forbidden Rites: A Necromancer's Manual of the Fifteenth Century, Pennsylvania State University Press, 1997.

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