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🏺 Tradição Portuguesa

Açores: bruxaria e folclore

Festas do Espírito Santo, romeiros de São Miguel, bruxas e lobisomens nos contos da Terceira e São Jorge, a Inquisição nas ilhas e a fé dos baleeiros.

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Teófilo Braga: um açoriano nas origens da etnografia portuguesa
  2. As festas do Espírito Santo (devoção religiosa)
  3. Os romeiros de São Miguel
  4. Bruxas, lobisomens e fadas nos contos das ilhas
  5. A Inquisição nos Açores (facto histórico)
  6. A fé dos homens do mar
  7. Continue a ler
  8. Fontes

Os Açores têm uma religiosidade popular muito própria, moldada pelo isolamento, pelos sismos, pelo mar e pela emigração. As festas do Espírito Santo e os romeiros de São Miguel não existem desta forma em mais nenhum lugar.

Ao lado da fé oficial, os contos das ilhas guardam bruxas, lobisomens e fadas, como no continente.

Nesta página separamos o que é devoção religiosa, o que é conto e crença popular e o que é história documentada.

Teófilo Braga: um açoriano nas origens da etnografia portuguesa

Teófilo Braga nasceu em Ponta Delgada a 24 de fevereiro de 1843 e morreu em Lisboa em 1924. Foi escritor, historiador da literatura e Presidente da República, e um dos primeiros a recolher sistematicamente a tradição oral portuguesa.

Três obras suas são essenciais:

Obra Ano
Cantos populares do Archipelago açoriano 1869
Contos tradicionais do povo português 1883
O povo português nos seus costumes, crenças e tradições 1885

As festas do Espírito Santo (devoção religiosa)

São a grande festa dos Açores. Decorrem nas sete semanas depois da Páscoa, até ao Pentecostes, e em muitas ilhas prolongam-se pelo verão.

Origem: história e tradição

  • Tradição: o culto do «Império» terá sido introduzido em Portugal pela Rainha Santa Isabel, em Alenquer, no início do século XIV. A distribuição de pão e comida aos pobres lembra a caridade atribuída à rainha.
  • História: o culto chegou às ilhas com os primeiros povoadores, a partir de 1432, e no século XVI já estava espalhado por todo o arquipélago.
  • Interpretação: alguns autores veem nestas festas ecos das ideias de Joaquim de Fiore sobre uma «idade do Espírito Santo». É uma hipótese de estudiosos, não um facto provado.

Os elementos da festa

  • A coroação: uma pessoa, muitas vezes uma criança, é coroada na igreja com a coroa e o cetro do Espírito Santo.
  • O império: pequena capela onde se expõem as insígnias e se distribui comida.
  • As sopas do Espírito Santo: refeição comunitária oferecida a quem chega.

A emigração levou estas festas para o Brasil (desde o século XVIII), para Massachusetts, Califórnia e Havai (século XIX) e para o Canadá.

É uma festa católica e popular, não uma prática mágica. Mas mostra bem como a fé açoriana se organiza em comunidade, à margem do clero.

Os romeiros de São Miguel

Todos os anos, durante a Quaresma, grupos de homens dão a volta à ilha de São Miguel a pé, a rezar, visitando igrejas e ermidas, numa devoção sobretudo mariana.

Origem nas catástrofes do século XVI

Segundo o pedido de inventariação como património imaterial, a tradição nasce das calamidades do século XVI: o terramoto de 1522, que soterrou Vila Franca do Campo, a peste de 1523 e o terramoto de 1563.

Como se organiza um rancho

Cada rancho tem seis figuras principais: o mestre, que o conduz e leva a campainha que o faz parar e andar, o contramestre, o lembrador das almas, o procurador das almas, os guias e o cruzado.

Cada romeiro leva xaile, lenço, bordão, saca e terço. Os ranchos vão de cerca de 20 a 150 homens. A Avé-Maria dos romeiros é o seu canto característico. A Diocese de Angra publicou o primeiro regulamento em 1962.

➜ Oração às almas

Bruxas, lobisomens e fadas nos contos das ilhas

A tradição oral açoriana conhece as mesmas figuras do continente. Em 2024, Manuel da Costa Fontes e Paulo Jorge Correia publicaram os Contos Populares Açorianos (Terceira e São Jorge), uma recolha com mais de 500 páginas que inclui histórias de fadas, lobisomens e bruxas.

Estas histórias são contos e crenças populares, que dizem muito sobre os medos e o imaginário das comunidades. Não são relatos de factos.

➜ As fadas no folclore

➜ O diabo na tradição portuguesa

A «Ilha da Magia», no Brasil

As crenças açorianas atravessaram o Atlântico. Na ilha de Santa Catarina (Florianópolis), povoada no século XVIII por muitos açorianos, o artista e investigador Franklin Cascaes (1908–1983) recolheu durante cerca de 30 anos lendas de bruxas e outros seres fantásticos.

A sua obra O fantástico na Ilha de Santa Catarina contribuiu para a fama de Florianópolis como «Ilha da Magia».

A Inquisição nos Açores (facto histórico)

Os Açores nunca tiveram tribunal próprio. Dependiam do tribunal de Lisboa, que enviou visitações às ilhas em 1575–1576, 1592–1593 e 1619–1620.

Segundo o historiador Paulo Drumond Braga, 112 residentes nos Açores foram processados pela Inquisição entre 1557 e 1802. Os crimes mais frequentes eram judaísmo, bigamia e «proposições» (afirmações heréticas), não a feitiçaria.

➜ A Inquisição em Portugal

➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa

A fé dos homens do mar

Nas Lajes do Pico, os baleeiros têm por padroeira Nossa Senhora de Lourdes. Segundo a tradição local, a Virgem protegeu vários baleeiros durante uma tempestade em 1882, quando tentavam entrar no porto.

A Semana dos Baleeiros termina com a procissão de Nossa Senhora de Lourdes. A caça à baleia terminou oficialmente nos Açores em 1984; a última baleia foi caçada em 1987.

Continue a ler

➜ Madeira: bruxaria e folclore

➜ Benzedeiras e rezadeiras em Portugal

➜ Tradição portuguesa

Fontes

  • «Pedido de inventariação — Romeiros de São Miguel», Património Cultural, I.P. — patrimoniocultural.gov.pt (PDF)
  • «Irmandades do Divino Espírito Santo» e «Teófilo Braga», Wikipédia — pt.wikipedia.org
  • Manuel da Costa Fontes e Paulo Jorge Correia, Contos Populares Açorianos (Terceira e São Jorge), Letras Lavadas, 2024 — letraslavadas.pt
  • Paulo Drumond Braga, A Inquisição nos Açores, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1997; e «Inquisição e os soldados dos presídios açorianos (1591–1619)», Arquipélago, III, 1999.
  • Município das Lajes do Pico, «A Baleação» — cm-lajesdopico.pt

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