Saltar para o conteúdo

🏛️ Enciclopédia do Oculto

Invocação e evocação: qual é a diferença?

Invocar e evocar não são o mesmo: o sentido das palavras, a evocatio romana, a teurgia, os grimórios com círculo e triângulo, a Golden Dawn e Crowley, e a liturgia.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. O que dizem as palavras
  2. A evocatio romana
  3. Teurgia: cooperar, não obrigar
  4. Os grimórios: círculo para o mago, triângulo para o espírito
  5. A Golden Dawn e Crowley: a distinção moderna
  6. Na liturgia e na tradição popular
  7. E o espiritismo?
  8. Em resumo
  9. Continue a ler
  10. Fontes

No português corrente, «invocar» e «evocar» usam-se quase como sinónimos. Na magia cerimonial, porém, são duas coisas diferentes, e a distinção ajuda a ler grimórios, livros ocultistas e até textos religiosos.

Em poucas palavras: na tradição ocultista moderna, invocar é chamar uma força para dentro de si (ou do espaço ritual), e evocar é chamar um espírito para fora, para que se manifeste diante do operador.

Esta página explica de onde vem a distinção e como foi usada ao longo da história. Descrevemos; não ensinamos a invocar nem a evocar nada.

➜ Invocação de espíritos: história e riscos

O que dizem as palavras

Ambas vêm do latim vocare, «chamar».

Palavra Sentido original
Invocar (invocare) Chamar por alguém, pedir o seu auxílio
Evocar (evocare) Chamar para fora, fazer sair

Em português, «invocar» é sobretudo uma palavra religiosa: invoca-se um santo, invoca-se o nome de Deus. Uma igreja é dedicada «sob a invocação» de Nossa Senhora ou de um santo padroeiro.

«Evocar» ganhou outros sentidos: evocar uma memória, evocar uma época. No ocultismo e no espiritismo, ficou ligado ao chamamento dos espíritos.

A evocatio romana

O exemplo antigo mais claro de «evocação» é romano. Durante um cerco, os generais de Roma faziam a evocatio: chamavam o deus protetor da cidade inimiga para fora das muralhas, prometendo-lhe em Roma um templo e um culto melhores.

O caso mais célebre é o de Veios, cidade etrusca conquistada em 396 a.C. Segundo o historiador Tito Lívio, a deusa Juno Rainha foi assim «convidada» a mudar-se para Roma.

Aqui «evocar» é literalmente fazer sair uma divindade do seu lugar. É um ritual de Estado, não de feiticeiros.

Teurgia: cooperar, não obrigar

Na Antiguidade tardia, os filósofos neoplatónicos praticaram a teurgia («obra divina»): ritos para unir a alma aos deuses.

O filósofo Jâmblico (c. 242–c. 325) insistia num ponto: a teurgia não obriga os deuses. É uma cooperação com eles. Esta ideia separava, para os próprios antigos, a teurgia da goēteia, a feitiçaria vulgar.

A diferença vai pesar séculos depois: entre a oração que pede e a conjuração que ordena.

➜ Neoplatonismo e teurgia

Os grimórios: círculo para o mago, triângulo para o espírito

Os grimórios medievais e do Renascimento são, na linguagem moderna, manuais de evocação. O espírito é chamado a aparecer fora do operador, que fica protegido dentro de um círculo.

A Goetia (séc. XVII) é o exemplo mais claro. Na edição de 1904:

  • o operador fica num círculo de nove pés de diâmetro, cheio de nomes divinos;
  • fora dele, a dois pés de distância, desenha-se o triângulo de Salomão, virado para o lado de onde viria o espírito;
  • é nesse triângulo que o espírito deveria manifestar-se.

O tom é de comando. O livro inclui textos com títulos como «A Coação» e «A Maldição Geral», para obrigar espíritos desobedientes. É o oposto da teurgia de Jâmblico.

Não reproduzimos estas fórmulas. Interessam-nos como documento de uma mentalidade.

➜ O círculo mágico nos grimórios

➜ Os 72 espíritos da Goetia

A Golden Dawn e Crowley: a distinção moderna

A separação nítida entre os dois termos é obra do ocultismo inglês do fim do século XIX.

Na Golden Dawn (fundada em 1888), «invocar» passou a designar rituais em que o praticante se identifica com uma força divina. Uma técnica típica era a «assunção das formas divinas»: visualizar-se com a figura de um deus, muitas vezes egípcio.

Aleister Crowley resumiu a ideia no primeiro capítulo de Magick in Theory and Practice (1929): invocar é «chamar para dentro», evocar é «chamar para fora». Para ele, eram os dois ramos da magia.

Termo Na tradição ocultista moderna
Invocação Para dentro: um deus ou força «superior», no próprio praticante
Evocação Para fora: um espírito «inferior», no triângulo, fora do círculo

(Esta tabela resume a interpretação esotérica moderna. Não descreve factos demonstrados.)

Na Wicca, o ritual de «puxar a Lua» (Drawing Down the Moon) é entendido como uma invocação: a deusa falaria através da sacerdotisa.

➜ A Golden Dawn

➜ Wicca

Na Igreja, «invocação» tem um sentido próprio e antigo: a oração dirigida a Deus, à Virgem ou aos santos, para pedir a sua intercessão. A Ladainha de Todos os Santos é uma longa série de invocações.

Na missa, a oração que pede a descida do Espírito Santo sobre o pão e o vinho chama-se epiclese, do grego epíklēsis, «invocação».

A tradição popular portuguesa seguiu o mesmo modelo. As benzedeiras e os ensalmadores, ao benzer o quebranto ou o mau-olhado, invocam Deus, a Virgem e os santos. Não «evocam» espíritos.

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

E o espiritismo?

O espiritismo de Allan Kardec fala de evocação dos espíritos, por exemplo no Livro dos Médiuns (1861). O sentido é outro: chamar os espíritos dos mortos para comunicarem, sem círculos nem conjurações.

Em resumo

  • No uso corrente, as palavras quase se confundem.
  • Na religião, invoca-se Deus ou os santos: é oração.
  • Nos grimórios, evoca-se (e muitas vezes ordena-se) um espírito, fora do círculo.
  • No ocultismo moderno, invocar é «para dentro», evocar é «para fora».

Nenhuma destas práticas tem efeitos demonstrados. Se sente presenças, vozes ou medo persistente, fale com o seu médico.

Continue a ler

➜ O círculo mágico nos grimórios

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa

Fontes

  • Aleister Crowley, Magick in Theory and Practice, 1929, cap. I — sacred-texts.com
  • S. L. MacGregor Mathers e A. Crowley (ed.), The Book of the Goetia of Solomon the King, 1904 (o triângulo) — sacred-texts.com
  • «Evocatio», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • «Invocation» e «Evocation», Wikipedia — en.wikipedia.org
  • Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro V.

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Enciclopédia do Oculto ›