No português corrente, «invocar» e «evocar» usam-se quase como sinónimos. Na magia cerimonial, porém, são duas coisas diferentes, e a distinção ajuda a ler grimórios, livros ocultistas e até textos religiosos.
Em poucas palavras: na tradição ocultista moderna, invocar é chamar uma força para dentro de si (ou do espaço ritual), e evocar é chamar um espírito para fora, para que se manifeste diante do operador.
Esta página explica de onde vem a distinção e como foi usada ao longo da história. Descrevemos; não ensinamos a invocar nem a evocar nada.
➜ Invocação de espíritos: história e riscos
O que dizem as palavras
Ambas vêm do latim vocare, «chamar».
| Palavra | Sentido original |
|---|---|
| Invocar (invocare) | Chamar por alguém, pedir o seu auxílio |
| Evocar (evocare) | Chamar para fora, fazer sair |
Em português, «invocar» é sobretudo uma palavra religiosa: invoca-se um santo, invoca-se o nome de Deus. Uma igreja é dedicada «sob a invocação» de Nossa Senhora ou de um santo padroeiro.
«Evocar» ganhou outros sentidos: evocar uma memória, evocar uma época. No ocultismo e no espiritismo, ficou ligado ao chamamento dos espíritos.
A evocatio romana
O exemplo antigo mais claro de «evocação» é romano. Durante um cerco, os generais de Roma faziam a evocatio: chamavam o deus protetor da cidade inimiga para fora das muralhas, prometendo-lhe em Roma um templo e um culto melhores.
O caso mais célebre é o de Veios, cidade etrusca conquistada em 396 a.C. Segundo o historiador Tito Lívio, a deusa Juno Rainha foi assim «convidada» a mudar-se para Roma.
Aqui «evocar» é literalmente fazer sair uma divindade do seu lugar. É um ritual de Estado, não de feiticeiros.
Teurgia: cooperar, não obrigar
Na Antiguidade tardia, os filósofos neoplatónicos praticaram a teurgia («obra divina»): ritos para unir a alma aos deuses.
O filósofo Jâmblico (c. 242–c. 325) insistia num ponto: a teurgia não obriga os deuses. É uma cooperação com eles. Esta ideia separava, para os próprios antigos, a teurgia da goēteia, a feitiçaria vulgar.
A diferença vai pesar séculos depois: entre a oração que pede e a conjuração que ordena.
Os grimórios: círculo para o mago, triângulo para o espírito
Os grimórios medievais e do Renascimento são, na linguagem moderna, manuais de evocação. O espírito é chamado a aparecer fora do operador, que fica protegido dentro de um círculo.
A Goetia (séc. XVII) é o exemplo mais claro. Na edição de 1904:
- o operador fica num círculo de nove pés de diâmetro, cheio de nomes divinos;
- fora dele, a dois pés de distância, desenha-se o triângulo de Salomão, virado para o lado de onde viria o espírito;
- é nesse triângulo que o espírito deveria manifestar-se.
O tom é de comando. O livro inclui textos com títulos como «A Coação» e «A Maldição Geral», para obrigar espíritos desobedientes. É o oposto da teurgia de Jâmblico.
Não reproduzimos estas fórmulas. Interessam-nos como documento de uma mentalidade.
➜ O círculo mágico nos grimórios
A Golden Dawn e Crowley: a distinção moderna
A separação nítida entre os dois termos é obra do ocultismo inglês do fim do século XIX.
Na Golden Dawn (fundada em 1888), «invocar» passou a designar rituais em que o praticante se identifica com uma força divina. Uma técnica típica era a «assunção das formas divinas»: visualizar-se com a figura de um deus, muitas vezes egípcio.
Aleister Crowley resumiu a ideia no primeiro capítulo de Magick in Theory and Practice (1929): invocar é «chamar para dentro», evocar é «chamar para fora». Para ele, eram os dois ramos da magia.
| Termo | Na tradição ocultista moderna |
|---|---|
| Invocação | Para dentro: um deus ou força «superior», no próprio praticante |
| Evocação | Para fora: um espírito «inferior», no triângulo, fora do círculo |
(Esta tabela resume a interpretação esotérica moderna. Não descreve factos demonstrados.)
Na Wicca, o ritual de «puxar a Lua» (Drawing Down the Moon) é entendido como uma invocação: a deusa falaria através da sacerdotisa.
➜ Wicca
Na liturgia e na tradição popular
Na Igreja, «invocação» tem um sentido próprio e antigo: a oração dirigida a Deus, à Virgem ou aos santos, para pedir a sua intercessão. A Ladainha de Todos os Santos é uma longa série de invocações.
Na missa, a oração que pede a descida do Espírito Santo sobre o pão e o vinho chama-se epiclese, do grego epíklēsis, «invocação».
A tradição popular portuguesa seguiu o mesmo modelo. As benzedeiras e os ensalmadores, ao benzer o quebranto ou o mau-olhado, invocam Deus, a Virgem e os santos. Não «evocam» espíritos.
➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal
E o espiritismo?
O espiritismo de Allan Kardec fala de evocação dos espíritos, por exemplo no Livro dos Médiuns (1861). O sentido é outro: chamar os espíritos dos mortos para comunicarem, sem círculos nem conjurações.
Em resumo
- No uso corrente, as palavras quase se confundem.
- Na religião, invoca-se Deus ou os santos: é oração.
- Nos grimórios, evoca-se (e muitas vezes ordena-se) um espírito, fora do círculo.
- No ocultismo moderno, invocar é «para dentro», evocar é «para fora».
Nenhuma destas práticas tem efeitos demonstrados. Se sente presenças, vozes ou medo persistente, fale com o seu médico.
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➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa
Fontes
- Aleister Crowley, Magick in Theory and Practice, 1929, cap. I — sacred-texts.com
- S. L. MacGregor Mathers e A. Crowley (ed.), The Book of the Goetia of Solomon the King, 1904 (o triângulo) — sacred-texts.com
- «Evocatio», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Invocation» e «Evocation», Wikipedia — en.wikipedia.org
- Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro V.