O círculo mágico é talvez a imagem mais conhecida da magia ocidental: o mago dentro de um anel traçado no chão, rodeado de nomes estranhos, e o perigo do lado de fora.
Esta página olha para o círculo como os próprios textos o descrevem: as medidas, o que se escrevia nele, para que servia e como mudou da Idade Média à Wicca. É uma página de história. Não ensina a traçar círculos para chamar espíritos.
O círculo como forma geométrica e símbolo (eternidade, Sol, totalidade) e as suas origens mais remotas, como o zisurrû mesopotâmico, estão noutra página.
➜ O círculo: símbolo e origens
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Círculo mágico; em latim circulus |
| Função nos grimórios | Proteger o operador durante a conjuração |
| Fontes principais | Heptameron (impresso em 1559), Chave de Salomão, Goetia (séc. XVII) |
| Elementos típicos | Nomes divinos, cruzes, pentagramas, nomes de anjos e das horas |
| Medida mais citada | Nove pés de diâmetro |
| Uso moderno | Magia cerimonial, Wicca e neopaganismo |
Antes dos grimórios: o círculo no papel
Nos Papiros Mágicos Gregos (Egito romano, séc. II a.C.–V d.C.), há círculos desenhados nos próprios amuletos e folhas: palavras mágicas escritas entre anéis, ou rodeadas por uma serpente que morde a própria cauda (o ouroboros).
É nos manuais medievais de necromancia que o grande círculo traçado no chão, com o operador lá dentro, se torna central. O historiador Richard Kieckhefer mostrou que esta necromancia era praticada sobretudo por clérigos, que conheciam o latim e os ritos da Igreja.
Um manual do século XV, o Manual de Necromancia de Munique, tem mais de 40 desenhos de círculos e sinais.
➜ Manual de Necromancia de Munique
O Heptameron: o círculo como fortaleza
O Heptameron, atribuído a Pedro de Abano e impresso em latim em 1559, dá a descrição mais citada. Chama aos círculos «fortalezas» que defendem o operador dos maus espíritos.
Segundo o texto:
- fazem-se três círculos com nove pés de largura, separados por um palmo;
- no círculo de dentro escrevem-se o nome da hora, o anjo da hora e o seu selo, o anjo do dia, o nome da estação do ano e os nomes do Sol, da Lua e da Terra nessa estação;
- no de fora, os nomes dos anjos do ar que governam esse dia;
- ao centro, nomes divinos com cruzes, Alfa a oriente e Ómega a ocidente;
- fora do círculo, nos quatro cantos, figuras de cinco pontas (a tradução inglesa chama-lhes Pentagones).
Depois, o círculo era aspergido com água benta, rezando o versículo do salmo Asperges me («Aspergir-me-ás com o hissope»).
Ou seja: o círculo mudava com o dia, a hora e a estação. Não havia um desenho fixo.
A Goetia: círculo, serpente e triângulo
Na Goetia (séc. XVII), na edição de Mathers e Crowley (1904), o círculo tem nove pés e um desenho fixo:
- uma serpente enrolada entre os anéis, com nomes hebraicos escritos ao longo do corpo;
- os nomes divinos e angélicos das sefirot da Cabala, de Ehyeh a Levanah (a Lua);
- hexagramas com as letras de Adonai e pentagramas com as sílabas de Tetragrammaton.
Fora do círculo, a dois pés de distância, fica o triângulo de três pés, com os nomes Anaphaxeton, Tetragrammaton, Primeumaton e o arcanjo Miguel. Era aí, e não no círculo, que o espírito deveria aparecer.
O texto diz que Salomão fez o círculo para se preservar da malícia dos espíritos.
➜ Invocação e evocação: a diferença
Um relato real: Cellini no Coliseu
Um dos testemunhos mais vivos vem do escultor florentino Benvenuto Cellini. Na sua autobiografia (escrita c. 1558–1563 e só impressa em 1728), conta que, nos anos 1530, acompanhou um padre siciliano a uma conjuração noturna no Coliseu de Roma.
O padre traçou círculos no chão com muitas cerimónias, queimou perfumes e substâncias de mau cheiro, e Cellini segurou um pentáculo. Cellini garante ter visto legiões de demónios.
É um testemunho pessoal, contado décadas depois por um autor famoso pelo exagero. Mostra, ainda assim, que estas práticas existiam no Renascimento, e que um padre podia conduzi-las.
Na lenda: Fausto
No livro popular alemão sobre o Doutor Fausto (1587), o protagonista traça círculos mágicos numa encruzilhada, à noite, para chamar o diabo.
A literatura fixou assim a imagem: o círculo é a fronteira entre o mago e o demónio.
Na Wicca: um espaço sagrado
Na Wicca, criada em Inglaterra nos anos 1950, «lançar o círculo» abre quase todos os rituais. Mudou o sentido:
- o círculo já não é uma barreira contra demónios, mas um espaço sagrado partilhado pelo grupo;
- costuma ter nove pés, a mesma medida dos grimórios;
- os quatro pontos cardeais são associados aos quatro elementos;
- traça-se muitas vezes com o athame (faca ritual) e desfaz-se no fim.
É uma convenção ritual moderna, que varia de grupo para grupo.
➜ Wicca
O que nunca foi
O círculo não é uma barreira física, nem há prova de que proteja de alguma coisa. Para quem o usa hoje, vale como marca de concentração e de respeito pelo momento.
Se usar velas ou incenso num ritual, faça-o com segurança: nunca sem vigilância, castiçal estável, longe de tecidos, janela aberta.
➜ Como usar velas com segurança
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Fontes
- Heptameron, trad. inglesa de Robert Turner (1655), ed. J. H. Peterson — esotericarchives.com
- Mathers e Crowley (ed.), The Book of the Goetia of Solomon the King, 1904: o círculo e o triângulo — sacred-texts.com
- «Magic circle», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Benvenuto Cellini, Vida, livro I (escrita c. 1558–1563).
- Richard Kieckhefer, Forbidden Rites: A Necromancer's Manual of the Fifteenth Century, Pennsylvania State University Press, 1997.